Quando começou a visitar fazendas para levantar informações sobre custos de produção ainda como pesquisadora do Cepea/Esalq, a agrônoma Gabriela Ribeiro percebeu que boa parte dos pecuaristas ainda administrava os negócios de uma forma analógica: cadernos de bolso, planilhas espalhadas e pilhas de notas fiscais.

A constatação acabou dando origem à InLida, agtech fundada em 2019 em Piracicaba (SP), que neste ano lançou a segunda geração de sua plataforma de gestão de rebanhos.

A empresa reúne hoje mais de 30 mil propriedades cadastradas, 90 mil inseminações acompanhadas digitalmente pela plataforma, 300 mil animais registrados e recebeu mais de R$ 1 milhão em investimentos desde sua criação.

Ribeiro, que atua como CEO na startup, conta que a ideia do negócio surgiu justamente ao perceber que o cálculo dos custos de produção esbarrava, antes de tudo, na dificuldade dos produtores em organizar as informações básicas da fazenda.

"Visitando os produtores, vi que para chegar no custo de produção a gente precisava primeiro dos indicadores produtivos. Quando falava nisso, eles pegavam vários cadernos. Era tudo feito à mão", contou ao AgFeed.

Gabriela Ribeiro saiu do Cepea, a princípio, para atender alguns produtores como consultora. Foi então que ela e seu marido e sócio, Marco Milan, decidiram procurar uma ferramenta que resolvesse esse problema de gestão analógica. Como não encontraram nenhuma solução voltada ao pequeno produtor e com baixo custo, resolveram desenvolver o próprio sistema.

"A gente procurou um sistema que fosse fácil, simples e não tivesse custo alto. Procuramos, isso lá em 2018 mais ou menos, e não encontramos nada nesse sentido. Aí decidimos fazer, inicialmente com um protótipo em um software aberto e posteriormente com um programador uma solução nossa", disse.

O projeto começou ainda dentro da incubadora EsalqTec e ganhou tração poucos meses antes do início da pandemia de Covid-19, quando a empresa recebeu seu primeiro investimento-anjo, de Bernhard Kiep, produtor rural e pecuarista que também passou a utilizar a plataforma em sua propriedade.

A primeira versão da plataforma foi lançada de forma gratuita. Na época, o modelo de negócio previa que empresas do setor patrocinassem o acesso dos produtores à ferramenta, permitindo que a startup ganhasse escala sem cobrar dos usuários. Tortuga e Corteva foram duas companhias que realizaram essa parceria.

A estratégia levou a InLida a atingir a marca de 30 mil cadastros em todo o país, mas perdeu força depois da pandemia e posterior retração do mercado pecuário, que reduziu o interesse das empresas e o próprio apetite dos pecuaristas.

Foi então que a startup decidiu reconstruir a plataforma e migrar para um modelo de assinatura mensal (SaaS), mantendo, segundo a CEO, a proposta de oferecer uma ferramenta acessível aos pequenos e médios pecuaristas.

"Como a tecnologia evolui muito rápido, entendemos que precisávamos fazer uma plataforma nova, com mais recursos. Hoje trabalhamos no modelo de assinatura, mas continuando com a ideia de que o custo não fosse impeditivo. Temos produtor com menos de 50 cabeças que paga cerca de R$ 30 por mês", afirmou.

A reformulação também atraiu um novo investidor. Marcos Ermírio de Moraes, pecuarista e membro da tradicional família de empresários, passou a integrar o quadro societário da empresa após utilizar a primeira versão da plataforma em sua fazenda no Mato Grosso do Sul.

Segundo Gabriela, tanto ele quanto Bernhard Kiep participam ativamente do desenvolvimento das ferramentas, levando para a equipe as demandas observadas no dia a dia das propriedades.

"Os dois são produtores e conversam muito com a gente. Quando fomos desenvolver a plataforma, passamos muito tempo nas fazendas junto com os 'vaqueiros', porque são eles que alimentam as informações. Fizemos o sistema no formato do caderno de bolso justamente para não ficar difícil de usar", disse. No material do site da empresa, a Inlida se intitula "sua caderneta de campo digital".

Neste ano, a empresa lançou oficialmente a versão 2.0 da plataforma. Além de melhorias de desempenho, o sistema passou a oferecer novos indicadores reprodutivos, previsão de partos, histórico das matrizes e ferramentas de análise voltadas ao manejo dos animais.

Nas estimativas da empresária, cerca de 10% das mais de 30 mil propriedades cadastradas utilizam atualmente a nova plataforma. Por isso, a prioridade da startup neste momento é acelerar a migração dos usuários da versão anterior para o novo sistema e ampliar a base de assinantes.

A plataforma funciona em duas frentes. Pelo aplicativo, o produtor ou os funcionários da fazenda registram informações diretamente no campo, mesmo sem conexão à internet, já que os dados são sincronizados posteriormente.

Na versão web, esses registros são transformados em indicadores gerenciais, como taxas de prenhez, natalidade e desmama, além de relatórios que auxiliam na tomada de decisão.

Apesar da crescente oferta de softwares para pecuária, Ribeiro acredita que ainda existe um espaço pouco atendido pelas empresas de tecnologia: o dos pequenos e médios produtores voltados à cria.

Enquanto plataformas como a JetBov concentram boa parte da atuação em fazendas de maior porte, normalmente com centenas ou milhares de animais, a InLida decidiu construir seu produto pensando em propriedades menores.

Na média, ela cita que os produtores atendidos pela InLida possuem cerca de 100 cabeças de gado.

"Sempre tivemos muito pequeno produtor usando a plataforma. Tem cliente com quatro cabeças e também produtor com oito mil animais, mas nosso foco é o pequeno e o médio produtor. Na cria existe uma quantidade muito grande de informações reprodutivas, sanitárias e zootécnicas que precisam ser organizadas", afirmou.

Resumo

  • Fundada em 2019, a InLida reúne 30 mil fazendas, 300 mil animais cadastrados e 90 mil inseminações monitoradas
  • A startup captou mais de R$ 1 milhão e lançou a plataforma 2.0, com novos indicadores reprodutivos e gestão do rebanho
  • Com assinaturas a partir de R$ 30/mês, a agtech mira pequenos e médios pecuaristas; 10% da base já usa a nova versão