A terceira maior empresa processadora de trigo no Brasil, a J.Macêdo, dona de marcas conhecidas como a farinha Dona Benta e o macarrão Petybon, não está imune às dificuldades do setor em 2026, mas promete seguir investindo nos próximos cinco anos.
Assim como nos demais moinhos brasileiros, o ano vem sendo marcado na companhia por custos logísticos mais altos, com maior necessidade de importação de trigo, em meio à queda de mais de 30% na produção brasileira do cereal.
Em 2025, a J. Macêdo alcançou receita bruta de R$ 3,76 bilhões, o que representou um avanço de quase 5% em relação ao ano anterior.
Já em 2026, o cenário se mostra mais desafiador, como mostrou o AgFeed, com a maior importação de trigo dos últimos 30 anos.
“Esse ano de 2026, eu tenho dito dentro de casa que é um ano mais brigado. O setor convive com algumas mudanças estruturais, com uma pressão de custos relevantes frente ao mercado que se mostra com muita dificuldade de absorver repasses”, afirmou Irineu Pedrollo, diretor executivo da J. Macêdo, em entrevista exclusiva ao AgFeed, concedida durante o Congresso da Abitrigo, na última semana, no Rio de Janeiro.
Embora a companhia tenha capital fechado, reporta os dados financeiros trimestralmente. O balanço do período de abril a junho deste ano mostrou queda de 3,7% na receita e um recuo ainda mais significativo no lucro líquido, de 55,3%.
Para 2026 como um todo, o CEO acredita em volumes maiores de moagem, mas em crescimento “bem modesto”, de no máximo 2%, na receita.
“Nós poderíamos talvez crescer mais, faturar mais, mas teríamos que fazer sacrifícios que as nossas políticas de saudabilidade de margens não nos permitem. Nós fomos penalizados por mudanças tributárias, nós temos uma volatilidade no trigo, que é a nossa principal matéria-prima, por questões geopolíticas principalmente, uma volatilidade muito grande, explicou.
A tabela de fretes também estaria pesando no custo de distribuição, lembrou ele. A guerra no Irã provocou alta nas resinas petroquímicas, o que deixou as embalagens usadas pela indústria de farinha 50% mais caras.
Há também a necessidade de ajuste das indústrias à nova escala de trabalho, que deixa de ser 6x1, o que impactará em custos. Ao contrário de volatilidade de preços, que podem subir e depois recuar, neste tipo de mudança de legislação, segundo os empresários, é um custo que muda de patamar para sempre e se soma às demais adversidades do momento.
Ciclo de investimentos
A J. Macêdo está concluindo este ano um ciclo de investimentos que totalizou R$ 800 milhões, que inclui a modernização do parque industrial já existente e a construção de duas novas plantas.
Um dos destaques foi a inauguração em março deste ano de um moinho em Londrina (PR), que passa a representar cerca de 15% da capacidade da J. Macedo. A empresa não divulga a moagem detalhada, mas o mercado estima que esteja em torno de 1 milhão de toneladas de trigo.
“Em Horizonte, que é uma cidade na grande Fortaleza (CE), nós construímos uma indústria de massas e misturas que funciona próximo à nossa unidade moageira que está localizada no porto de Fortaleza”, citou o CEO.
José Pedrollo revelou ao AgFeed que a diretoria trabalha neste momento na definição do orçamento 2027 e também no novo ciclo de investimentos, que será feito ao longo dos próximos cinco anos.
“A intenção sempre é seguir oferecendo produtos de maior valor e valorizando um portfólio de marcas muito rico que a companhia tem, liderado pela Dona Benta, que é uma marca de referência no mercado de alimentos do Brasil”, disse.
O mais provável é que o plano inclua investimentos em automação e modernização do atual parque industrial, mas que traga também esse foco de produção de maior valor agregado, como a fábrica de massas no Ceará.
“Nos nossos investimentos, nós encaramos a farinha não como um produto em si, obviamente ela é um produto em si, mas ela também é uma matéria-prima sobre a qual se pode transformar em outros produtos e oferecê-los ao mercado”.
O executivo fala em desenvolver produtos que “levem uma maior comodidade, uma maior facilidade de consumo, agregando valor na cadeia”.
Os valores do novo ciclo ainda não foram definidos, mas na conversa com o AgFeed, o diretor presidente sinalizou pretende superar os R$ 800 milhões na próxima rodada.
“Nós temos uma conjuntura desestimuladora de investimentos, o custo financeiro nos limita, eu posso falar da nossa vontade, do nosso desejo, não necessariamente do que poderemos executar, mas sim a nossa ambição é maior (que o último ciclo”.
Sem autossuficiência
Com a baixa oferta de trigo brasileiro nesta safra, a operação no Paraná, o novo moinho de Londrina deverá enfrentar desafios de abastecimento, admitiu o CEO, com custos elevados.
Além dos problemas climáticos, a região enfrenta uma concorrência do trigo com o milho segunda safra.
É possível que a moagem seja reduzida na unidade paranaense, em função dos altos custos para viabilizar a chegada do trigo. Por outro lado, Pedrollo prevê crescimento na atividade das indústrias do Norte e Nordeste.
“Nós temos uma inversão de malha logística muito pesada, os nossos moinhos portuários sofrem menos, é claro que uma maior pressão de demanda acaba refletindo também em custos nessas unidades, mas o modelo logístico deles não muda, os moinhos de produção terão que mudar o seu modelo logístico, isso é complexo”.
O diretor da J.Macêdo também é produtor rural no Rio Grande do Sul, mantendo áreas de cultivo de soja, milho e trigo.
Será que o cenário pode mudar para 2027, com um possível aumento na produção brasileira?
“Nós não podemos esquecer que o Brasil é uma zona prioritária de produção de milho e soja, nós somos uma zona marginal de produção de trigo, como zona marginal nós somos mais sensíveis a variações climáticas extremas, seja por falta ou por excesso de chuvas, nesse ano o excesso de chuvas está sendo o nosso principal limitante, por isso eu particularmente, apesar da minha experiência de produtor, não acredito que o Brasil nunca será autossuficiente, por conta dessa instabilidade climática”.
Ele argumenta que na Argentina, por exemplo, há uma situação oposta em determinas regiões, onde a soja é uma cultura de maior risco e o trigo tem mais chance de prosperar.
Na visão do CEO, não há sinais de que a produção brasileira volte a subir de forma significativa no próximo ano.
“Cada ciclo é um ciclo, cada ano é uma história, mas nós temos baixa disponibilidade de sementes, nós temos um agricultor com problemas financeiros, com baixa capitalização, ele vai estar pouco propenso a somar riscos, teríamos que ter uma situação excepcional de preços no mercado internacional para haver uma explosão de cultivo de trigo na próxima safra”.
O cenário ideal, diz ele, seria o aumento da produção brasileira acompanhado de uma maior exportação de trigo, como chegou a ocorrer há alguns anos.
“Eu particularmente creio que esse é o modelo de crescimento para a triticultura no Brasil, não é crescer pensando em substituir a importação, ela tem que crescer pensando em ser exportadora, ser competitiva, e se precisar importar por qualidade, por conveniência logística, os Estados Unidos que são tradicionais exportadores importam 4, 5 milhões de toneladas do Canadá todos os anos”, acrescentou.
Resumo
- Indústria de alimentos J.Macêdo, que produz a marca Dona Benta, concluiu um ciclo de investimentos de R$ 800 milhões e poderá aumentar os aportes nos próximos cinco anos
- Companhia aposta na produção de itens de maior valor agregado, alegando que a farinha de trigo é cada vez mais somente uma "matéria-prima"
- Empresa prevê crescimento "modesto" em 2026 em função da alta nos custos com aumento das importações e mudança na tributação dos moinhos