A J&F, companhia que concentra os negócios dos irmãos Joesley e Wesley Batista, segue com movimentações bilionárias em um processo de reorganização que vem sendo conduzido desde o início do ano.

A mais recente foi a aprovação da extensão dos limites de um empréstimo, que pode alcançar até US$ 1,8 bilhão, tendo Eldorado Brasil, LHG Mining e Flora, três empresas do grupo, como garantidoras.

Divulgado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) nesta segunda-feira, 5 de outubro, o sinal verde das controladas amplia em US$ 480 milhões o limite em relação aos US$ 1,32 bilhão que haviam sido anunciados no fim de setembro.

A transação é estruturada por BTG Pactual, Citibank e Crédit Agricole Corporate and Investment Bank, como coordenadores e credores, além de uma lista de instituições financeiras que dá a volta ao mundo.

Entre elas, estão First Abu Dhabi Bank, Abu Dhabi Commercial Bank, Industrial and Commercial Bank of China, Bank of China, Société Générale, Sumitomo Mitsui Trust Bank e Haitong Bank.

O financiamento tem prazo de cinco anos, com três anos de carência, e taxa inicial equivalente à SOFR (Secured Overnight Financing Rate), referência do mercado americano, mais 2,60% ao ano.

Segundo a J&F, o objetivo é alongar o perfil da dívida, sem elevar o endividamento. Mas a operação também reforça uma mudança mais ampla na estratégia financeira do grupo, em meio a uma transformação mais ampla da J&F.

O primeiro passo foi dado em fevereiro, quando a J&F Investimentos passou a se chamar J&F S.A.. Mais que um novo nome, a mudança concretizou a intenção de fazer com que a holding de investimentos passasse a operar como um conglomerado industrial, com gestão financeira integrada.

O plano, segundo a companhia, está baseado nos pilares de fortalecimento da governança, centralização financeira e incorporação dos negócios integralmente controlados.

A partir dess conceito, o grupo passou a reorganizar as empresas controladas por ela, a começar pela Âmbar, empresa que reúne os negócios da família Batista na área de energia. Em abril, ela incorporou ativos de gás e energia que corriam em paralelo no grupo (como participações e ativos da Fluxus e Logás). Em seguida, assumiu efetivamente o controle da Âmbar Amazonas e, em junho passado, da Roraima Energia.

Processos semelhantes devem alcançar também Eldorado Brasil, LHG Mining e Flora. Com ações negociadas nos Estados Unidos, a JBS permanece controlada pelo grupo, mas fora das incorporações e com governança própria, ao menos por ora.

A reorganização incluiu um novo Conselho de Administração e um Conselho Fiscal formado por membros independentes.

A centralização financeira, por sua vez, permite à J&F coordenar geração de caixa, endividamento e alocação de capital entre negócios que até então tinham maior autonomia financeira.

Para se ter ideia da dimensão, os negócios da J&F somaram receita líquida de R$ 500 bilhões em 2025, incluindo a JBS.

Apenas no primeiro trimestre deste ano, a receita consolidada alcançou R$ 119,6 bilhões e o Ebitda ajustado, R$ 7,8 bilhões.

A alavancagem financeira encerrou o período em 2,9 vezes a relação entre dívida líquida e Ebitda.

Mercado de capitais

Ao mesmo tempo em que centraliza a gestão financeira, a J&F cria novos canais para captar recursos.

Em setembro, a companhia protocolou na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) pedido para se tornar companhia aberta na categoria B, que permite emitir e negociar títulos de dívida, mas não ações.

O registro não representa uma abertura de capital, mas aumenta as alternativas de financiamento da companhia no mercado brasileiro.

O movimento começou antes. Em abril, a J&F já havia captado US$ 400 milhões por meio da emissão de bonds no exterior.

O novo empréstimo sindicalizado acrescenta outra fonte de financiamento a essa estrutura e evidencia a estratégia de ampliar o acesso próprio da J&F ao capital, em vez de depender exclusivamente das empresas que controla.

Uma eventual abertura de capital da própria J&F exigiria uma etapa adicional, com registro que permita a negociação de ações.

O grupo, no entanto, já passou por uma transformação semelhante e recente com seu principal ativo.

Em junho de 2025, a JBS estreou na Bolsa de Nova York (NYSE), após uma reorganização societária que transferiu sua estrutura para a JBS N.V.

Os papeis passaram a ser negociados diretamente nos Estados Unidos e, no Brasil, por meio de BDRs na B3.

Da roça ao espaço

A maior sofisticação financeira ocorre justamente em um momento no qual os Batista ampliam sua presença em setores cada vez mais diversificados e intensivos em capital.

A Âmbar Energia acertou, em outubro de 2025, a compra, por R$ 535 milhões, da participação da Eletrobras na Eletronuclear.

Além do pagamento, assumiu compromissos relacionados a garantias e à integralização de R$ 2,4 bilhões em debêntures.

A operação deu à Âmbar aproximadamente 68% do capital total e 35,3% do capital votante da Eletronuclear, mantendo o controle da companhia com o governo federal, por meio da ENBPar.

O negócio marcou a entrada do grupo na geração nuclear.

A empresa também expandiu sua presença na distribuição de energia, assumindo em 2026 as operações da Amazonas Energia e da Roraima Energia.

Mais recentemente, os irmãos Batista avançaram para outro segmento estratégico e ainda mais curioso para empresários cuja trajetória começou na pecuária.

Por meio da Globe Investimentos, family office da família e sem vínculo societário direto com a J&F, acertaram a aquisição da Nova AVB, holding que controla os ativos da Avibras, fabricante brasileira de sistemas de defesa, mísseis, foguetes, veículos e lançadores espaciais civis, entre outros.

A operação recebeu aval técnico da superintendência-geral do Cade em setembro. A aquisição não ocorre diretamente pela J&F, mas amplia ainda mais o alcance empresarial dos Batista dos campos, pratos e churrascos até energia nuclear, defesa e o espaço sideral.

Resumo

  • Empréstimo de cinco anos terá Eldorado Brasil, LHG Mining e Flora como garantidoras
  • Grupo protocolou pedido na CVM em setembro para se tornar companhia aberta na categoria B
  • Negócios do grupo somaram R$ 500 bilhões em receita líquida em 2025