Longe dos estandes das grandes companhias de agroquímicos, o espaço da multinacional Gulf no Congresso Andav, evento que reúne o setor de insumos agrícolas em São Paulo nesta semana, poderia passar despercebido para o transeunte que está no evento.

Mas a força da histórica marca, outrora um gigante global do petróleo, conhecida principalmente pela sua atuação no mercado de combustíveis, chama a atenção dos visitantes internacionais. E não apenas isso.

A localização da Gulf na Andav está próxima de uma espécie do setor de alimentação da feira e de uma espécie de "pavilhão China", espaço do evento que reúne empresas da China e recebe frequentadores de diferentes frequentadores.

Nesse cenário, o nome conhecido acaba funcionando como um chamariz. Quem passa pelo estande reconhece a marca, diminui o passo e, muitas vezes, dedica alguns minutos para entender o que a Gulf está fazendo no mercado brasileiro de insumos agrícolas.

Quem recebe os visitantes é o head de agronegócio da Gulf no Brasil, Paulo Campanhola.

“Fazemos um intercâmbio de negócios. Pessoas da Índia, por exemplo, passam, acham interessante que a Gulf também está no Brasil e, de repente, isso pode virar um negócio não aqui, mas lá”, afirma o executivo em entrevista ao AgFeed.

A operação brasileira da Gulf responde à Gulf Oil International, com sede em Londres e que pertence ao conglomerado indiano Grupo Hinduja, que pertence à família de mesmo sobrenome, tida hoje como a mais rica do Reino Unido e uma das mais ricas da Índia, com um patrimônio estimado em US$ 22 bilhões, segundo a revista Forbes.

O Hinduja adquiriu a divisão internacional da Gulf em 1984 – nos Estados Unidos, país onde a empresa nasceu, a marca se fundiu com a Chevron na mesma época e depois foi revendida à outras companhias.

Por aqui, a Gulf tem ganhado forte impulso nos últimos anos a partir de investimentos feitos para colocar seus produtos também no campo.

Para este ano, a expectativa de Paulo Campanhola é de que as vendas cresçam 10% no País ao longo do ano fiscal 2026/2027 – o calendário dos balanços da Gulf começa em abril de cada e se encerra em março do ano seguinte.

“A gente tem uma posição para 2026 interessante”, resume Campanhola, que prevê altas para os próximos anos. “Seguimos entusiasmados e projetamos crescimentos na ordem de 20% ao ano ao longo dos próximos três anos”, adianta.

A Gulf possui três produtos em seu portfólio no País: os adjuvantes Agefix E8 e Oma e o defensivo Argenfrut RV, que é utilizado para o controle de ácaros, pulgões, moscas e fungos, utilizado no cultivo de frutas, café e na silvicultura.

O Agefix E8 ajuda na eficácia dos defensivos agrícolas e é utilizado em culturas diversas como citros, banana, maçã, soja, milho e algodão. Já o Oma é utilizado principalmente no cultivo de bananas, para a potencialização dos fungicidas.

Juntos, os três respondem por aproximadamente 20 milhões de litros vendidos por ano no País, segundo Campanhola.

A força da Gulf no Brasil está principalmente em citros, explica Campanhola. A companhia fornece o Argenfrut RV para empresas produtoras de suco de laranja.

“Os produtos de suco de laranja muitas vezes são exportados para a União Europeia, para os Estados Unidos, mercados que tem uma régua de qualidade muito alta. Nosso produto atende essa exigência”, afirma o executivo.

O que chama a atenção é o fato de que a expansão ocorre em um momento de pressão para uma das principais culturas da companhia.

O setor citrícola brasileiro enfrenta dificuldades, com queda de 12,9% prevista nesta safra 2026/2027 para a produção de laranja no cinturão paulista e mineiro estimada pelo Fundecitrus.

A relação com a cadeia, segundo ele, é antiga, construída ao longo dos anos de fornecimento de produtos para agricultores e indústrias.

“A gente tem acompanhado a vida do citricultor, não está fácil. Mas é uma cultura que o cara que é produtor de citros está no sangue dele. É maior do que uma fase, um período pontual”, afirma.

Mesmo diante desse cenário, a companhia não pretende rever sua meta de crescimento.

“Tenho certeza que a gente logo passa por cima de uma fase, posiciona os nossos produtos. A citricultura posiciona os seus sucos e seus derivados de laranja. E a gente consiga retomar”, diz.

Depois dos citros, aparecem os grãos, especialmente soja e milho, com destaque para o Centro-Oeste. Na sequência, estão culturas como banana, além de pastagens e florestais.

Agricultura regenerativa e estrutura comercial

A Gulf também tenta aproveitar uma mudança no perfil de demanda do agronegócio para ampliar o espaço de seus produtos.

Neste ano, Campanhola conta que a companhia obteve um selo que permite classificar seus três produtos como insumos aprovados para a agricultura regenerativa. Os produtos já possuem certificação para uso na agricultura orgânica, ressalta o executivo.

“Nossos produtos adjuvantes entram como insumos agrícolas aprovados para a agricultura regenerativa”, resume.

A movimentação faz parte de uma estratégia que combina produtividade com exigências ambientais e de qualidade. “Essa certificação também pode ajudar a abrir portas em cadeias mais exigentes, sobretudo aquelas voltadas à exportação”, avalia Campanhola.

O head de agro da Gulf chama a atenção também para o fato de que a estratégia comercial da companhia não depende de um único canal.

Embora distribuidores sejam um público importante na Andav, a Gulf também vende seus produtos diretamente para cooperativas e consumidores finais. Entre eles estão grandes indústrias de suco de laranja e produtores de frutas como banana.

Cooperativas também são clientes da empresa. Campanhola cita como exemplos a Holambra Cooperativa Agroindustrial, no estado de São Paulo, e a C.Vale, no Paraná.

O modelo permite à companhia combinar a capilaridade dos distribuidores e cooperativas com vendas diretas para clientes de maior escala, avalia o head de agro da Gulf.

A Gulf também está reforçando sua estrutura comercial. A equipe conta hoje com seis representantes e Campanhola está em busca de mais representantes para reforçar seu time de vendas. “Queremos fortalecer nossa rede comercial”, resume.

Brasil no radar global

A aposta da Gulf no Brasil está alinhada à estratégia global da companhia. Mensalmente, Campanhola reporta os resultados de sua área à estrutura internacional com sede em Londres.

Os números são acompanhados mensalmente pelo headquarters, enquanto o gerente-geral, Renato Mendes, e o CFO, Caio Romano, mantêm contato semanal com a estrutura global.

Questionado sobre a avaliação do comando global da companhia em relação aos resultados da operação brasileira, Campanhola afirma que os planos de crescimento vêm sendo cumpridos.

“Acho que os planos de crescimento do comando internacional da Gulf estão sendo atingidos”, diz.

A companhia não divulga, por meio da operação brasileira, o faturamento local. Na Índia, empresa é listada na bolsa de valores NSE, no ano fiscal encerrado em março passado, a companhia faturou 36,13 bilhões de rúpias indianas, o equivalente a aproximadamente R$ 2 bilhões.

Apesar de os resultados no Brasil não serem públicos, o o desempenho dos últimos anos e a meta de crescimento que Cmpanhola disse que a empresa possui reforçam a aposta da Gulf no País.

Um sinal disso é o fato de que a companhia tem uma planta própria no Brasil, localizada num terreno de 75 mil metros quadrados em Iperó, cidade do interior paulista e que foi comprada em 2024 da empresa Energis 8, do segmento agroquímico.

A fábrica tem capacidade de produzir aproximadamente 14 milhões de litros e presta também serviços a terceiros.

Além disso, a Gulf também exporta produtos que são fabricados no Brasil para o mercado paraguaio.

Para abastecer o que a produção local não consegue suprir, a Gulf brasileira também importa produtos da subsidiária da companhia na Argentina, que fabrica o Argenfrut e abastece outros mercados da América Latina.

“Sempre trabalhamos em intercâmbio. Esse é o modo de a Gulf trabalhar, maximizando esforços e parcerias”, conta Campanhola.

Resumo

  • Gulf projeta crescer 10% no ano fiscal 2026/27 e mira expansão de 20% ao ano no Brasil pelos próximos três anos
  • Companhia está buscando reforçar rede comercial para levar produtos a mais agricultores
  • No País, foco está culturas como laranja, grãos, banana e maçã