Quando o pecuarista Braz Neto decidiu criar a gestora Planalto Capital há 10 anos, a ideia era diversificar os investimentos de sua família para além do agronegócio.
Até meados do ano passado, a atuação da casa estava dedicada à antecipar recebíveis para empresas de logística, mas nessa trajetória, e com novos sócios que entraram aos poucos na operação, o movimento tomou o caminho contrário.
Em meio à crise financeira enfrentada por parte dos produtores brasileiros, a gestora viu uma oportunidade de estruturar operações envolvendo propriedades rurais.
Depois de assessorar uma negociação de terras de R$ 200 milhões em 2025, prepara agora um fundo dedicado ao segmento, com expectativa de mais R$ 500 milhões em negócios até o fim do ano na vertical, revelou o sócio-diretor da Planalto Capital, Fernando Rossi, ao AgFeed.
A mudança de rota levou a empresa a lançar oficialmente a Planalto Capital Terras, braço especializado em assessoria financeira para operações envolvendo fazendas, como sale and leaseback, reestruturação de passivos, planejamento patrimonial e aquisição de propriedades rurais.
A aposta surgiu justamente quando dois movimentos começaram a convergir: de um lado, produtores buscando alternativas para reorganizar dívidas e levantar capital, e do outro, investidores interessados em aproveitar oportunidades abertas pelo momento mais delicado vivido pelo setor.
"Nós começamos olhando para outros mercados. Nosso primeiro fundo estruturado era de antecipação de recebíveis para motoristas, completamente fora do agro. Era uma estratégia de diversificação. Mas no ano passado começamos a receber muitas demandas de produtores por conta desse cenário de estresse financeiro, enquanto nossos investidores também passaram a olhar para o agro como uma oportunidade", contou Fernando Rossi.
A história ajuda a explicar o posicionamento da empresa. Diferentemente de muitas casas de investimento que chegaram ao agronegócio a partir da Faria Lima, a Planalto reúne justamente os dois mundos.
Enquanto Lucas Short e Navarro Rosa (outros sócios) atuam na estruturação financeira da gestora, Braz Neto e Fernando Rossi dividem a gestora com outras atividades no campo.
Braz é pecuarista no Vale do Araguaia (MT) e presidente da Liga do Araguaia, associação voltada à promover a pecuária sustentável na região. Já Rossi produz soja, milho semente, feijão e tomate irrigados, além de operar um confinamento de gado de corte em Joviânia (GO).
Segundo ele, essa vivência prática acabou se tornando um diferencial justamente nas operações envolvendo terras. "Existe um gap muito grande nesse mercado. Normalmente você encontra ou o corretor especializado em fazendas ou o pessoal da Faria Lima olhando apenas a estrutura financeira. Como produtores, conseguimos juntar essas duas visões", afirmou.
Ao longo do segundo semestre do ano passado, no entanto, começaram a surgir oportunidades também para investidores interessados em comprar terras agrícolas. Foi nesse contexto que a Planalto assessorou a operação de aproximadamente R$ 200 milhões envolvendo propriedades rurais.
Embora a empresa não revele os clientes, Rossi afirma que o negócio serviu para validar a tese e motivou a criação formal do braço especializado. Agora, a expectativa é ampliar esse volume.
A tese da gestora, no entanto, não está baseada apenas na valorização das propriedades. Segundo Rossi, a combinação entre juros elevados, dificuldades financeiras enfrentadas por produtores e um mercado de terras ainda sem grande transparência na formação de preços criou um ambiente favorável para operações estruturadas.
"O mercado de terras é muito diferente de outros ativos. Não existe um índice claro de preços. Dentro da mesma região, uma fazenda pode valer muito mais que outra dependendo do solo, do regime de chuvas, da logística, dos contratos de arrendamento e até da qualidade dos produtores vizinhos", explicou, citando que casos recentes como da partilha de R$ 1,8 bilhão das da Radar entre SLC e Bom Futuro ajudam a dimensionar os preços no mercado.
Na avaliação dele, a janela atual também é diferente da observada há dois anos, quando muitos proprietários ainda tentavam negociar fazendas pelos preços registrados durante o pico do mercado agrícola.
"No ano passado vimos muitos negócios que não saíam porque o vendedor ainda estava ancorado naquele momento de preços muito altos. Do fim do ano passado para cá percebemos compradores e vendedores ficando mais próximos. Acho que estamos entrando numa boa janela para aquisição de terras, pelo menos até o ano que vem”, avaliou.
Apesar do avanço da tese fundiária, a Planalto continua operando outras frentes de negócios. A primeira delas foi justamente a que deu origem aos fundos estruturados da empresa: a antecipação de recebíveis.
Por meio da ZapCash, plataforma desenvolvida pela própria gestora, trabalhadores autônomos conseguem antecipar pagamentos diretamente pelo WhatsApp. Hoje, o principal contrato da operação é com a EntreGô, empresa de logística ligada ao iFood.
Segundo Rossi, o fundo dedicado a essa estratégia já antecipou mais de R$ 200 milhões em recebíveis e estuda novas aplicações ligadas ao transporte e à cadeia logística.
"Nossa tecnologia nasceu para operações pulverizadas, de tickets pequenos. Hoje estamos conversando também com empresas do transporte intermunicipal e vemos possibilidades de conexão com o agronegócio, como operações envolvendo frigoríficos e pecuaristas", afirmou.
Outro braço do ecossistema criado pelos sócios é o AgroApp. Fundado por Braz Neto e Fernando Rossi após ambos assumirem a gestão das propriedades da família, o aplicativo surgiu da dificuldade em encontrar informações técnicas concentradas em um único lugar.
"Quando fui para a fazenda, senti muita falta de uma fonte confiável de consulta. As informações estavam espalhadas. O AgroApp nasceu para resolver isso", contou Rossi.
Hoje, a plataforma reúne mais de 140 mil downloads e cerca de 20 mil usuários ativos, oferecendo consultas sobre defensivos agrícolas, bulas, informações agronômicas e fóruns de discussão entre produtores e técnicos. Segundo os fundadores, mais de 20% dos agrônomos e estudantes de agronomia utilizam o aplicativo.
Embora os sócios já não participem da operação diária da startup, permanecem no conselho e estudam formas de incorporar ferramentas de inteligência artificial ao aplicativo.
Resumo
- Gestora Planalto Capital criou vertical de terras após estruturar operação de R$ 200 milhões e mira mais R$ 500 milhões e fundo dedicado em 2026
- Nova vertical aposta em sale and leaseback, reestruturação de dívidas, compra de fazendas e planejamento patrimonial
- Além da tese de terras, grupo soma R$ 200 milhões antecipados para setor de logística, com fundo junto à EntreGô