A margem do produtor de soja de Mato Grosso deve melhorar na safra 2026/2027, mas ainda ficará apertada. Só que o ganho pode depender justamente de um fator que ainda não entrou nas projeções de produção: o El Niño.

A avaliação é do consultor Carlos Cogo, sócio da Cogo Inteligência em Agronegócio, que estima uma margem de 4,1% para o produtor mato-grossense no ciclo 2026/2027, acima dos 3,3% da safra 2025/2026. Segundo ele, há cerca de 40 dias, a conta estava próxima de zero, mas a recuperação das cotações da soja melhorou um pouco a equação.

As cotações da saca da oleaginosa mostram parte desse movimento. Em meados de maio, rondavam os R$ 110 e hoje já ultrapassam os R$ 130. Nos últimos 12 meses, a soja também acumulou alta próxima de 20% em Chicago, mas a melhora ainda não chegou integralmente ao bolso do produtor, pressionado pelo aumento dos custos e pela queda do dólar.

É justamente aí que o El Niño pode mudar a conta. Caso o fenômeno climático provoque estresse hídrico nas lavouras brasileiras, a soja pode ganhar um prêmio de risco que ainda não está incorporado de forma relevante nos preços.

“Não dá para transformar, antes do plantio, um cenário de perda quantitativa”, ressaltou Cogo durante webinar promovido pela Kepler Weber, que também contou com a participação do meteorologista Willians Bini, head de novos negócios da Metos.

Para Cogo, o mercado ainda está esperando sinais mais concretos de que o fenômeno climático vai afetar a produção brasileira. Nos contratos futuros de algodão, açúcar, café, cacau e óleo de palma, esse movimento já começou a aparecer, segundo ele. Nos grãos, porém, a precificação ainda é tímida.

A projeção do consultor para a safra brasileira de grãos é de 356 milhões de toneladas em 2026/2027, abaixo das cerca de 360 milhões de toneladas esperadas para a temporada 2025/2026. O número não incorpora nenhuma quebra provocada pelo El Niño. A redução vem principalmente de uma diminuição do pacote tecnológico utilizado pelo produtor diante da dificuldade de absorver custos mais altos.

"Vamos entrar na safra com um potencial produtivo menor por conta da guerra entre EUA e Irã e seus efeitos. De um lado, há um aumento no preço do óleo e nos biocombustíveis, mas até agora o efeito nos custos foi maior que nos preços", disse Cogo durante o webinar.

Apesar de mais uma projeção de safra difícil para o produtor, o consultor ressaltou que, a nível global, o agricultor brasileiro consegue permanecer no azul.

“A notícia boa é que, nesse ciclo ruim, o produtor passou com margem positiva. O produtor americano vem de anos de margem negativa”, afirmou.

Um dos principais pontos de pressão está nos fertilizantes. Cogo estima que o consumo brasileiro caia 15% nos produtos fosfatados e 10% nos nitrogenados na safra 2026/2027. Na crise provocada pela guerra entre Rússia e Ucrânia, a redução do uso de fertilizantes no País havia sido de cerca de 11%.

A situação é mais complicada nos fosfatados. A ureia já voltou para patamares próximos aos anteriores ao conflito entre Estados Unidos e Irã, mas os preços dos fosfatados continuam pressionados, em parte pela disparada do enxofre. Segundo Cogo, o produto que antes do conflito custava entre US$ 150 e US$ 200 por tonelada chegou a cerca de US$ 1,25 mil.

O efeito aparece também na decisão sobre a segunda safra. Com o produtor reduzindo a aplicação de fertilizantes, especialmente os fosfatados, o milho pode entrar no próximo ciclo com um pacote tecnológico menor. E qualquer atraso ou perda na soja pode comprometer ainda mais a janela da safrinha.

Os modelos apresentados por Willians Bini apontam para a consolidação de um El Niño durante a safra 2026/2027, com o pico da anomalia de temperatura do Pacífico entre outubro e dezembro.

No Centro-Oeste, a previsão atual indica chuvas acima da média em setembro, mas redução das precipitações a partir de outubro, justamente durante a fase mais importante para o desenvolvimento da soja.

Bini chamou atenção para o comportamento observado na safra 2015/2016, quando um El Niño forte esteve associado a uma quebra expressiva da soja em Mato Grosso. Naquele ciclo, a menor produção da oleaginosa também acabou prejudicando o milho segunda safra.

A comparação serve como alerta, mas ainda não como previsão. O cenário climático pode mudar nos próximos meses e não há, nas estimativas atuais, uma quebra de produtividade provocada pelo El Niño.

A expectativa de Cogo é que o mercado comece a incorporar esse risco com mais intensidade depois do encerramento da safra americana, quando a atenção dos compradores se voltar novamente para o Brasil.

“Se saírem notícias de estresse hídrico, a soja pode começar a trazer prêmio de risco. E aí pode aparecer uma oportunidade para o produtor fixar e ganhar com isso”, afirmou Carlos Cogo.

Resumo

  • Margem do produtor de soja em Mato Grosso deve subir de 3,3% para 4,1% na safra 26/27, estima Carlos Cogo
  • Consumo de fertilizantes pode cair 15% nos fosfatados e 10% nos nitrogenados diante da pressão sobre os custos
  • El Niño ainda não entrou nas projeções de quebra, mas pode elevar o prêmio de risco da soja se o estresse hídrico aparecer