O mercado de Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais, os populares Fiagros, passa por uma mudança significativa, acelerada nas últimas semanas.

Inicialmente impulsionado pelos fundos negociados na B3, o segmento agora cresce principalmente por meio de veículos cetipados e fundos de participação societária.

A transformação começou a ganhar força no final de 2023 e registrou um salto nos últimos dois meses, quando o patrimônio total da indústria avançou R$ 21,8 bilhões.

O crescimento ficou quase totalmente concentrado nos fundos não listados na B3, incluindo cetipados e os classificados como “outros”.

Em setembro de 2026, os Fiagros somavam R$ 88,2 bilhões, crescimento de 32,9% em relação aos R$ 66,4 bilhões registrados em julho, segundo levantamento de Octaciano Neto, fundador da Zera.Ag.

A maior parcela está concentrada nos fundos classificados como “outros”, predominantemente utilizados para participações societárias e estruturas patrimoniais, com aproximadamente R$ 43 bilhões, equivalentes a quase metade do mercado.

Os cetipados, registrados em ambiente de balcão, somam cerca de R$ 31 bilhões, enquanto os listados na B3 permanecem próximos de R$ 14 bilhões.

Em 2023, os fundos listados haviam alcançado aproximadamente R$ 14 bilhões e representavam uma parcela muito maior do mercado.

Desde então, seu patrimônio praticamente não cresceu, enquanto os cetipados avançaram e os demais veículos ampliaram sua participação.

"Os veículos são usados de forma diferente. Os listados têm renda e crédito, os cetipados basicamente crédito, e os outros, majoritariamente participação societária", explica Neto.

Salto bilionário desde julho

O crescimento recente ficou concentrado em alguns fundos de grande porte, tanto de crédito quanto de participações societárias.

O professor Luiz Caffagni, pesquisador de fundos de investimento ligado à FGV Agro, identificou, a partir de informações públicas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), alguns dos principais veículos responsáveis pelo aumento patrimonial desde julho.

Fiagro em gráfico
Evolução dos Fiagros desde janeiro de 2022

Entre eles estão os megafiagros lançados por instituições como Itaú, BTG Pactual e XP. Em setembro, o XP CDI CRA fechoucom R$ 5,30 bilhões, o Itaúba Fiagro com R$ 3,46 bilhões e o Fiagro BTG Pactual I com R$ 2,21 bilhões. Outros dois fundos da XP, o CDI 94 CRA I e o CDI 95 CRA I, registraram R$ 1,80 bilhão cada.

Já o JMF Fundo de Investimento em Participações e outro fundo de participações em cadeias produtivas passaram de aproximadamente R$ 2,17 bilhões em julho para R$ 5,34 bilhões cada em setembro.

Juntos, esses sete veículos responderam por aproximadamente R$ 20 bilhões da variação patrimonial registrada no período, considerando os valores informados no levantamento.

O aumento não corresponde necessariamente a novas captações. Parte da variação pode decorrer de transferências de ativos, reorganizações societárias ou alterações nos registros dos fundos.

Segundo Caffagni, oscilações dessa magnitude exigem a identificação individual dos fundos envolvidos para distinguir operações efetivas de possíveis problemas de classificação e preenchimento dos dados.

Listados perdem espaço

A estagnação dos Fiagros negociados na B3 começou no final de 2023, em meio à deterioração das condições financeiras de empresas do agronegócio.

O pedido de recuperação judicial da AgroGalaxy, em setembro de 2024, ampliou a preocupação dos investidores pessoas físicas com o risco de crédito no setor, em um movimento de perda de confiança que já estava em curso.

“Este tipo de investidor morre com o barulho do tiro. Ou seja, saem do mercado em qualquer oscilação. Isso também afastoa os grandes investidores, que foram para modalidades cetipadas ou não organizadas”, analisou Octaciano Neto.

Quando as cotas são negociadas abaixo do valor patrimonial, novas ofertas tornam-se menos atraentes, especialmente para os investidores que já participam desses fundos.

Nesse cenário, instituições financeiras como XP e BTG Pactual passaram a ampliar a distribuição de veículos registrados em balcão, voltados principalmente a investidores com maior capacidade de manter recursos aplicados por períodos prolongados.

Os Fiagros listados permitem negociar cotas na B3, de maneira semelhante às ações. Já os cetipados são registrados em ambiente de balcão e não oferecem necessariamente a mesma liquidez.

Para Caffagni, essa diferença ajuda a explicar o perfil dos investidores de cada modalidade.

A possibilidade de vender cotas na bolsa é particularmente importante para pessoas físicas, embora a estrutura envolva custos de depósito, registro e intermediação.

Os cetipados podem atender melhor investidores profissionais, grandes investidores e family offices, que não dependem da negociação frequente das cotas. "Esses investidores não têm a necessidade de sair fora do fundo", afirmou Caffagni.

Fiagros de holdings

Os fundos classificados como “outros” concentram atualmente a maior parcela dos recursos da indústria.

Diferentemente dos cetipados, predominantemente voltados ao crédito, esses veículos apresentam maior participação de investimentos societários.

Parte dessas estruturas permite reunir participações em empresas e ativos vinculados às cadeias agroindustriais, em operações semelhantes às realizadas por holdings.

Segundo Neto, o crescimento pode estar relacionado à busca por instrumentos de organização patrimonial e gestão de participações empresariais.

A regulamentação definitiva dos Fiagros, aprovada em 2024, também pode ter contribuído para ampliar a utilização desses veículos.

Caffagni considera possível que parte dos recursos esteja vinculada a investimentos de longo prazo, incluindo participações societárias e aquisição de terras.

O professor também levanta a hipótese de eventuais vantagens tributárias ou mecanismos de proteção patrimonial nessas estruturas. "A avaliação depende das características jurídicas e financeiras de cada operação”, comentou.

Para ele, a expansão dos fundos não listados não representa necessariamente um desvio da finalidade original dos Fiagros.

"O instrumento foi criado para canalizar recursos ao agronegócio e pode cumprir esse objetivo com diferentes perfis de investidores, sejam pessoas físicas, instituições financeiras ou grandes grupos empresariais”, finalizou.

Resumo

  • Sete fundos concentram cerca de R$ 20 bilhões do crescimento patrimonial registrado desde julho
  • Fiagros negociados na B3 enfrentam dificuldades para captar recursos desde 2023
  • Participações societárias ganham espaço em estruturas que podem funcionar como holdings