O mercado de máquinas agrícolas vem registrando quedas consecutivas nas vendas há pelo menos três anos, mas há empresas que mostram mais resiliência ao período conturbado, com disposição até para fazer investimentos no Brasil.

A marca japonesa Yanmar é o exemplo deste cenário, de quem já foi e voltou ao mercado brasileiro de tratores, mas hoje, em pleno “ciclo de ajuste”, vem conseguindo manter crescimento a cada ano e aposta que a demanda vai voltar a crescer.

Nesta quarta-feira, 24 de junho, uma pequena cerimônia na cidade de Indaiatuba (SP), com autoridades locais, marca o início das obras de construção de uma nova fábrica da Yanmar.

Como mostrou o AgFeed em julho do ano passado, a empresa havia decidido investir R$ 280 milhões em uma nova planta.

As obras começam só agora em função da demora para obter algumas licenças, que finalmente foram obtidas. São as duas fases da obra que, a princípio, seriam finalizadas em 2030, mas a empresa já pensa em acelerar o ritmo.

“Estamos pensando em diminuir o tempo da segunda etapa. A ideia básica é tentar fazer com o menor tempo possível. A gente está sinalizando projeções para a nossa matriz que se encaixam bem, então a gente tem a chance de conseguir esse encurtamento”, revelou Gilberto Saito, presidente da Yanmar South America, em entrevista exclusiva ao AgFeed.

A primeira fase prevista até 2027 consiste na construção da estrutura industrial da fábrica de tratores. A capacidade de produção subirá dos atuais 2,5 mil tratores para, no mínimo, 2 mil unidades, considerando apenas um turno de trabalho.

“Vamos ajustar a nossa capacidade produtiva, melhorar as nossas condições operacionais, ter uma estrutura melhor, uma fábrica mais moderna, dentro de processos mais próximos do que o Japão tem agora, uma automatização que a gente quer colocar que traz ganhos de produtividade”, explicou Saito.

Na segunda etapa, está uma outra ação importante para a estratégia da empresa, que é a construção de um novo centro de distribuição, além de escritórios administrativos e de vendas unificados em um só lugar, diferente do que é hoje.

“Se a gente precisar uma produção adicional e o mercado demandar, ela (fábrica) já está sendo pensada para permitir uma produção de 10 mil tratores com bastante tranquilidade, ajustando algumas coisas menores”, pontuou.

Se tudo der certo, Saito acredita que no máximo em 2029 estará com as duas fases concluídas. Além de atender a demanda brasileira, ele espera, a partir de Indaiatuba, que a empresa passe a exportar para outros países, principalmente o Mercosul.

Na conversa com o AgFeed, Saito revelou que as negociações no Uruguai, por exemplo, estão adiantadas, e poderão trazer um projeto piloto neste sentido.

O fato é que a fábrica atual do Brasil está operando no limite da capacidade. Por isso, mesmo sem grande crescimento no mercado de tratores nos últimos anos, o presidente da Yanmar diz que o plano de investimento foi mantido, pensando na estratégia de médio e longo prazo.

Vendas (ainda) crescem

A chegada da Yanmar no Brasil foi em 1957. Teria sido a primeira fábrica da marca fora do Japão, mas a produção tinha foco em motores a diesel estacionários.

No final dos anos 1980, foi iniciada a produção de um trator agrícola, que foi comercializado até 2001, quando a empresa decidiu enxugar as operações no Brasil.

Os tratores com marca Yanmar, a partir daquele momento, passaram a ser vendios pela Agritech, do grupo da Agralle.

Há 10 anos, porém, com a alta expressiva da produção agrícola brasileira e da demanda por máquinas, os japoneses resolveram retomar o negócio de tratores.

“Em 2017, 2018, a Yanmar, viu que o mercado tinha mudado e renovou o interesse de retomar o mercado agrícola. Nós não tínhamos uma rede, tivemos que começar a operação praticamente do zero”, contou Saito.

No primeiro momento, começou vendendo tratores da marca Solis, da multinacional indiana ITL – a Yanmar detém um terço de participação nesta empresa.

Nos últimos anos, a Yanmar conseguiu retomar o uso de sua própria marca em tratores agrícolas e, no mesmo período, vem garantindo crescimento nas vendas, mesmo no momento mais difícil da indústria.

O maior foco da marca são os tratores de baixa potência, para pequenos e médios produtores. E esse é um mercado que caiu bem menos do que os grandes, mais comuns no Cerrado, nas lavouras de grãos.

“O segmento que tem sido mais importante e que tem sustentado (as vendas) é principalmente o café. Na região de Minas Gerais, um pouco no Espírito Santo e também, surpreendentemente, em Rondônia, a gente tem crescido bastante. O segmento de café, embora tenha tido uma pequena baixa no preço, ainda está se mantendo em níveis razoáveis”, ressaltou.

Nesse cenário, a Yanmar diz ter registrado alta de 3% nas vendas em 2025, na comparação com o ano anterior. Segundo o presidente da empresa, o faturamento hoje está próximo de R$ 1 bilhão.

Para 2026, ele prevê ainda um cenário de estabilidade, mas com chances de crescer 5%. O principal entrave, segundo Saito, tem sido a questão do crédito.

“Eu acho que o segmento de maior porte no agrícola sofre mais. A Yanmar foca mais no segmento de menor potência, que tem sofrido menos, mas de uma maneira geral, essas condições que a gente vê no mercado, macroeconômicas, impactam todo mundo, com taxas de juros muito altas, inadimplência em níveis muito elevados. O crédito ficou muito restrito, você vê bancos, cooperativas, segurando muito o crédito, muitos negócios sendo represados”, afirmou.

“A gente espera crescer, continuar crescendo um pouquinho, mas sem aquele crescimento em níveis e taxas que a gente teve há três, quatro anos. Vai ser um ano difícil”.

Embora em valores e volumes absolutos, o crescimento esteja mais tímido, Gilberto Saito diz estar satisfeito com a manutenção – e até avanço – de market share da empresa.

Os dados da Fenabrave indicaram a Yanmar em terceiro lugar nos tratores, em abril deste ano, com 14% de participação nesse mercado.

“Se você for comparar com o ano passado, você vê que o número não variou muito. É que nós mantivemos o nível (de vendas) e os outros caíram. Então, aparece um pouco no share, é algo positivo”, diz ele.

Para o ano como um todo, a meta é se manter entre 10% e 12% de share.

Outras ações estratégicas estão previstas enquanto a situação “macroeconômica” não muda, segundo Saito.

“A gente trabalha de uma maneira bastante pé no chão naquilo que está ao nosso alcance, fortalecendo a base, fortalecendo a rede, expandindo o nosso negócio em áreas que a gente ainda não atua. Tentando enxergar oportunidades com expansão de portfólio. A gente só tinha um trator, trouxemos uma colheitadeira de grãos, e começamos alguma coisa com implementos”.

Sem medo dos chineses

O presidente da Yanmar South América diz que a empresa está preparada para o aumento da concorrência de marcas chinesas no mercado de tratores de baixa potência. Diversas empresas vêm marcando presença em feiras e sinalizando possíveis investimentos, como mostrou o AgFeed.

“É preciso ver com que mindset essas chinesas vão vir. Elas são muito oportunistas. Entram oferecendo um produto com um valor muito baixo, mas não conseguem preparar um entorno do negócio, uma rede forte para dar suporte, assistência técnica. Então normalmente, ou pelo menos o que vimos nos anos anteriores, tem sido aquele voo de galinha”, afirmou.

No mercado de mini-escavadeiras, ele admite, a Yanmar sofreu uma pequena redução nas vendas em função de concorrentes chineses.

Já no agrícola ele acredita que a qualidade e durabilidade dos produtos japoneses são diferenciais para o cliente.

“A gente está fortalecendo a rede, estamos trabalhando bastante no pós-venda, melhorar a condição dos técnicos, a questão do centro de distribuição de peças. Então a gente pensa mais a longo prazo”, ressaltou. “Mas com certeza temos que estar preparados para isso”.

Resumo

  • Yanmar inicia fábrica em Indaiatuba com investimento de R$ 280 milhões e possibilidade de concluir o projeto até 2029
  • Empresa cresceu 3% em 2025, alcançou faturamento próximo de R$ 1 bilhão e ganhou participação no mercado de tratores
  • Estratégia foca pequenos e médios produtores, expansão no Mercosul e fortalecimento da rede para enfrentar concorrentes chineses