O cenário difícil para o crédito agrícola não assusta o Sicoob, que deve crescer seus desembolsos na temporada recém iniciada de 2026/2027.
Em coletiva realizada nesta manhã em Brasília (DF), executivos da instituição financeira cooperativa projetaram R$ 70 bilhões em recursos para o setor na temporada. Na safra 2025/2026, o Sicoob anunciou R$ 60 bilhões em recursos, e desembolsou praticamente o montante projetado, R$ 59,5 bilhões.
Nas estimativas dos executivos da empresa, o market share do Sicoob chegou a cerca de 8% do mercado de crédito rural brasileiro. Considerando também as CPRs (Cédulas de Produtor Rural), essa participação pode chegar a 9%.
O número da temporada que acabou de acabar também foi maior do que o liberado em 2024/2025, quando o Sicoob desembolsou R$ 55,6 bi para o agro.
"Faltou um pouco para cumprir a projeção em 2025/2026, mas chegamos muito perto. A notícia boa é o ticket médio, que se manteve na casa dos R$ 305 mil. Com isso, estamos próximos de fechar a nossa carteira agro, em saldo devedor, em R$ 100 bilhões", disse o diretor-presidente do Sicoob, Marco Aurélio Almada.
A projeção de crescer na safra 2026/2027 vem acompanhada de um cenário difícil. Almada reconheceu, durante a apresentação, os avanços na inadimplência rural.
Raphael Santana, gerente institucional de Agronegócios do Sicoob, colocou a situação em números. Há quatro safras, a inadimplência rural no Sicoob era de 0,08% da carteira.
Hoje, o encerramento da safra mostra um indicador em 2,01%, considerando atrasos acima de 90 dias. "Mais que dobramos em quatro safras e essa é uma inadimplência que nunca tivemos. Ainda assim, bem menor do que o mercado apresenta", disse.
"Na safra 2024/2025 renegociamos quase R$ 1 bilhão, cerca de R$ 960 milhões em pedidos de produtores. Nesta última safra, foi R$ 1,6 bi em pedidos de renegociação, mas isso tudo dentro de uma carteira de quase R$ 100 bilhões", continou.
Segundo ele, os R$ 70 bilhões projetados para a nova safra poderiam até ser maiores, mas a instituição tem acompanhado de perto o El Niño e seus efeitos e por isso resolveu frear um pouco a projeção.
Apesar disso, Raphael Santana cita que os estados em que o Sicoob tem mais participação - Minas Gerais, Espírito Santo, Roraima, São Paulo e Goiás, não sofrem, historicamente, grandes impactos com o fenômeno.
"No Rio Grande do Sul, por exemplo, nossa atuação é recente e por isso a exposição não é tão alta. Em Mato Grosso, onde pode haver situações de seca, também temos atuação recente, de cerca de sete ou oito anos", disse.
Diante disso, a decisão de avançar a carteira, mesmo que em uma velocidade aquém do que em anos anteriores, se dá, segundo o diretor-presidente, Marco Almada, de colocar o Sicoob como "agente perene do produtor rural".
Almada ainda fez referência ao Banco do Brasil, ao dizer que observou o "principal agente de crédito se retraindo". A instituição federal anunciou na última semana sua projeção de desembolso para a safra 2026/2027, e com números menores do que o projetado há um ano, referente à safra 25/26.
O BB anunciou R$ 230 bilhões no ano passado, porém desembolsou R$ 209 bi. Para a nova safra, projetou R$ 210 bilhões, R$ 1 bi acima do desembolsado, mas abaixo do anunciado um ano antes.
Dos R$ 70 bi previstos pelo Sicoob para a nova safra, serão R$ 15,8 bi para Pronamp (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte), R$ 11,5 bi para o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) e o restante, pouco mais de R$ 40 bi, para "demais produtores".
Caso confirmados, os desembolsos para Pronamp e Pronaf serão, respectivamente, 37% e 39% mais altos que na safra passada. O restante do crédito deve crescer 5%.
As linhas de custeio seguirão como o principal item, com R$ 32 bilhões, alta de 50% no planejamento frente ao desembolsado no ano-safra passado. Serão R$ 18,7 bilhões para investimentos, crescimento de 63%, e as demais linhas tendem a ser menores que na safra 25/26.
As CPR-F sem destinação devem somar R$ 12,6 bi (queda de 34%), o crédito para comercialização deve cair 4% para R$ 4,3 bilhões e o montante para industrialização deve sofrer baixa de 30,5%, para R$ 1,9 bilhão.
Marcelo Carneiro Costa, diretor comercial e de canais do Sicoob, justificou esses sinais trocados pelo planejamento de crescer especialmente em produtores de pequeno e médio porte. Na safra encerrada agora, 63% das operações atenderam esse público.
Foram R$ 8,2 bilhões no Pronaf, R$ 10,7 bi no Pronamp e R$ 40,5 bi nas demais linhas. Por cultura, a pecuária liderou os desembolsos com R$ 9,5 bilhões, seguida da cafeicultura, soja, leite, compra de tratores, correção de solo e armazenagem. Foram 194,7 mil contratos nos 12 meses.
Foram ainda R$ 21,4 bilhões para custeio, R$ 11,5 bilhões para linhas de investimentos, R$ 4,6 bilhões para comercialização e R$ 2,7 bi para industrialização. O restante, R$ 19,3 bilhões, foram desembolsados por CPRs e giro.
O Sicoob acabou de ultrapassar os 10 milhões de cooperados, relembrou Almada. São 4,6 mil pontos de atendimento em todos os estados, com presença em 2,5 mil cidades. São mais de 600 mil produtores rurais no ecossistema de cooperativas que compõe a empresa. "Parece que não é muito dentro do universo de cooperados, mas é uma prioridade grande para nós", disse o diretor-presidente.
Resumo
- Sicoob prevê desembolsar R$ 70 bi na safra 2026/2027 e levar carteira agro para perto de R$ 100 bilhões
- Inadimplência rural subiu para 2,01%, mas segue abaixo da média do mercado, segundo a cooperativa
- Pronaf e Pronamp terão alta superior a 35%, enquanto custeio e investimentos concentrarão a maior parte dos recursos