A Yara atravessou o terceiro trimestre de 2026 com o retrato típico do ano de volatilidade no mercado de fertilizantes. A receita subiu, o lucro caiu e a operação teve de ser ajustada quase que em tempo real, para se adaptar ao custo do gás natural, um de seus principais insumos.
Em seu balanço trimestral divulgado na quinta-feira, 22 de outubro, a companhia norueguesa registrou receita de US$ 4,478 bilhões, alta de 9% na comparação com o mesmo trimestre de 2025.
Os preços mais altos dos fertilizantes contribuíram para esse resultados, mas não foram suficientes para compensar o encarecimento da matéria-prima energética.
Assim, as linhas do balanço que demonstram o desempenho financeiro da companhia acabaram trazendo reduções. O Ebitda (excluindo itens especiais), por exemplo, foi de US$ 675 milhões, recuo de 16% ante os US$ 804 milhões do mesmo período de 2025.
Já o lucro líquido caiu para US$ 199 milhões, contra US$ 320 milhões um ano antes, e o lucro por ação recuou de US$ 1,25 para US$ 0,78. Na leitura ajustada, que exclui variação cambial e itens especiais, o lucro por ação ficou em US$ 0,95, contra US$ 1,33.
A queda, porém, não contaminou um indicador que a administração trata como termômetro de qualidade: o ROIC (retorno sobre capital investido) subiu de 8,0% para 13,5% em base anualizada.
O detalhamento do Ebitda deixa mais claro o cenário enfrentado pela Yara. O preço e o mix de produtos adicionaram US$ 95 milhões ao resultado, mas o custo de energia subtraiu US$ 165 milhões e a redução dos volumes comercializados tirou US$ 40 milhões e a margem, outros US$ 70 milhões. O efeito cambial custou US$ 9 milhões e os custos fixos ficaram praticamente estáveis, com impacto de US$ 4 milhões.
O principal vilão é facilmente identificado, segundo os dados do relatório trimestral. O gás natural na Europa saltou 57%, para US$ 18,1 por milhão de BTU, enquanto o custo médio global da Yara subiu de US$ 9,5 para US$ 12,9 e o europeu, de US$ 12,7 para US$ 16,6.
Para responder a esse aumento, a companhia cortou a produção em 150 mil toneladas de amônia e 115 mil toneladas de produtos acabados no trimestre, principalmente na unidade de Ferrara, na Itália.
Esses cortes continuaram mesmo após o fechamento do balanço. Em 16 de outubro, estavam em 270 mil toneladas de amônia e 140 mil de produtos acabados por trimestre.
O dano às contas só não foi maior porque, de acordo com as informações da empresa, cerca de 80% dos seus produtos acabados não dependem do gás europeu. A Yara sustenta que pode reduzir até 1 milhão de toneladas de capacidade anual de amônia na Europa sem afetar a produção de produtos finais, graças ao excedente das plantas integradas.
Outro fator de pressão registrado pela companhia é o comportamento do produtor. As entregas totais caíram 4%, para 7,839 milhões de toneladas, com o fertilizante recuando de 6,036 milhões para 5,786 milhões de toneladas.
Segundo o documento, as compras para a safra 2027 ficaram "significativamente atrás" dos anos anteriores em todos os mercados relevantes.
A Yara descreve um início de temporada lento, tendo nas incerteza em torno do conflito no Oriente Médio, exportações chinesas e importações indianas como os maiores fatores de desequilíbrio do balanço global de nitrogênio.
O mercado europeu, porém, reagiu no fim do trimestre. A empresa declara ter encerrado o período com carteira de pedidos mais forte no continente do que o normal para esta época do ano.
A companhia aponta ainda um alívio do lado da renda do produtor, com os preços das commodities agrícolas ficando 6% acima de setembro do ano passado, o que melhora a capacidade de compra no campo.
Margem menor no Brasil
A operação brasileira recebeu menções especiais no documento, tratada dentro do segmento Américas, que registrou Ebitda de US$ 155 milhões, queda de 38% ante os US$ 251 milhões de um ano antes (a empresa não divulga o datalhamento desse indicador por país).
A companhia atribui o resultado principalmente a margens comerciais menores e volumes mais baixos no Brasil, além de uma parada programada em Belle Plaine, no Canadá, durante o verão do Hemisfério Norte.
No Brasil, as entregas chegaram a 1,842 milhão de toneladas no trimestre, contra 1,910 milhão um ano antes. No acumulado do ano, foram 4,221 milhões de toneladas, levemente abaixo das 4,278 milhões de 2025.
A receita no País cresceu de US$ 1,245 bilhão para US$ 1,25 bilhão no trimestre e de US$ 2,741 bilhões para US$ 2,895 bilhões no acumulado do ano.
No relatório, a Yara destaca que mantém ativos hibernados no Brasil desde o primeiro trimestre de 2026, o que levou a uma otimização das entregas industriais.
A medida aparece como parte da estratégia de realocar capital e ajustar portfólio. A companhia também informa que parte relevante da receita com juros embutida em contratos com clientes vem justamente do Brasil e de outros mercados latino-americanos.
Ano ainda positivo
No acumulado de nove meses, o quadro é bem mais favorável. O Ebitda (excluindo itens especiais) chegou a US$ 2,477 bilhões, alta de 18%, sustentado pelas margens melhores do primeiro semestre e pelo avanço das iniciativas de eficiência, que compensaram o gás caro do terceiro trimestre. A receita somou US$ 13,165 bilhões e o lucro líquido, US$ 1,071 bilhão.
O caixa também se manteve sólido. A geração operacional de caixa ficou em US$ 365 milhões no trimestre e em US$ 1,571 bilhão no ano. A dívida líquida encerrou setembro em US$ 2,958 bilhões, com alavancagem de 0,93 vez o Ebitda, bem abaixo do teto de 1,5 a 2,0 vezes da política de capital da empresa.
Resumo
- Yara registra lucro líquido de US$ 199 milhões no terceiro trimestre de 2026, com queda de 38% na comparação anual
- Alta de 57% no preço do gás natural na Europa pressiona margens e leva a cortes na produção de fertilizantes
- No Brasil, a operação enfrenta margens comerciais menores e queda nas entregas, enquanto o Ebitda global acumulado no ano cresce 18%