foi uma manhã como há muito não se via para as ações da Deere & Co., dona da fabricante de máquinas John Deere. Os papeis da companhia aceleraram em um rally de quase 10% de valorização após a divulgação de um balanço com dados acima do esperado pelo marcado e falas otimistas do CEO, John May.

"Ao olharmos para frente, continuamos acreditando que 2026 marcará o fundo do ciclo atual de máquinas agrícolas", disse ele em comunicado.

"Em todo o nosso negócio, as tendências dos programas de pedidos antecipados, a melhora dos estoques de equipamentos usados e a crescente adoção de nossas tecnologias avançadas nos dão confiança de que a Deere está bem posicionada para a criação de valor no longo prazo."

Além de números mais animadores no seu terceiro trimestre do ano fiscal, a empresa elevou a projeção de lucro para o ano, em um sinal de que a pior fase do ciclo de máquinas agrícolas pode, de fato, estar próxima do fim.

As ações reagiram imediatamente. Abriram em alta de 3,59% nesta quinta-feira, 20 de agosto. Por volta das 12h30, no horário brasileiro, a alta chegava a mais de 9%, com a negpciação sendo feita a mais de US$ 634, após o fechamento de US$ 580,63 no pregão anterior.

Entre os números que animaram os investidores está o lucro líquido de US$ 1,38 bilhão no trimestre encerrado em 2 de agosto, (ou US$ 5,10 por ação), bem mais que os US$ 1,3 bilhão (US$ 4,75 por ação) no mesmo período do ano passado. O resultado ficou bem acima do consenso dos analistas, que projetava US$ 4,71 por ação.

As vendas líquidas e receitas globais surpreenderam, crescendo 5%, para a marca de US$ 12,608 bilhões – as estimativas giravam em torno de US$ 10,8 bilhões. No acumulado de nove meses, a receita subiu 7%, para US$ 35,589 bilhões.

Segundo a companhia, o desempenho foi sustentado pela diversificação do portfólio. Enquanto o segmento de Produção e Agricultura de Precisão — o carro-chefe da companhia — registrou queda de 6% na receita e recuo de 9% no lucro operacional, pressionado pelos menores embarques de tratores e colheitadeiras, o negócio de Construção e Florestal compensou, com crescimento de dois dígitos nas vendas e forte avanço no lucro operacional, impulsionado pelos investimentos em infraestrutura. A divisão de máquinas menores, para pequenos agricultores e jardins também reportou expansão.

"A Deere entregou um trimestre forte, refletindo a execução disciplinada de nossas equipes e a resiliência contínua em nosso portfólio", afirmou May. "Nosso desempenho reforça a força do nosso negócio, apoiado por condições de mercado estáveis nos EUA, nossa capacidade de gerenciar condições mais suaves no Brasil e na Europa e nosso compromisso em ajudar os clientes a terem sucesso."

Com o bom desempenho no trimestre, a companhia elevou a projeção de lucro líquido para o ano fiscal de 2026 para a faixa de US$ 4,75 bilhões a US$ 5 bilhões, ante a estimativa anterior de US$ 4,5 bilhões a US$ 5 bilhões. Segundo a empresa, as tendências da carteira de pedidos reforçam a leitura de que 2026 é o piso do ciclo.

Segundo Deanna Kovar, presidente da divisão mundial de agricultura e gramados da empresa, a empresa registrou um aumento de um dígito médio na carteira de encomendas de plantadeiras e pulverizadores para 2027, na comparação com a conclusão do programa do ano passado.

Para ela, esses indicadores são "um sinal encorajador que reforça nossa visão de que 2026 representa o ponto mais baixo do ciclo de equipamentos agrícolas".

"Os fundamentos subjacentes continuam a apoiar uma recuperação moderada, em vez de uma retomada acentuada em 2027", afirmou, em teleconferência com analistas.

Se os investidores receberam bem o resultado, entre os analistas ainda há bastante cautela com o cenário incerto e as mensagens ambíguas que vêm do setor de máquinas, sobretudo no campo agrícola.

A própria Deere, embora fale em aumento de encomendas para o ano que vem e tenha elevado moderadamente o guidance para o atual exercício, manteve previsões de queda de 15% a 20% nas vendas de máquinas agrícolas nos EUA e no Canadá neste ano.

Na América do Sul, mais que isso, ele viu um cenário ainda mais fraco, falando em redução de 15% a 20%, inferior à a previsão anterior de cerca de 15%. Assim, indica que a recuperação, que pode começar em 2027, não virá no curto rpazo.

"Compreender se isso representa conservadorismo ou uma mudança estrutural nas tendências agrícolas pode fornecer informações sobre a duração da recessão que o setor poderá enfrentar", escreveram os analistas da Jefferies em um relatório citado pela agência Bloomberg.

A perspectiva um pouco mais otimista da Deere segue outros sinais contraditórios de concorrentes. No início do mês, a CNH Industrial também havia falado em recuperação em 2027 e elevado seu guidance para 2026, apesar do resultado fraco no trimestre. A AGCO, por sua vez, reduziu suas estimativas.

Resumo

  • Deere supera projeções no trimestre, com lucro de US$ 1,38 bilhão e receita de US$ 12,6 bilhões, alta de 5%
  • Companhia eleva o guidance de lucro para 2026 e afirma que 2026 deve marcar o fundo do atual ciclo de máquinas agrícolas
  • Recuperação em 2027 deve ser gradual, com carteira de pedidos melhor, mas previsão de queda nas vendas de máquinas agrícolas em 2026