Se a União Europeia suspender de fato a importação de carne de frango e outros produtos de origem animal do Brasil a partir do próximo dia 3 de setembro, em função das restrições ao uso de antimicrobianos na produção, o mercado de proteína animal não deve sentir impactos significativos da interrupção de remessas ao bloco europeu.

Essa é a avaliação do presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin.

“Se por acaso fechar (as exportações), você não tem um desequilíbrio de mercado. Isso não quer dizer que agora vai encher de produto o mercado interno, mas que tem como distribuir (o frango que seria remetido ao bloco europeu) a mais de 150 mercados que a gente exporta” ressaltou o presidente da ABPA, em entrevista coletiva a jornalistas nesta terça-feira, 28 de julho, em São Paulo.

A União Europeia retirou, no início de maio, o Brasil da lista de países que cumprem as regras do bloco de utilização de antimicrobianos.

A partir da decisão, o Brasil não poderá – até segunda ordem – exportar, a partir do próximo dia 3 de setembro, carne de frango, carne bovina e outros produtos de origem animal para os países do bloco europeu.

Desde então, representantes do governo brasileiro têm tentado, sem sucesso, reverter a decisão da UE.

Ao contrário do Poder Executivo, que endureceu o tom contra a União Europeia em nota divulgada à imprensa na semana passada, a ABPA evitou tomar partido.

“Não cabe aqui a nós olhar se teve erro, equívoco de avaliação ou não da parte europeia ou da parte brasileira, se a parte europeia foi mais dura, foi menos dura”, disse Santin.

“Para nós, não interessa. Como setor, estamos trabalhando com a máxima de que nós vamos continuar a fazer o que a gente sempre fez, que é cumprir os requisitos sanitários da Europa”, emendou.

De acordo com Santin, empresas exportadoras de carne de frango já trabalham há anos com sistemas de segregação de lotes e que já não faziam uso de promotores de crescimento e sem antibióticos considerados críticos para a medicina humana na produção destinada ao mercado europeu.

O presidente da ABPA ressaltou que a mudança pedida pelo bloco europeu foi a exigência de uma camada adicional de fiscalização por parte do Ministério da Agricultura, indo além da verificação de documentos e das inspeções que já eram feitas.

Essa etapa a mais já está sendo colocada em prática, de acordo com o presidente da ABPA, e agora será validada pelos representantes do bloco.

"Nós já estamos rodando, de acordo com a proposta do governo brasileiro feita para a União Europeia, um ciclo de produção dos frangos que vão ir para a Europa a partir da metade de agosto já sob uma nova regra de uma camada a mais de fiscalização brasileira para fazer exatamente igual o que a gente sempre fez", disse.

O setor, agora, aguarda o resultado de uma auditoria que será feita por uma comitiva europeia no fim de agosto e que poderá ser decisiva para a retirada do Brasil da lista de países inaptos à exportação.

Apesar de a chegada dos representantes europeu acontecer em uma data próxima à entrada em vigor do bloqueio às exportações, Santin acredita que é possível que o País consiga sair da lista de países impedidos de exportar ao continente europeu a tempo.

“(Eles podem) tomar a decisão aqui, com base nas informações iniciais e não com relatório final”, afirmou o presidente da ABPA. “Também é possível chamar uma reunião extraordinária on-line.”

Santin disse ainda que o setor continua trabalhando em duas frentes. “Primeiro, continuar a cumprir o que a gente já cumpriu. E, segundo, ajudar o governo nas negociações, em tudo que for possível”, disse.

Paralelamente às negociações diplomáticas conduzidas pelo governo brasileiro, a ABPA também intensificou o diálogo com importadores europeus para que eles pressionem as autoridades da União Europeia a reverem a decisão.

De acordo com Santin, a estratégia é reforçar a importância da proteína brasileira para o abastecimento e a estabilidade dos preços no bloco, especialmente em um momento em que parte da produção europeia enfrenta dificuldades decorrentes de surtos de gripe aviária e incêndios florestais.

“Estamos acionando os nossos clientes importadores para que coloquem a importância do Brasil para a estabilidade de preços da comunidade europeia, especialmente no momento em que tem incêndios florestais severos e influenza aviária em um dos grandes produtores da União Europeia”, disse.

O presidente da ABPA afirmou ainda que a entidade busca mobilizar os compradores para destacar o histórico de conformidade sanitária do Brasil e defender a manutenção do fluxo comercial enquanto a disputa entre os governos é conduzida.

Ainda assim, caso a restrição da União Europeia entre efetivamente em vigor, Santin afirmou que o setor terá condições de redirecionar os volumes destinados ao bloco para outros mercados.

Atualmente, cerca de 7% da produção brasileira de carne de frango é exportada para a União Europeia. “O difícil seria se a gente tivesse, no Oriente Médio, mercado fechado”, exemplificou Santin.

A região é um destino muito mais relevante para o setor. Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, por exemplo, respondem juntos por pelo menos 14% de toda a carne de frango exportada pelo Brasil.

“E ele está fechado, mas estamos conseguindo exportar 95% do que a gente exportava”, ressaltou Santin, em referência ao fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã durante boa parte do primeiro semestre, que dificultou o acesso de mercadorias aos países árabes.

Entre janeiro e junho deste ano, o Brasil embarcou 767 mil toneladas de carne de frango para o Oriente Médio, volume 5,2% inferior ao registrado no mesmo período de 2025.

Santin ressaltou que esse desempenho só foi possível graças à reorganização da logística.

As cargas passaram a contornar a região pelo Cabo da Boa Esperança, rota que acrescenta entre 10 e 15 dias ao transporte, além da utilização de hubs logísticos em diferentes pontos, como Omã, Mar Mediterrâneo, Mar Vermelho e o porto de Khor Fakkan, nos Emirados Árabes Unidos.

“Isso é uma vitória do setor, que se mostrou resiliente, forte e soube construir alternativas”, comemorou o presidente da ABPA.

Apesar dos desafios, perspectiva positiva

Ainda que tenha enfrentado vários desafios na metade inicial de 2026, o setor de proteína animal encerrou o primeiro semestre com desempenho positivo, segundo Santin.

Para a reta final do ano, a expectativa do presidente da ABPA é de que o mercado siga na mesma toada. “Nós estamos confiantes de fechar um ano bastante positivo”, disse.

A ABPA projeta que a produção brasileira de carne de frango alcance entre 16 milhões e 16,15 milhões de toneladas neste ano, o que representaria um crescimento de até 5,6% em relação a 2025.

O cenário também é favorável para as exportações. Depois de embarcar 5,324 milhões de toneladas em 2025, o Brasil poderá exportar até 5,875 milhões de toneladas em 2026, alta de 10,3%.

Segundo Santin, esse avanço ocorre mesmo com o aumento da produção, já que a demanda internacional continua absorvendo os volumes adicionais. Além disso, os principais concorrentes do frango brasileiro enfrentam dificuldades, o que amplia o espaço para o produto nacional.

A União Europeia sofre com surtos de gripe aviária e ondas de calor, enquanto os Estados Unidos registram redução nas exportações em meio ao aumento do consumo doméstico. A Tailândia, outro grande produtor de carne de frango, também perdeu participação no comércio internacional neste ano. “Tudo isso abre espaço para o Brasil”, resumiu Santin.

No mercado doméstico, a disponibilidade interna deve passar de 4,082 milhões para cerca de 4,35 milhões de toneladas, enquanto o consumo per capita poderá crescer de 19,1 kg para até 20,4 kg por habitante.

Apesar da perspectiva de crescimento, Santin afirmou que a ABPA acompanha possíveis mudanças na dinâmica de consumo da população brasileira, impulsionadas pelo aumento do endividamento das famílias, pela expansão das apostas on-line e pelo avanço do uso das canetas emagrecedoras.

Sobre este último ponto, o presidente da ABPA destacou um paradoxo. “O GLP-1 acaba fazendo as pessoas consumirem mais proteínas, em detrimento aos carboidratos, mas faz consumir quantidades menores de proteína também.”

Ovos e suínos

Na carne suína, a ABPA projeta uma produção de até 5,87 milhões de toneladas em 2026, volume que poderá representar um avanço de 5% sobre 2025.

As exportações também devem acompanhar esse ritmo. A expectativa é de embarques de até 1,6 milhão de toneladas neste ano, alta de 5,9% em relação ao ano passado.

Segundo Santin, esse crescimento continua sendo sustentado pela diversificação dos mercados compradores, com destaque para as compras de Filipinas, Japão e Chile.

Mesmo com a redução das compras pela China – que importou 64.348 toneladas entre janeiro e junho deste ano, queda de 32,9% em relação ao mesmo período de 2025 – e com o aumento da produção doméstica chinesa para cerca de 59 milhões de toneladas, o presidente da ABPA acredita que o país continuará sendo um importante comprador da proteína brasileira.

“A China está com uma produção bastante elevada, mas ela não deixará de comprar miúdos, já que eles consomem mais miúdos de suínos, do que a própria produção local consegue produzir”, ressaltou Santin.

No mercado doméstico, a perspectiva também é de crescimento. A disponibilidade interna deve passar de 4 milhões para cerca de 4,35 milhões de toneladas no horizonte analisado, enquanto o consumo per capita poderá avançar de 19,1 kg para até 20,4 kg por habitante.

“O brasileiro está cada vez mais colocando a carne suína (à mesa), às vezes por efeito preço, às vezes por efeito substituição, e, agora, também pelo conhecimento das qualidades e das capacidades que a carne suína tem de prover boa proteína para a família”, disse.

Para o mercado de ovos, a ABPA estima que a produção passe de 62,3 bilhões de unidades em 2025 para 64,8 bilhões em 2026, alta de até 4,1%.

Na contramão da produção, porém, as exportações devem recuar. A entidade projeta embarques de 30 mil toneladas neste ano, queda de até 26,6% em relação às 40,9 mil toneladas exportadas em 2025.

O movimento já aparece nos números do primeiro semestre. Entre janeiro e junho, os embarques caíram 39,9% em volume e 42,7% em receita na comparação com o mesmo período do ano passado.

Para Santin, essa retração reflete principalmente a normalização da oferta de ovos nos Estados Unidos após os surtos de gripe aviária no país, além dos efeitos das tarifas impostas pelo governo americano sobre produtos importados do Brasil.

“O efeito da queda é Estados Unidos exclusivamente”, resumiu o presidente da ABPA.

Resumo

  • ABPA diz que eventual embargo da União Europeia não deve desequilibrar o mercado e aposta no redirecionamento das exportações
  • Entidade projeta produção recorde de frango e suínos em 2026, impulsionada pela demanda internacional e novos mercados
  • Mesmo com queda nas exportações de ovos aos EUA, ABPA mantém perspectiva positiva para o setor de proteína animal neste ano