A guerra no Irã trouxe desafios logísticos, com disparada de preços das matérias-primas, o que derrubou as vendas da indústria. Seria um prejuízo generalizado no setor? Não para todos, ao que parece.

A israelense ICL tenta provar que nem tudo está perdido, principalmente quando se consegue combinar capilaridade no suprimento das matérias-primas globais com posicionamento estratégico, no Brasil, em vender cada vez mais as “especialidades”, o que a empresa acredita ser uma tendência para o setor.

Quem dá detalhes desta história é uma executiva que está há 20 anos na empresa. A engenheira de controle e automação industrial Ana Beatriz Marques ocupa atualmente a posição de vice-presidente de operações da ICL no Brasil.

Ela acompanhou, especialmente na última década, o movimento da companhia no País, que deixou de ser apenas uma fornecedora de commodities (possui atividade de mineração, globalmente) para a indústria local e fez aquisições para chegar onde já está hoje, na liderança do mercado brasileiro de fertilizantes especiais, principalmente nos foliares.

“A ICL realmente acredita muito no mercado de especialidades, esse é o nosso foco principal. Diante das adversidades que a gente tem visto, de macroeconomia, e também pelo que a gente enxerga de tendências para o futuro, a gente enxerga que os fertilizantes especiais, toda essa parte muito ligada a foliares, é o que vai impulsionar a agricultura para os próximos anos”, afirmou Marques, em entrevista exclusiva ao AgFeed.

No balanço divulgado este mês pela ICL, globalmente foi reportado, para o período de abril a junho de 2026, um lucro operacional de US$ 266 milhões, o que teria sido o melhor resultado dos últimos três anos. Houve um aumento de 17% nas vendas, considerando todas as regiões, e de 35% no lucro líquido.

No Brasil, a companhia informou no balanço que as vendas ficaram estáveis, porque houve aumento de preços, mas os volumes tiveram queda.

Ana Beatriz Marques acredita que esse cenário de “estabilidade” é o mais provável para os resultados da empresa no País para o ano de 2026 como um todo, embora algumas linhas de produtos possam apresentar crescimento na comparação anual.

A indústria mais afetada, na visão dela, é quem vende o tradicional NPK, especialmente os fosfatados, que ficaram muito caros e o produtor está optando por aplicar menos na safra 26/27.

“O agricultor tem uma visão de que o produto que ele colocou no solo, ele tem meio que um bolsão. Pensa por exemplo 'coloquei muito fosfatado nos últimos anos, então esse ano eu vou reduzir, porque eu tenho lá no meu solo ainda um investimento'. Agora, na folha, não tem esse colchão. Se ele quiser perder menos produtividade, com certeza ele deve manter os foliares”, avalia, embora ressalte que o foliar não substitui o adubo do solo.

A executiva diz que a recuperação nos preços da soja nas últimas semanas já chegou a motivar mais os agricultores, com uma certa tendência altista, mas ainda “muito embrionária”.

De qualquer forma, em função de estudos técnicos, ela acredita que a redução do adubo commodity não deve ser tão intensa nos foliares, porque seria um diferencial muito grande na produtividade, que o produtor não se mostra disposto a perder.

Sobre os efeitos da guerra no Irã, ela admite que “todo o mercado foi afetado”, especialmente quem depende mais do uso de enxofre, matéria-prima que ficou 5 vezes mais cara.

“A gente tem percebido que as empresas focadas em commodities que dependem muito dos fosfatados, por exemplo, têm sofrido muito porque é aí que o agricultor tem cortado. E os fertilizantes especiais, a gente tem enxergado que eles têm sofrido menos cortes no campo do que os fertilizantes comoditizados”.

Ela pondera ainda que a ICL, por ter uma ampla capilaridade global, tem acesso a muitas fontes de matéria-prima e muitas opções de fornecedores.

“Isso traz pra gente um pouco de escala. Na visão de custo, sempre quando você tem escala, você consegue boas negociações. Mas também garante para a gente abastecimento. Temos visto o mercado, esse ano, sofrendo com o abastecimento de algumas matérias-primas que não estão chegando a tempo também das aplicações. E no caso da ICL, a gente tinha bons estoques, para também definir bem as estratégias de inventário aqui no Brasil”.

Investimentos de R$ 90 milhões no ano

Para mostrar que a ICL vem lidando bem com os desafios do mercado e pretende continuar avançando, a empresa revelou ao AgFeed que, nos últimos meses, somente em processos industriais está investindo R$ 35 milhões.

O montante faz parte de uma previsão da companhia de investir ao todo R$ 90 milhões no Brasil ao longo de 2026. Segundo a empresa, vem sendo mantido, nos últimos três anos, um investimento anual entre R$ 85 milhões e R$ 100 milhões no mercado brasileiro.

São duas frentes principais, ambas na fábrica de Suzano (SP). Uma delas está relacionada ao empacotamento dos produtos. Foi trazida para a planta paulista uma tecnologia desenvolvida em outros países que reduz o “espaço” ou o “ar” que costumava sobrar dentro das embalagens dos fertilizantes hidrossolúveis – hoje os fertilizantes foliares são vendidos, na maioria, nessa condição de grão ou pó, que depois é dissolvido em água.

“Em um mercado onde, hoje, muitas empresas estão pensando como que sobrevivem aos fatores que a gente tem visto aí, a ICL está colocando bastante dinheiro nessa fábrica de Suzano, trazendo muita tecnologia do ponto de vista de automação, robótica, indústria 4.0. Tecnologias que já são bem consolidadas em outros mercados, varejo, farmacêutico, mas que você vê muito pouco em fertilizantes”, explicou Marques.

Com o novo modelo de empacotamento, a empresa diz que os clientes poderão colocar no mesmo caminhão ou armazém, cerca de 10% a mais de produto, ou seja, pagando o mesmo frete, poderão movimentar uma carga maior, gerando economia.

“Isso vai reduzir consequentemente o custo de frete em reais por tonelada”, ressaltou. Há também ganhos ambientais em função da redução das emissões de gases de efeito estufa ao transportar mais produto com o mesmo caminhão, o que vai ser considerando nas metas de descarbonização da ICL.

Dos R$ 35 milhões, um total de R$ 11,5 milhões está sendo aplicado na questão do empacotamento e relançamento de alguns produtos, com base na nova tecnologia.

O restante está sendo investido para melhorar a granulação dos fertilizantes. É uma tecnologia chamada de microgranulação, que busca garantir mais homogeneidade e solubilidade dos produtos, favorecendo uma rápida dissolução durante o preparo da calda para aplicação foliar e aumentando a eficiência agronômica.

“O grande investimento que a gente está fazendo na planta são equipamentos e tecnologia para que a gente aumente essa solubilidade, porque a gente entende que isso é um diferencial competitivo no mercado e é uma grande dor do agricultor. Eles precisam garantir que os produtos se dissolvam em uma velocidade muito rápida, porque muitos deles não têm tanques nas fazendas”, pontuou.

Novo centro de distribuição em Goiás

A vice-presidente da ICL destaca ainda que a empresa está reforçando a estratégia de “uma operação muito próxima”, com fábrica, produção e distribuição posicionadas, localmente.

Nesse sentido, a empresa tem um plano de crescimento para os próximos cinco anos, que incluiu o mapeamento, por meio de diferentes metodologias digitais, de onde a empresa deveria ter instalados os seus centros de distribuição.

Foram definidos 10 locais e o último deles foi inaugurado no mês passado, em Rio Verde, Goiás. O investimento nos centros de distribuição não foi divulgado pela companhia, mas segundo Marques, não está contabilizado nos R$ 90 milhões, é um valor à parte.

“A gente percebe que o agricultor passa a tomar a decisão muito mais próximo do momento de aplicação. Então a gente enxerga que velocidade de entrega e de abastecimento é um diferencial para o campo”, destacou Marques, sobre o investimento nos novos CDs.

“Outro fator que a gente tem percebido são as questões tributárias, com a reforma tributária aqui no Brasil. Antigamente, boa parte das localizações que as empresas tinham de fábrica, de centro de distribuição, eram decididas sempre com uma inteligência fiscal, não com uma inteligência logística”.

Segundo Marques, como no futuro próximo não vai haver mais essa predominância tributária nas decisões, foi feito esse redesenho, que contou com a utilização de tecnologias como Digital Twins (gêmeos digitais) e “modelos matemáticos capazes de analisar e simular diferentes cenários, tornando a tomada de decisão mais assertiva”.

Foram escolhidas as localidades onde seria possível entregar os produtos aos clientes no prazo de 2 a 5 dias., além das premissas de custo e frete.

Em alguns locais há parceiros estratégicos. No caso de Rio Verde, o projeto foi feito com a Bravo Serviços Logísticos, que já tem experiência no atendimento de demandas de armazenamento e distribuição de insumos agrícolas. Até então, a atuação da ICL em Goiás era conduzida a partir de Aparecida de Goiânia.

No ano passado, em entrevista ao AgLíderes, videocast do AgFeed, o CEO da ICL, Alfredo Kober, falou do plano de dobrar o tamanho da empresa no Brasil.

No caso dos CDs, a estratégia é a mesma. Foram construídos já com capacidade para dobrar volumes ao longo dos próximos cinco anos, segundo Ana Beatriz. Agora a ICL passa a contar com 14 centros de distribuição.

Resumo

  • Multinacional israelense ICL, de fertilizantes, está investindo R$ 35 milhões na fábrica de Suzano (SP), prevendo aporte total de R$ 90 milhões no ano
  • Investimento envolve novas tecnologias para a fábrica, com foco em automação e robótica e melhorias no empacotamento e solubilidade dos produtos
  • Apesar dos desafios com a guerra no Irã, ICL teve lucro líquido no segundo trimestre, globalmente, com previsão pelo menos empatar as vendas no Brasil este ano, na comparação anual

Fábrica da ICL em Suzano (SP)