Na quase centenária M. Dias Branco, o farelo de trigo cumpriu um papel secundário dentro da estratégia de negócios da empresa.

Resultado inevitável da moagem do principal insumo consumido pela companhia, o produto era comercializado a granel ou em sacas, sem marca própria e com uma estrutura comercial voltada muito mais a dar vazão ao subproduto do que propriamente desenvolver um mercado.

Agora, a dona de marcas como Piraquê, Adria e Vitarella decidiu mudar essa lógica. A companhia criou a Gran Farelo, marca voltada ao segmento de nutrição animal que inaugura uma nova vertical de negócios dedicada ao aproveitamento comercial do farelo de trigo, apostando em uma operação estruturada para atender desde grandes frigoríficos e granjas até pequenos varejistas especializados no agronegócio.

Daniel Ponçano, diretor da M. Dias Branco Profissional, divisão voltada ao mercado B2B da companhia, cita que o marco é mais do que o lançamento de uma marca, e sim inaugura um novo negócio de fato.

"Até 2025, o farelo era visto muito como só um subproduto. Nossa preocupação era fazer com que ele saísse rapidamente para não interromper a moagem do trigo, enquanto o foco estava nas farinhas, massas e biscoitos", disse ao AgFeed.

A mudança começou justamente no ano passado, quando a companhia concluiu que havia espaço para capturar mais valor em um mercado que já conhecia bem.

"Entendemos que existia um valor agregado no nosso produto por conta de alguns diferenciais e decidimos tratá-lo efetivamente como um negócio”, prosseguiu o diretor.

A decisão levou à reformulação da área comercial. A empresa criou uma equipe especializada no atendimento ao agronegócio, alterou a política de precificação, aprofundou estudos sobre o mercado de alimentação animal e passou a estruturar uma estratégia voltada especificamente aos consumidores desse segmento.

O movimento ganha relevância também pelo tamanho da matéria-prima envolvida. A M. Dias Branco compra cerca de 1 milhão de toneladas de trigo por ano, principal insumo de sua operação. Desse volume, aproximadamente 22% acabam se transformando em farelo durante a moagem.

"É um volume bastante relevante quando pensamos que o trigo é o principal insumo da companhia", afirmou Ponçano. O Gran Farelo será utilizado, segundo o diretor, na alimentação de bovinos, suínos, aves e equinos. Ele explica que o produto possui um elevado teor de fibras, proteínas e minerais.

Para ganhar share num mercado recheado de multinacionais e grandes empresas brasileiras, Ponçano cita que a ideia é apostar na experiência acumulada ao longo de décadas na moagem de trigo como principal diferencial competitivo.

Com sete moinhos próprios - cinco no Nordeste e dois na região Sul -, todo o processamento do farelo ocorre dentro da mesma estrutura utilizada para produção de farinha.

Isso permite rastrear a matéria-prima desde a compra do trigo até o produto final, além de manter um processo automatizado de controle de qualidade.

"Temos rastreabilidade do trigo comprado até ele virar farelo. O processamento é automatizado e existe um controle de qualidade muito grande ao longo de toda a cadeia”, disse. Outro ponto que a empresa considera um diferencial está na embalagem.

Enquanto boa parte do mercado comercializa farelo em sacas costuradas, a Gran Farelo será distribuída em embalagens valvuladas de 30 quilos, totalmente vedadas. Segundo Ponçano, a solução reduz o contato do alimento com ar, umidade e impurezas durante transporte e armazenamento, preservando as características nutricionais até o momento do uso.

"Conseguimos garantir a qualidade desde a saída do moinho até a utilização pelo produtor, seja em uma granja, em um confinamento ou em uma loja de ração", afirmou.

Embora a marca esteja sendo lançada apenas agora, o produto já fazia parte da operação da empresa. A diferença é que boa parte das vendas ocorria por meio de intermediários, sem uma estratégia própria de posicionamento.

Agora, a intenção é ampliar a presença direta da companhia junto aos consumidores finais. Atualmente, cerca de 70% das vendas de farelo têm como destino grandes indústrias de proteína animal, granjas e frigoríficos.

A expectativa é que, ao longo deste ano, a empresa utilize a capilaridade formada por sete moinhos e 25 centros de distribuição espalhados pelo país para ampliar esse alcance, chegando também a pequenos varejos especializados e pecuaristas.

"Nossa ideia é estar presente em toda a grande indústria de proteína animal, mas também pulverizar essa distribuição. Queremos que o produto chegue desde grandes integradoras até pequenos produtores”, pontuou o executivo.

A comercialização continuará ocorrendo em um modelo híbrido, combinando representantes comerciais especializados e equipe própria de vendas, dependendo do perfil de cada cliente.

Segundo Ponçano, o investimento necessário para colocar a nova operação em pé foi "relativamente baixo" justamente porque a infraestrutura industrial já existia.

A companhia não precisou adaptar fábricas nem instalar novas linhas de produção. Os principais aportes foram direcionados a pesquisas de mercado, desenvolvimento da marca, formulação comercial e estruturação da equipe especializada.

"O investimento mais relevante começa agora, na construção do mercado”, disse. Além da oportunidade comercial, a companhia também enxerga ganhos relacionados ao aproveitamento integral da matéria-prima, já que agora, 100% do trigo comprado terá algum valor agregado na comercialização.

No primeiro trimestre deste ano, a M. Dias Branco teve lucro líquido de R$ 106,3 milhões, alta de 53,2% na comparação com o mesmo período do ano anterior. Em relação ao quarto trimestre de 2025 houve queda de 32,7%.

O faturamento líquido da companhia ficou estável em R$ 2,2 bilhões, com uma comercialização de 407,5 mil toneladas de produtos no período, alta de 3,4%.

Olhando para o segundo trimestre, o Bradesco BBI projetou, em relatório, uma recuperação operacional, com avanço de 16% nos volumes frente ao primeiro trimestre. Na comparação anual, a alta deve ser de 3%, refletindo mais ganho de share no varejo. Apesar disso, a receita líquida, na visão do banco, deve cair 1% na comparação anual, para R$ 2,7 bilhões.

Resumo

  • Com 1 milhão de toneladas de trigo processadas por ano, companhia passa a tratar os cerca de 22% que eram subproduto como nova frente de negócios
  • Gran Farelo mira desde grandes frigoríficos e granjas até pequenos pecuaristas, apoiada em sete moinhos e 25 centros de distribuição
  • Estratégia busca capturar mais valor do farelo de trigo e ampliar o aproveitamento comercial de 100% da matéria-prima processada