O agronegócio brasileiro está de porteira aberta para o crime organizado. A conclusão é de Alberto Pfeifer, pesquisador do Insper Agro Global e coautor do estudo Ilícitos no Agronegócio Brasileiro, divulgado em julho, que considera o setor o mais vulnerável da economia à atuação das facções.
“O agro é o grande playground do crime organizado hoje. Esse é o problema. A gente sequer tem essa percepção”, afirmou o especialista, em entrevista ao AgFeed.
Para ele, a expansão de organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) representa uma ameaça não apenas à segurança e à economia rural, mas também ao comércio exterior brasileiro.
O estudo reúne estimativas setoriais de um mercado ilegal de defensivos que pode movimentar R$ 20 bilhões anuais e de perdas de R$ 10 bilhões com sementes piratas. Também menciona R$ 52 bilhões movimentados em esquemas de fraudes no setor de combustíveis, investigados na Operação Carbono Oculto.
As cifras têm naturezas diferentes e não representam uma estimativa consolidada das perdas do agronegócio. Para Pfeifer, porém, a dimensão real é certamente superior à conhecida.
“É subnotificado e não consolidado. A gente não tem metodologia para consolidar. Eu posso dizer que é enorme, muito maior do que sabemos”, estimou.
O levantamento descreve a transformação do campo em base logística, operacional e financeira de organizações criminosas. A percepção dessa expansão, contudo, ainda é fragmentada entre os agentes do setor.
Em encontro de dois dias promovido pelo Insper, cerca de 40 representantes de empresas, associações, produtores e autoridades públicas compartilharam experiências que, até então, eram tratadas como problemas isolados.
Relatos de falsificação de insumos, desvios de cargas, lavagem de dinheiro e outras irregularidades revelaram conexões entre diferentes atividades criminosas.
“Você constata que isso virou uma coisa sistêmica, disseminada. Está presente e não era assim”, afirmou Pfeifer.
O estudo identifica vulnerabilidades desde a propriedade rural até o varejo, incluindo grilagem, contrabando de defensivos, pirataria de sementes, roubo de cargas, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.
Na pecuária, descreve o chamado “gado de papel”, mecanismo que utiliza registros fictícios de rebanhos para justificar receitas de origem ilícita.
O pesquisador aponta uma mudança no perfil da criminalidade rural desde 2015. Segundo ele, antes predominavam pequenos grupos envolvidos em furtos e delitos locais. Agora, organizações de alcance transnacional exploram várias etapas das cadeias produtivas.
De acordo com o estudo, PCC e Comando Vermelho adotam estratégias distintas para explorar oportunidades no agronegócio.
A facção paulista adota uma estrutura empresarial, com atuação logística e financeira, desde utilização de cargas agrícolas para ocultar cocaína destinada ao exterior até mecanismos de ocultação de recursos com criptomoedas.
Já a carioca concentra parte de suas operações no domínio territorial, especialmente em áreas de garimpo e exploração ilegal de madeira na Amazônia.
Risco ao comércio exterior
A expansão criminosa também pode acrescentar custos aos produtores, que passam a investir mais em vigilância, seguros e proteção patrimonial, além de enfrentar prejuízos associados a produtos falsificados.
No mercado internacional, Pfeifer identifica outro risco. Além das exigências sanitárias, ambientais e de qualidade, compradores e autoridades estrangeiras poderão questionar a integridade das cadeias produtivas brasileiras.
“O agro não era parte da lógica produtiva do crime organizado transnacional até pouco tempo atrás. Hoje ele está profundamente conectado”, afirmou.
Pfeifer alerta que o envolvimento de facções na comercialização ou no transporte de commodities brasileiras poderia motivar sanções internacionais contra empresas e produtos associados às atividades criminosas.
Ele citou a decisão dos Estados Unidos em classificar as duas organizações criminosas como terroristas, o que abre possibilidade, inclusive, de sanções comerciais a setores relacionados a elas.
“O americano pode falar: ‘Eu vou te colocar uma sanção nesse produto porque ele está ligado ao PCC’”, exemplificou.
Questionado se o crime organizado representa uma ameaça ao comércio exterior, Pfeifer respondeu: “Claro que é. Ainda não aconteceu, mas pode acontecer”.
Combate sem coordenação
Para o pesquisador, o aparato brasileiro de segurança não foi estruturado para enfrentar organizações criminosas que operam simultaneamente em áreas rurais, centros urbanos e mercados internacionais.
A dispersão territorial, a dificuldade de fiscalização e a falta de integração entre autoridades favorecem as facções. Pfeifer também considera insuficiente o conhecimento técnico de agentes responsáveis por identificar determinados ilícitos agropecuários. “Não temos uma estrutura nacional de segurança suficiente, mais ainda no meio rural”, apontou.
O estudo propõe uma política integrada entre os ministérios da Justiça, Defesa e Agricultura, cooperação internacional, inteligência financeira e maior rastreabilidade das operações agropecuárias.
Pfeifer considera que associações de produtores e cooperativas poderiam assumir papel relevante na articulação com órgãos públicos. Estados de fronteira, como Mato Grosso, Rondônia e Acre, também poderiam desenvolver iniciativas pioneiras.
A cooperação com autoridades de países vizinhos é outra necessidade, sobretudo diante da circulação transnacional de criminosos e recursos financeiros.
Apesar da dimensão do problema, o pesquisador afirma não identificar uma estratégia nacional articulada para enfrentá-lo. “Eu não vejo ninguém ainda pensando nisso de uma maneira sistêmica. Menos ainda definindo ou implementando”, finalizou.
Resumo
- Estudo do Insper aponta avanço do PCC e do Comando Vermelho no agronegócio, com atuação em insumos, cargas, pecuária e lavagem de dinheiro
- Mercado ilegal de defensivos pode movimentar R$ 20 bilhões por ano, enquanto perdas com sementes piratas são estimadas em R$ 10 bilhões
- Falta de coordenação entre autoridades aumenta os riscos à segurança rural e às exportações brasileiras, segundo pesquisador