Depois de registrar crescimento de dois dígitos no faturamento em 2025, a paranaense Lar Cooperativa Agroindustrial, de Medianeira (PR), deve manter a trajetória de expansão em 2026.

O ritmo, no entanto, será mais moderado, diante de um cenário menos favorável para as proteínas animais e da pressão sobre os custos de combustível e frete provocada pela guerra no Irã e pelo fechamento do Estreito de Ormuz durante boa parte da primeira metade do ano.

“Não vai atingir dois dígitos. Esperamos que a gente fique próximo de dois dígitos, mas sabendo que não vamos atingir”, afirmou o presidente da Lar, Irineo da Costa Rodrigues, em entrevista ao AgFeed durante o Salão Internacional de Proteína Animal (SIAVS), evento do setor de carnes realizado nesta semana em São Paulo.

No ano passado, a cooperativa tinha faturado R$ 23,2 bilhões, alta de 14,1%. “Neste ano está previsto que nós vamos ultrapassar R$ 24 bilhões em faturamento e acreditamos que isso vai acontecer”, projeta o presidente da cooperativa.

No primeiro semestre, o faturamento da Lar já havia dado sinais de que o ano teria um desempenho menos acelerado na comparação com 2023.

A receita da cooperativa cresceu 4,6% no período, avanço que Rodrigues avalia como “modesto”, mas também equilibrado frente aos desafios enfrentados pela cooperativa no período.

“Frente à queda de preço de grãos e também da área de carnes, podemos dizer que esse crescimento se deveu porque nós estávamos com escala maior, trabalhando com mais produção”, disse Rodrigues.

Além da queda nos preços das principais commodities da companhia ao longo da primeira metade do ano, Rodrigues afirma que a Lar enfrentou uma elevação significativa dos custos de combustíveis e fretes em razão da guerra no Irã, pressionando as despesas da cooperativa.

No ano passado, a Lar exportou carne de frango para 71 países e carne suína para 23 países.

O Oriente Médio é um mercado relevante para a cooperativa, que envia produtos para países da região do Estreito de Ormuz, como Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.

“O aumento de custos foi significativo, tendo encarecido o combustível e o frete para aqueles países”, diz Irineo da Costa Rodrigues.

Se a área de proteínas animais não trouxe resultados muito animadores até aqui, a expectativa é de que os grãos puxem o desempenho da cooperativa no segundo semestre de 2026.

A Lar trabalha com uma boa safra de milho e espera superar as metas de recebimento do cereal neste ano.

A cooperativa projeta encerrar 2026 tendo recebido mais de 3 milhões de toneladas de milho e mais de 3 milhões de toneladas de soja.

Os volumes devem ficar levemente acima dos registrados em 2025, segundo Rodrigues. No ano passado, a Lar recebeu 3,7 milhões de toneladas de milho e 3 milhões de toneladas de soja.

Depois de preços menos favoráveis na primeira metade de 2026, a expectativa agora é de melhora na remuneração dos grãos, segundo Rodrigues, o que deve contribuir para o faturamento da cooperativa na reta final do ano.

“A área de grãos está sinalizando um crescimento no preço tanto do milho quanto da soja. Isso deverá fazer com que haja uma contribuição melhor na área de grãos no segundo semestre”, projeta Rodrigues.

O El Niño, no entanto, é um ponto de preocupação para a cooperativa. Rodrigues conta que a Lar tem recomendado aos associados que, ao tomarem crédito para a próxima safra, também incluam apólices de seguro como forma de proteção.

“Não sei se todos vão conseguir, mas a Lar está recomendando o seguinte: financia essa lavoura para ter o amparo de uma linha de crédito que no evento mais forte possa obter uma prorrogação, junto com o seguro”, diz.

Rodrigues avalia que ainda é cedo para determinar se o El Niño poderá de fato prejudicar a produção e o recebimento de soja da cooperativa e, consequentemente, seu faturamento. Ainda assim, o presidente não menospreza os riscos envolvidos.

“Em havendo o problema de El Niño que venha prejudicar a produção de grãos, isso vai sem dúvida impactar a produção de soja a ser comercializada no próximo ano. É cedo, mas é um risco iminente que não pode ser ignorado”, ressalta.

Proteínas seguem pressionadas

Embora os grãos devam sustentar os resultados no segundo semestre, o segmento de carnes da cooperativa continua pressionado por preços mais baixos.

De acordo com dados da Esalq/USP, os preços do quilo do frango congelado estavam em R$ 7 em março, passaram a R$ 7,48 em maio, após a eclosão da guerra no Irã, e depois voltaram a recuar, atingindo R$ 7,13 na semana passada.

Já os preços do quilo do suíno vivo no Paraná recuaram de R$ 6,62 em março para R$ 4,58 na semana passada, também segundo dados da Esalq/USP.

“A proteína animal, seja frango, suínos, não deu as perspectivas de melhorar o preço este ano”, resume Irineo da Costa Rodrigues.

Além do mercado interno não favorecer, como a Lar é forte exportadora de proteína animal, o nível mais baixo do câmbio ao longo deste ano está comprometendo os resultados da cooperativa.

Rodrigues avalia que, com o dólar em nível mais baixo ao longo deste ano, os preços recebidos em reais pelas proteínas exportadas tendem a ficar abaixo dos níveis registrados no primeiro semestre de 2025.

Outro ponto de atenção é a restrição impostas pela União Europeia às exportações brasileiras de carne de frango. O bloco europeu pretende bloquear as remessas vindas do Brasil a partir do começo de setembro.

Cerca de 5% das vendas da cooperativa têm como destino o bloco europeu. “É um tema que, sem dúvida, está nos preocupando”, diz.

Na avaliação do presidente, o frango brasileiro deve ter suas exportações de fato para a UE interrompidas a partir do início de setembro, e a retomada dos embarques não deverá ocorrer rapidamente.

Apesar de representar uma fatia pequena da receita total, a perda desse mercado terá algum impacto para a cooperativa, ainda que Rodrigues não consiga estimar, por ora, exatamente o tamanho desse efeito.

“A Lar não vai conseguir substituir esse pequeno mercado que nós vamos deixar de atender, indo para outro mercado. Alguma perda vamos ter. Não é significativo, mas vai acontecer”, estima.

Investimentos continuam

Apesar dos desafios, a cooperativa prevê investir R$ 650 milhões ao longo deste ano, com os recursos concentrados principalmente na modernização e melhoria de estruturas já existentes, segundo Rodrigues.

Uma parcela desses investimentos virá do BNDES, com quem a Lar obteve um financiamento de R$ 60,3 milhões para três projetos no Paraná.

Entre os projetos está a construção de três granjas para uma nova unidade de recria de aves em São José das Palmeiras (PR), com capacidade anual para recriar 800 mil fêmeas e 88 mil machos.

Também estão previstas melhorias nas unidades de armazenagem da cooperativa em São Miguel do Iguaçu (PR) e Itaipulândia (PR), que receberão novos sistemas de limpeza, secagem e movimentação de grãos.

Em fevereiro, a Lar realizou uma emissão de CRA de R$ 700 milhões, sob coordenação líder da XP Investimentos. Bradesco BBI, J. Safra, BTG Pactual e Santander também atuaram como coordenadores da operação.

A cooperativa já havia realizado operações semelhantes nos últimos dois anos, inclusive em valores próximos. Em maio de 2024, emitiu R$ 701 milhões, enquanto em julho de 2025 realizou uma operação de R$ 700 milhões.

Por ora, no entanto, o presidente afirma que não estão previstas novas emissões de CRA.

“Não está previsto ter novos acessos agora. A gente faz na medida do possível, porque queremos liquidar dívidas e precisamos ter alongamento de algumas linhas de financiamento”, afirma.