A Raízen deu um importante passo para colocar em prática a reestruturação financeira que promete redesenhar os negócios da companhia, que teve seu pedido de recuperação extrajudicial homologado pela Justiça de São Paulo em julho, após acumular R$ 65 bilhões em dívidas.

Em assembleia geral realizada nesta sexta-feira, dia 30 de outubro, os acionistas da empresa aprovaram uma série de medidas necessárias à implementação do plano de RE da companhia.

De acordo com fato relevante divulgado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a operação inclui um aumento de capital que poderá chegar a R$ 39,8 bilhões e a separação das operações de açúcar, etanol e bioenergia das atividades de distribuição de combustíveis e lubrificantes.

Na operação de aumento de capital, está previsto um aporte de até R$ 3,5 bilhões da Shell, uma das acionistas da Raízen, além de uma possível contribuição adicional de R$ 500 milhões da Aguassanta Participações, do empresário Rubens Ometto

De acordo com o site NeoFeed, Ometto enviou uma carta à empresa, lida na assembleia, afirmando que pretende fazer o aporte dentro do prazo.

O aumento de capital será realizado por meio de três emissões simultâneas: ações ordinárias (ON) e preferenciais classe B (PNB), ambas ao preço de R$ 0,25 por papel, além de units compostas por uma ação ordinária e uma preferencial classe A (PNA), ao preço de R$ 0,50 por unidade.

A operação envolve principalmente a conversão de parte dos créditos detidos pelos credores em participação acionária.

Ainda segundo o NeoFeed, a Shell passará a ter entre 13% e 15% de participação acionária e se tornará o maior acionista individual da Raízen. Os credores devem ficar com 80% da companhia.

Antes, Shell e Cosan, holding de Rubens Ometto, tinham 44% de participação cada, e 12% das ações estavam no mercado.

Os credores esperam concluir a conversão de dívida em ações até 17 de dezembro, segundo informou o jornal Valor Econômico.

A operação deverá ser submetida ao conselho de administração da Raízen no próximo dia 6 de novembro, quando está prevista uma reunião para deliberar sobre sua aprovação. O período de preferência terá início no dia 9 de novembro de 2026 e se encerrará no dia 8 de dezembro.

Açúcar e etanol de um lado, combustíveis do outro

Outra decisão relevante foi a aprovação da cisão da Raízen, com a criação de duas companhias abertas, independentes e listadas em bolsa, cada uma concentrada em uma área de atuação.

De um lado ficará a Raízen Energia, que reunirá as operações de produção e comercialização de açúcar, etanol e bioenergia. Do outro, a Raízen S.A. ficará com os negócios de distribuição de combustíveis e lubrificantes da marca Shell.

Para viabilizar a aprovação, a assembleia aprovou a redução de capital da Raízen S.A. em até R$ 35 bilhões.

A redução de capital será realizada mediante a entrega aos acionistas de valores mobiliários emitidos pela Raízen Energia.

Com isso, os investidores passarão a ter participação nas empresas resultantes da reorganização, conforme as condições previstas no plano.

Além da separação societária, a Raízen informou que dará início aos trabalhos preparatórios para um processo competitivo destinado a avaliar a entrada de investidores no negócio de distribuição de combustíveis

A operação poderá ocorrer por diferentes estruturas, incluindo uma oferta pública secundária de ações.

Por enquanto, a Raízen não detalhou quais serão os efeitos da reorganização sobre os investimentos industriais, a operação das usinas ou o planejamento de produção agrícola.

Novos CEOs e conselhos

Em outro fato relevante, a Raízen também disse que as assembleias gerais haviam elegido os nomes que vão liderar as duas companhias e aprovado também os nomes que vão integrar os novos Conselhos de Administração das empresas, que terão sete membros e sete suplentes.

Lourival Nogueira Luz Jr., que já ocupava o cargo de CFO e diretor de RI da Raízen, passa a ser o CEO da Raízen S.A. Geovane Dilkin Consul foi o nome escolhido para presidir a Raízen Energia.

"A atual administração permanecerá inalterada até a homologação da capitalização da Raízen S.A., que depende do cumprimento das condições suspensivas previstas no Plano."

Os credores indicaram a maioria dos nomes e os líderes dos novos Conselho de Administração das duas companhias.

Com isso, Rubens Ometto deve deixar o comando do comitê, ainda que tenha uma cadeia assegurada em ambos os colegiados das empresas – se de fato fizer a capitalização.

Na Raízen S.A., Samuel Aguirre, indicado pelos credores, será o presidente do conselho. O colegiado será composto ainda por André Dorf, Maria Gordon, Paulo Souza Queiroz Figueiredo, todos indicados também pelos credores. A Shell indicou Felix Faber e Luiz Felipe Guimarães Coimbra para compor o grupo.

As assembleias aprovaram ainda a presença de Rubens Ometto no conselho, mas sua participação ainda depende da participação da Aguassanta na capitalização.

Na Raízen Energia, Julio Cesar de Toledo Piza Neto, também indicado pelos credores, será o presidente do Conselho da futura empresa.

Além dele, os credores também indicaram os nomes de Kenneth John Monaghan, Mário Martins Peixoto Netto e Nelson da Silva Cardoso de Oliveira para integrarem o grupo.

Felix Faber e Luiz Felipe Guimarães Coimbra foram os nomes indicados pela Shell. Rubens Ometto também poderá integrar o grupo, se cumprir as condições citadas acima.

Se o empresário não fizer a capitalização que prometeu, Roland Alexander Ilube, indicado pela Shell, entrará em seu lugar.

A eficácia dessas eleições está condicionada à homologação da capitalização da Raízen S.A., prevista para acontecer até o próximo 18 de dezembro.

Nesta semana, a Raízen já tinha tido uma importante vitória para dar continuidade ao seu processo de recuperação extrajudicial.

A companhia anunciou na última quarta-feira, dia 28 de outubro, que fechou um acordo de transação tributária com a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional e a Receita Federal, reduzindo em R$ 8,5 bilhões os débitos que a companhia tinha com a União. O saldo da Raízen ficou em R$ 8,2 bilhões, ante R$ 16,7 bilhões devidos anteriormente.

As ações da companhia tiveram alta de 7,14% ao longo desta sexta-feira e fecharam o dia cotadas a R$ 0,30 cada. No ano, porém, acumulam queda de 62,50% – passaram praticamente o ano inteiro até aqui abaixo de R$ 1.

Resumo

  • Acionistas da Raízen aprovam aumento de capital de até R$ 39,8 bilhões, incluindo conversão de dívidas em ações
  • Shell poderá aportar até R$ 3,5 bilhões na companhia, enquanto a Aguassanta avalia uma contribuição adicional de R$ 500 milhões
  • Plano prevê separar negócios de açúcar, etanol e bioenergia da distribuição de combustíveis, que poderá receber novos investidores