Uma semana depois de ter obtido sua mais retumbante vitória nos bilionários litígios envolvendo o herbicida Roundup, a Bayer surpreendeu o mercado na noite da quarta-feira, 01 de julho, ao anunciar uma nova estratégia para lidar com seu produto à base de glifosato.

Em comunicado, a companhia alemã informou que vai transferir todas as suas operações envolvendo o glifosato nos Estados Unidos para uma nova empresa, batizada de Ruveon, que a partir de agora cuidará da produção, precificação, comercialização e questões legais em torno do Roundup.

Segundo a Bayer, a medida fazia parte do plano quinquenal da sua divisão agrícola, mas ainda assim foi recebida como uma surpresa positiva pelo mercado. Na manhã desta quinta-feira, 2 de julho, as ações do conglomerado alemão subiam mais de 5% na bolsa de Frankfurt.

A visão otimista dos investidores se justifica por abrir uma nova possibilidade de limitar os efeitos dos milhares de processos ativos contra a Bayer nos EUA, relacionando o uso do glifosato à ocorrência de casos de câncer em agricultores.

Na semana passada, Suprema Corte americana decidiu que a companhia não pode ser responsabilizada por não incluir nos rótulos do Roundup um alerta de risco de câncer que nunca foi exigido pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA).

A decisão fortaleceu a tese da Bayer em outros processos e reduziu significativamente um dos principais passivos jurídicos que perseguem a empresa desde a aquisição da Monsanto.

Os litígios já duram mais de 10 anos e a Bayer estima ter desembolsado mais US$ 10 bilhões com o caso.

Logo após o anúncio de sua criação, a Ruveon já mostrou que nasce com o DNA combativo. A nova subsidiária da Bayer publicou uma carta aberta em seu site recém-lançado, em que informou ter apresentado às autoridades americanas solicitações de investigações antidumping e de direitos compensatórios sobre as importações de glifosato provenientes de empresas chinesas.

A empresa alega que fornecedores chineses se beneficiam de subsídios governamentais, que lhes permitem vender a "preços que nenhum produtor não subsidiado consegue igualar".

A Bayer (agora com a marca Ruveon) é a única companhia fabricar produtos à base de glifosato nos Estados Unidos. A empresa não divulga números específicos da operação com o herbicida, mas estima-se que o negócio gere mais de US$ 3 bilhões em receita apenas no país.

Logo após a divulgação do comunicado sobre a criação da Ruveon, analistas pontuaram que a estratégia pode ajudar a Bayer a lidar com esses processos.

Stefan Wulf, da corretora ODDO BHF, afirmou à Reuters que a estratégia ajudaria a Bayer a "separar ou alienar o negócio no futuro, caso litígios em andamento ou adicionais tornem o negócio... pouco atrativo".

Segundo afirmou Sebastian Bray, do Berenberg, à agência Bloomberg, a separação das atividades relacionadas ao glifosato pode “ajudar a minimizar o risco jurídico caso os demandantes tentem recorrer a vias não contempladas pela recente decisão da Suprema Corte dos EUA favorável à Bayer”.

Ao mesmo tempo, ele pontuou que a decisão da companhia reacende as “especulações entre investidores sobre uma eventual separação de algumas atividades agrícolas da Bayer”, embora o próprio Bray considere que é cedo para afirmar que uma cisão completa esteja nos planos.

Uma potencial separação da divisão agrícola fez com que o Deutsche Bank, maior banco da Alemanha, revisasse para cima a recomendação das ações da Bayer, afirmando que a divisão do portfólio da Bayer é "uma questão de quando e como, e não de se" isso vai acontecer.

A companhia, no entanto, tem negado ter essa hipótese no radar, pelo menos no curto prazo.

Resumo

  • Bayer transfere operação do glifosato nos EUA para a nova empresa Ruveon
  • Medida busca reduzir riscos jurídicos ligados aos processos bilionários em torno do Roundup
  • Mercado volta a especular sobre cisão da divisão agrícola da companhia