Ao final de abril, a consultoria inglesa Systemiq publicou um relatório expondo uma visão otimista em relação à capacidade chinesa de garantir sua produção de alimentos e reduzir a dependência externa. O relatório se baseou na análise do 15º Plano Quinquenal, publicado pelo governo chinês.

Parte da imprensa - e dos profissionais mais ligados às questões ambientais - acabou tratando a percepção da consultoria inglesa como uma realidade inexorável, que representaria uma grande mudança de curto prazo para o sucesso do agronegócio brasileiro.

Houve quem tratasse o tema como uma novidade capaz de alterar significativamente o potencial de expansão da produção, algo que, teoricamente, estaria sendo negligenciado pelos profissionais do agronegócio.

No entanto, o tema está longe de ser novo. No 14º Plano Quinquenal, o país já havia atribuído importância crescente às questões relacionadas à segurança alimentar. Até mesmo antes dessas diretrizes serem formalizadas nos planos quinquenais, com frequência os chineses têm reforçado as intenções de reduzirem a dependência externa em diversas cadeias produtivas.

O otimismo presente no relatório partiu do pressuposto que o país será capaz de reproduzir, na agricultura, o mesmo modelo de transformação acelerada que o tornou líder mundial em setores como veículos elétricos, baterias e energia solar, reduzindo significativamente sua dependência das importações de alimentos. O relatório também apostou no aumento do consumo de produtos substitutos das proteínas de origem animal.

No entanto, os autores pecaram em não enfatizar as diferenças entre a velocidade de incorporação tecnológica em ambientes industriais e aquela observada na produção agropecuária, sujeita a condicionantes biológicos, edafoclimáticos e territoriais.

A análise exige equilíbrio em relação à viabilidade técnica do aumento na produtividade do campo. Justamente seguindo essa linha mais equilibrada que outro relatório foi apresentado. Divulgado pelo Insper, sob coordenação do pesquisador, professor e engenheiro agrônomo Marcos Jank, a abordagem foi mais técnica e focada realidade da produção agropecuária.

A mensagem final do relatório do Insper pode ser resumida em cinco pontos:

1. Autossuficiência alimentar total é considerada inviável, dadas as restrições de terra, água e crescimento da demanda.
2. A China continuará sendo um grande importador agrícola, especialmente.
3. O objetivo do governo chinês é construir resiliência, e não eliminar o comércio internacional.
4. A segurança alimentar passou a integrar a estratégia de segurança nacional e de competição geopolítica.
5. O Brasil permanece como parceiro estratégico, mas deverá enfrentar uma China mais seletiva, tecnológica e mais preocupada com diversificação de fornecedores e segurança das cadeias de abastecimento.

O que a China busca é garantir que nunca fique vulnerável a interrupções externas no abastecimento de produtos considerados estratégicos, aceitando continuar dependente de importações quando isso for economicamente racional e compatível com sua estratégia nacional. É essencial separar os conceitos de autossuficiência de segurança alimentar.

O próprio aumento de produtividade também não é novidade. Há décadas são realizados investimentos, e com sucesso, no aumento da eficiência no campo, inclusive na suinocultura cujo sistema de produção intensivo, em ambientes fechados, ganhou amplo destaque nos últimos anos.

Em relatório interno enviado aos clientes, a Athenagro analisou os níveis de produtividade atuais e quanto conseguiriam produzir caso atingissem os mesmos níveis de eficiência de países considerados como benchmarking. A análise não considerou a expansão da atividade, mas sim a capacidade de produzir mais a partir da atual estrutura de rebanho e bens de produção.

Nossa análise mostra, entre outros resultados, que se a China operasse com a produtividade da Alemanha, a produção de carne suína no país saltaria dos atuais 59,5 milhões de toneladas – estimadas para 2026 – para 87,9 milhões de toneladas, um aumento de 28,4 milhões de toneladas.

Com a produtividade brasileira na avicultura, os chineses poderiam ampliar a produção atual para 53,47 milhões de toneladas, um aumento de 36 milhões sobre as atuais 17,3 milhões de toneladas.

Na carne bovina, a análise ficou mais interessante pelo fato de que os rebanhos chinês e norte-americano são praticamente do mesmo tamanho. Sendo assim, com os indicadores zootécnicos dos Estados Unidos, os chineses poderiam atingir até 11,8 milhões de toneladas de carne bovina, o menor aumento entre as três comparações.

A produção de carne bovina na China é de 7,6 milhões de toneladas e, de acordo com o critério adotado, aumentaria apenas 4,26 milhões de toneladas.

É importante levar em consideração que a elevação dos indicadores de produtividade também implicará aumento da demanda por grãos ao longo da cadeia produtiva. Essa necessidade independe do sistema de produção adotado, seja em instalações convencionais ou em edifícios verticais. A exigência nutricional dos animais continuará sendo essencialmente a mesma, com mudanças graduais decorrentes da evolução do material genético.

Sendo assim, no caso das proteínas, o país precisará definir qual é a combinação mais eficiente entre a expansão da produção doméstica e a manutenção das importações para garantir sua segurança alimentar, conforme os objetivos estabelecidos no 15º Plano Quinquenal.

O desafio não será apenas produzir mais, mas decidir em quais cadeias produtivas buscar maior autossuficiência e em quais continuará sendo economicamente mais vantajoso recorrer ao mercado internacional.

Entretanto, justamente na carne de frango — a proteína com maior potencial de expansão utilizando a tecnologia hoje disponível —já é exportadora líquida, registrando superávit na balança comercial.

Surge, portanto, uma questão estratégica: haveria espaço para absorver internamente esse aumento de produção ou seria mais vantajoso manter o crescimento das exportações e direcionar os investimentos para ampliar a oferta de carne suína, proteína que continua sendo a preferida dos consumidores chineses?

À luz das diretrizes do plano chinês, a manutenção de uma elevada capacidade de produção de carne de frango parece fazer sentido tanto sob a ótica comercial quanto como instrumento de segurança alimentar. Além de fortalecer a competitividade das exportações, essa capacidade amplia a flexibilidade do sistema alimentar chinês para responder rapidamente a eventuais necessidades de abastecimento.

Mesmo que a produtividade avance substancialmente, o próprio desenvolvimento econômico do país tende a ampliar a demanda doméstica por proteínas, impulsionado pela continuidade da urbanização e pela melhoria da renda e da qualidade de vida da população.

Em 2025, após décadas de intensa urbanização, a estimativa era de que a China dispusesse de 1,15 hectare para cada habitante que vive no meio rural. No Brasil, são 9,8 hectares para cada cidadão que vive no campo.

O consumo combinado das três carnes na China é de aproximadamente 62 kg por habitante ao ano, cerca de 40% inferior ao registrado no Brasil. Mesmo diante dos esforços estratégicos do governo chinês para direcionar parte da demanda à carne de frango, a tendência é de crescimento do consumo total de proteínas, ao mesmo tempo em que persistem limitações para elevar, em curto espaço de tempo, os indicadores de produtividade muito além dos níveis atuais.

Como bem lembrado no estudo do Insper, embora concentre aproximadamente 20% da população mundial, a China dispõe de apenas 8% das terras agricultáveis e de 6% da água doce do planeta.

Por ora, o cenário mais provável é uma redução na taxa de incremento das importações e não uma redução nas quantidades importadas. E, evidentemente, o perfil das importações também tende a ser alterado, de acordo com as opções internas de investimentos.

Nos próximos anos, a China deverá permanecer como o principal mercado do agro brasileiro, especialmente para a carne bovina. No entanto, os chineses serão mais exigentes em relação aos protocolos e garantias de produtos adquiridos. Sobre a capacidade produtiva é fato que não se deve subestimar o potencial chinês, mas tampouco se deve superestimá-lo.

Maurício Palma Nogueira é engenheiro agrônomo, diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária.