A Corteva e a agtech Inari anunciaram nesta segunda-feira, 28 de setembro, um acordo confidencial para encerrar o litígio sobre propriedade intelectual de sementes que vem sendo travado desde setembro de 2023.

O desfecho veio em meio ao julgamento do caso, que corria no Tribunal Distrital Federal de Delaware. Apenas três dias após o início das audiências, as partes protocolaram um pedido conjunto de arquivamento do caso — encerrando uma disputa que a Corteva havia avaliado em mais de US$ 1,3 bilhão.

Pelos termos tornados públicos, a Inari se comprometeu a destruir todo o material da Corteva a que teve acesso por meio de depositários de sementes — incluindo sementes, plantas, partes de plantas, culturas de tecidos e amostras de DNA — e tudo o que foi desenvolvido a partir desses depósitos.

A startup também cederá à Corteva a propriedade intelectual relacionada às versões editadas dos eventos genéticos da gigante. As empresas ainda vão negociar potenciais acordos de licenciamento. Os demais termos do acordo, inclusive valores envolvidos, permanecem confidenciais. Segundo documentos protocolados no tribunal, a Inari terá 30 dias para destruir os materiais e mais 15 dias para declarar formalmente o cumprimento.

O caso começou em setembro de 2023, quando a Corteva, dona das marcas de sementes Pioneer e Brevant, entrou com uma ação acusando a Inari de "conspirar para roubar sementes de alta tecnologia". Segundo a multinacional, a startup usou um agente terceirizado para obter junto ao American Type Culture Collection (ATCC), depositário sem fins lucrativos que disponibiliza material biológico para pesquisa, centenas de sementes proprietárias da Corteva.

O material teria sido enviado da matriz da Inari, em Cambridge (Massachusetts), para sua unidade em Gante, na Bélgica, onde recebeu pequenas modificações genéticas. Posteriormente, segundo a acusação, a startup buscava patentear nos EUA as características alteradas.

A Corteva afirmou nunca ter feito parceria com a Inari e contou que a "descoberta" do suposto esquema se deu em 2021, durante uma videoconferência com o presidente da agtech. O processo também registrava um episódio peculiar: a Inari teria oferecido não comercializar certas sementes de milho contendo a tecnologia da Corteva, desde que a gigante concordasse em pagar para usar os produtos de soja da própria Inari.

"O roubo de tecnologia proprietária prejudica não apenas a nossa empresa, mas também, em última análise, os agricultores do nosso país", disse, à época, Sam Eathington, diretor de tecnologia da Corteva.

A Inari, que não se manifestou sobre a ação original, sustentou ao longo do processo que as retiradas do depositário tinham finalidade de pesquisa admitida.

Em agosto de 2025, o juiz Joseph F. Murphy, responsável pela análise da ação, se recusou a arquivar o caso, ao concluir que a startup não havia provado que poderia desenvolver plantas geneticamente modificadas a partir das sementes da Corteva sem violar a legislação.

No julgamento, iniciado na semana passada, a Corteva pedia mais de US$ 446 milhões em danos por infração de patente, somados a US$ 877 milhões por concorrência desleal e quebra de contrato.

O caso chegou a atrair a atenção do Departamento de Justiça (DOJ) dos EUA. Em maio deste ano, a divisão antitruste do DOJ apresentou um parecer de interesse no processo, defendendo a disponibilidade de material genético patenteado para fins de pesquisa — uma leitura, na prática, mais próxima da posição da Inari do que da da Corteva.

Com o acordo, as duas empresas emitiram nota conjunta afirmando que as decisões do caso "reforçam os direitos aplicáveis com relação a depósitos de sementes" e que é importante cumprir as leis de patentes e os contratos relativos a materiais depositados.

O unicórnio e a cisão

Longe de ser uma startup qualquer, a Inari nasceu em 2016 dentro do ecossistema da Flagship Pioneering, a mesma incubadora de biociências por trás da farmacêutica Moderna.

A empresa desenvolve sementes de alto desempenho usando uma plataforma proprietária, a SEEDesign, que combina genômica, machine learning e edição gênica para acelerar o melhoramento de culturas como milho e soja.

Com mais de 200 funcionários e operações nos EUA e na Bélgica, a Inari não se abalou com o litígio. Mesmo com o caso em andamento, captou US$ 103 milhões em janeiro de 2024, com participação de investidores como o fundo de pensão canadense CPP Investments, alcançando a marca de “unicórnio”, com avaliação de US$ 1,6 bilhão.

Um ano depois, em janeiro de 2025, emplacou nova rodada com dólares de Abu Dhabi que elevou seu valor de mercado para mais de US$ 2 bilhões.

Já para a Corteva, O timing do desfecho é perfeito. A companhia se prepara para se dividir em duas companhias independentes e listadas em bolsa a partir desta quinta-feira, 1º de outubro: a "Nova Corteva", sediada em Indianapolis, que fica com o negócio de proteção de cultivos, e a Vylor, com sede em Johnston (Iowa), que concentra a área de sementes e genética avançada.

A cisão vem sendo preparada com uma máquina financeira acelerada: só nas últimas semanas, a companhia movimentou US$ 1,8 bilhão em emissões de dívida, incluindo US$ 1,1 bilhão captados pela futura Vylor em agosto.

O processo, porém, não está livre de ruídos — procuradores-gerais de estados americanos questionam a cisão na Justiça, alegando que ela serviria para isolar passivos ambientais relacionados a PFAS, as chamadas "substâncias químicas eternas".

Nesse contexto, encerrar o litígio com a Inari antes da separação tem valor estratégico. A Vylor, que herdará o maior programa de melhoramento de sementes do mundo, começa sua vida independente sem uma disputa judicial bilionária em andamento, o que abre caminhos para eventuais acordos de licenciamento com a agtech que mais cresce no setor de edição genética de sementes.

Para a Inari, o acordo também tem leitura pragmática. A empresa elimina o risco de uma sentença adversa após três anos de litígio, preserva seu valuation bilionário e mantém viva a possibilidade de parcerias comerciais com a própria Vylor, agora sobre bases negociadas em vez de disputadas em tribunal.

Resumo

  • Corteva e Inari encerram litígio de três anos sobre propriedade intelectual e sementes geneticamente editadas
  • Acordo prevê destruição de materiais da Corteva em posse da Inari e preserva propriedade intelectual da multinacional
  • Desfecho ocorre às vésperas da criação da Vylor, que ficará com o negócio de sementes e genética avançada da Corteva.