No agronegócio brasileiro - especialmente em momentos de margens mais apertadas - o discurso costuma ser separado da prática rapidamente. Uma tecnologia premiada ou bem-sucedida em outro país pouco vale como credencial. Antes de ganhar escala, startups estrangeiras precisam provar, no campo, que suas soluções funcionam nas condições das lavouras brasileiras.
Foi esse o caminho percorrido pela argentina DeepAgro. Desenvolvedora de uma tecnologia de pulverização seletiva, a startup escolheu um "campo de provas" de peso para validar sua solução: as fazendas da Amaggi, uma das maiores produtoras de grãos do mundo.
Depois de um ano de testes, a empresa prepara agora uma nova rodada de investimentos para acelerar sua expansão no Brasil.
A agtech está levantando US$ 3 milhões (cerca de R$ 15,5 milhões pela cotação atual) em uma rodada “pré-Série A”, para financiar sua expansão comercial no Brasil, revelaram executivos da empresa ao AgFeed.
Os recursos são majoritariamente de um “grande fundo brasileiro”, disse José Dominguez, argentino que comanda a operação nacional, e preferiu não dar mais detalhes do investidor.
Na Argentina, onde foi fundada em 2017, a DeepAgro estima que sua tecnologia já foi utilizada em cerca de 1,2 milhão de hectares espalhados em mais de 100 clientes que cultivam soja, milho, amendoim, algodão e girassol. O desembarque no Brasil começou há cerca de dois anos, mas vender nunca foi a prioridade inicial.
A empresa trouxe sua tecnologia para o Mato Grosso e passou a treinar seus algoritmos para reconhecer plantas daninhas encontradas nas lavouras brasileiras, principalmente em soja, algodão e cana.
A principal validação veio na Amaggi. Durante um ano, um sistema de pulverização seletiva desenvolvido pela DeepAgro, o SprAI., rodou em pulverizadores da companhia e percorreu pouco mais de 22 mil hectares de soja e algodão.
Segundo a empresa, a tecnologia que detecta na hora a praga e decide o quanto e se aplica o herbicida, trouxe uma economia média de 71% no uso dos químicos, inclusive em áreas de fechamento de entrelinhas, uma das situações mais complexas para tecnologias desse tipo.
Na prática, utiliza um sistema de sensores que são acoplados em pulverizadores. Com uma câmera, capta e processa imagens que fazem a pulverização selecionada, apenas onde há alguma praga
A companhia também está realizando testes junto à Adecoagro, de cana, mas esse ainda não teve os números finais consolidados.
A ideia agora, segundo Dominguez, é escalar a solução e usar o que foi feito na Amaggi como vitrine, além de todos os anos e operações na Argentina. “Falamos que os vendedores da nossa tecnologia são os clientes”.
A DeepAgro mira conquistar a região da BR-163, rodovia que corta Mato Grosso de norte a sul. Hoje a startup já tem alguns clientes em primeiras operações e Dominguez cita que os melhores resultados foram vistos na soja e no algodão.
Na Amaggi, um dos focos foi controlar o caruru, praga que traz perdas na faixa de 14 a 15 sacas por hectare, segundo estimativas do mercado e que não é vista na Argentina - o que forçou a agtech a calibrar seus algoritmos.
A empresa também negocia uma parceria com um fabricante de máquinas e pretende usar o Brasil como principal vetor de crescimento nos próximos anos.
"A gente falava que tinha que vir para o Brasil resolver problemas do Brasil. Nosso primeiro objetivo não era vender no Brasil. Era demonstrar que a solução era capaz de rodar do jeito certo", afirmou Dominguez.
Além de crescer a equipe comercial e aumentar a base de clientes por aqui, a Deepagro está para fechar uma parceria com um fabricante de máquinas para ajudar na distribuição.
A tecnologia, segundo explicou Dominguez, pode ser adaptada em qualquer máquina, de qualquer ano e de qualquer fabricante. “De 1995 a 2026”, disse.
O cálculo do executivo é que a tecnologia “se pague” com a aplicação em oito mil hectares. O modelo de venda funciona tanto por um aluguel (funcionando tanto por um valor fechado ou valor por hectare) quanto por venda direta ao produtor.
Na Argentina o modelo era focado na venda, mas aqui os executivos perceberam que existia essa demanda pela locação.
O CEO e criador da startup e da tecnologia é Juan Manuel Baruffaldi. Filho de produtor rural, se formou em ciência da computação, numa carreira científica, segundo ele, orientada à software e com especialização em IA.
Os primórdios da DeepAgro surgiram quando o pai tinha justamente um problema na aplicação de químicos. “Vi que não era um problema só dele, mas de todos. Escalei a tecnologia, fiz um primeiro produto e fizemos uma primeira aplicação na soja”, contou ao AgFeed.
José Dominguez já conhecia o atual “chefe” de outros carnavais e atuava na startup SiloReal, que possui uma tese de digitalizar silobolsas, quando foi questionado por Baruffaldi sobre a indicação de alguém que ajudasse a desenvolver o negócio por aqui.
“Levantei a mão e falei que eu mesmo queria fazer parte disso”, contou. “A DeepAgro é uma startup como poucas, que resolve um problema e traz economia para o produtor ao mesmo tempo que reduz o impacto ambiental, além do uso de IA”, prosseguiu.
Antes de captar a rodada atual, Juan Baruffaldi cita que a startup já captou cerca de US$ 4,8 milhões em rodadas prévias.
Nessa jornada, atraiu fundos argentinos como Innventure, Draco Capital, BYX Ventures e Pampa Start. A ideia é realizar uma Série A mais robusta na metade de 2027 e, aí sim, trazer mais investidores brasileiros.
“É importante ter mais clientes aqui para captar. Digo que somos uma startup que começou na Argentina, não somos uma empresa argentina. Começamos lá, com escala global, e agora com foco maior no Brasil”. A Deepagro também possui clientes nos Estados Unidos, onde atua com amendoim e milho, e no Uruguai.
Resumo
- DeepAgro levanta US$ 3 milhões em rodada pré-Série A liderada por fundo brasileiro para expandir operação no País
- Testes em 22 mil hectares da Amaggi indicaram economia média de 71% no uso de herbicidas com pulverização seletiva
- Startup negocia parceria com fabricante de máquinas e aposta no Brasil como principal mercado para sua próxima fase de crescimento