Das quatro maiores empresas processadoras de trigo no País, três são brasileiras “nascidas” no Ceará, mas seguem expandindo operações em outros estados.

É o caso do Grande Moinho Cearense (GMC), que leva o estado de origem no nome, mas, diferentemente dos concorrentes M. Dias Branco e J.Macêdo, não foi para o Sul, mantém uma estratégia concentrada nos mercados das regiões Norte e Nordeste.

O GMC faz parte do Grupo Jeireissati, foi fundado em 1959 por Carlos, pai do ex-senador e ex-governador do Ceará Tasso Jereissati.

Ao longo das últimas décadas, a empresa foi crescendo e hoje ocupa o quarto lugar entre os moinhos de trigo do País. São duas unidades fabris hoje em operação: na sede em Fortaleza (CE) e em Teresina (PI), além de centros de distribuição e comerciais em outros estados.

Em entrevista exclusiva ao AgFeed, o presidente do Grande Moinho Cearense, Carlos Augusto Neves da Rocha, revelou que daqui dois meses será inaugurada mais uma unidade moageira da empresa, desta vez em Salvador (BA).

“É para atender melhor o mercado da Bahia, porque a gente já vende na Bahia, já vende em Sergipe, já vende em Alagoas. Mas essa farinha toda tem que sair de Fortaleza. E o frete para o nosso setor, ele pesa muito. A gente não tem um produto de valor agregado alto”, explicou.

O investimento, segundo ele, é de R$ 230 milhões para o novo moinho. A expectativa é de que a unidade também permita atender alguns clientes das áreas mais ao norte do Espirito Santo, Minhas Gerais e Goiás.

Em Salvador a capacidade de moagem será de 500 toneladas de trigo por dia, o que deve elevar em 30% o total da empresa, que poderia ultrapassar 2 mil toneladas/dia.

Outra diferença do Moinho Cearense em relação a seus principais concorrentes é foco absoluto na farinha e farelo de trigo. A empresa não inclui outros produtos, como massas e biscoitos.

Ano desafiador

A moagem de trigo no Brasil aumentou 0,5% no ano passado. Na visão dos empresários do setor, é um segmento que, historicamente, não cresce mais de 1%, por isso a estratégia precisa ser forte no controle de custos, para manter a competitividade.

O presidente do GMC também se diz preocupado com as mudanças recentes que elevaram a carga tributária para os moinhos, além da alta nas importações, com preços do trigo argentino ainda caros, apesar de uma qualidade inferior na última safra.

A inauguração do moinho em Salvador está também relacionada à tentativa de reduzir custos logísticos, além de fazer uma adequação à Reforma Tributária, que torna mais vantajoso estar perto dos clientes, segundo ele.

“É um ano muito desafiador por causa da matéria-prima, por causa do trigo argentino, que veio com qualidade muito inferior. Eu tenho 35 anos do setor, o trigo argentino veio com a a pior qualidade desses 35 anos”, afirmou Rocha.

Nesse cenário, ele diz que indústria se desdobra para que a qualidade do produto final não caia. “A gente é conhecido por manter sempre a qualidade do nosso produto constante independente das variações de safra”.

Uma das alternativas tem sido adicionar ao mix o trigo que passou a ser produzido no Cerrado nos últimos anos.

“Em anos como esse, por exemplo, em que o trigo argentino vem com grandes problemas, o trigo do Cerrado ajuda, não vou dizer a resolver porque o volume ainda é pequeno, mas ele ajuda na equação”.

No balanço de 2025 divulgado no início deste ano o GMC reportou uma receita de R$ 1,12 bilhão. Segundo o executivo, é possível que a receita seja parecida este ano, mas os custos podem pesar mais sobre a rentabilidade.

Para o GMC, uma alternativa ao trigo argentino que segue com preços elevados, seria trazer o cereal da Rússia. Porém, o cenário do conflito com a Ucrânia ainda mantém esse mercado “travado”, segundo o presidente.

Na região Sul, maior produtora de trigo no Brasil, a quebra de safra por problemas climáticos não está garantindo matéria-prima nem para os moinhos que estão próximos a lavoura, portanto, é algo economicamente inviável para quem está no Nordeste.

Quanto a 2027, Carlos Augusto acredita que ainda há chance de ser “uma repetição do ano difícil que tem sido o 2026”.

A possibilidade de repassar aos preços do produto final é limitada. “A gente tenta repassar, mas existe uma competição muito acirrada, a economia desacelerando. Então, nem sempre você repassa aquilo que você gostaria”, disse. “Aí você acaba incorrendo em estreitamento de margem”.

Resumo

  • Grande Moinho Cearense investiu R$ 230 milhões em nova unidade que será inaugurada em Salvador (BA), no mês de janeiro
  • Empresa prevê aumentar capacidade de moagem em 30% e promete manter foco estratégico em farinho e farelo de trigo
  • Para 2026, GMC projeta resultado semelhante ao ano passado, em meio ao aumento de custos tributários, logísticos e de importação de trigo argentino