Para a maior parte dos CEOs do setor sucroenergético, apresentar os resultados da safra 2025/2026 foi uma espécie de fardo. Em geral, eles refletiram um ano difícil no clima, com perda de produtividade nos canaviais, e, consequentemente, uma menor moagem nas usinas.
Para Tomás Manzano, CEO da Copersucar, no entanto, esse momento foi quase que uma doce repetição de uma rotina dos últimos anos, com números expressivos e quebra de recorde, independentemente das intempéries climáticas ou das oscilações das cotações das commodities em Nova York.
Nesta terça-feira, 23 de junho, o ritual se repetiu: em entrevista a jornalistas, ele apresentou o resultado final da safra 2025/2026 para a Copersucar, que encerrou o ciclo com um lucro líquido consolidado de R$ 631 milhões.
O dado veio em linha com a evolução ascendente do indicador nas últimas 17 safras, quando o lucro apurado foi de R$ 4 milhões. Nos últimos três ciclos por exemplo, a linha final do balanço saltou de R$ 281 milhões em 2023/2024 para R$ 402 milhões em 2024/2025. Um novo impulso levou, agora, a um patamar 59% maior em apenas um ano.
A receita líquida do ecossistema formado por diversas empresas acompanhou o ritmo, atingindo R$ 65,8 bilhões, um crescimento de 5,5% sobre os R$ 62,3 bilhões do período anterior. Mais do que o volume financeiro, a eficiência da operação saltou aos olhos do mercado com um ROE (retorno sobre patrimônio líquido) de 35%.
A saúde do balanço foi coroada por uma virada estratégica na estrutura de capital: a companhia reverteu um endividamento líquido de R$ 301 milhões para uma posição de caixa líquido de R$ 607 milhões.
"Temos flexibilidade e resiliência para enfrentar diferentes cenários. Esse resultado demonstra a robustez do nosso modelo de negócios”, afirmou Manzano.
“Com um plano estratégico claro, uma governança sólida, muita disciplina financeira, gestão de riscos e um time com profundo conhecimento do mercado, conseguimos diversificar receitas e seguir crescendo de forma consistente ao longo dos ciclos econômicos", afirmou Manzano.
Mesmo com a região Centro-Sul do Brasil enfrentando uma safra marcada por desafios de produtividade agrícola e quebras pontuais, as 39 usinas associadas à Copersucar conseguiram navegar contra a corrente. O grupo registrou um crescimento de 0,9% na moagem, totalizando 108 milhões de toneladas de cana processadas.
O número pode parecer modesto em termos percentuais, mas ganha relevância estatística ao consolidar o oitavo ano consecutivo de ganho de participação da Copersucar no mercado total do Centro-Sul, que concentra 80% da produção de cana no País.
Segundo Manzano, o segredo para esse desempenho, que destoa da média do setor, reside na arquitetura organizacional da companhia. "O principal fator é o desenho do modelo Copersucar, que propicia uma especialização”, analisou.
“As usinas estão lá no campo dia e noite cuidando do solo, cuidando da cana. É uma questão de dedicação do produtor com foco na operação. E, da porteira da usina para fora, como a gente costuma dizer, é a competência da Copersucar — abrir mercado, abrir novos destinos, lidar com toda a complexidade do mercado de futuros, derivativos, redes e assim por diante", explicou.
A dinâmica do quadro de associados também passou por movimentações estratégicas. A Usina Diana deixou o grupo, mas o vácuo foi rapidamente preenchido e superado pela expansão de outros membros. Usinas como Cocal, Virálcool e o grupo Ferrari/Vale do Verdão realizaram aquisições importantes de ativos que pertenciam à Raízen, incorporando novas unidades e áreas agrícolas ao ecossistema Copersucar.
Assim, para a safra 2026/2027, que já está em curso, a empresa passa a contar com 42 usinas associadas. Com isso, a projeção é de um salto ainda maior: a companhia estima processar entre 125 e 128 milhões de toneladas de cana, impulsionada pela maturação desses novos ativos e por uma expectativa de clima mais favorável ao desenvolvimento dos canaviais.
Recordes em todos os fronts
A escala da Copersucar na safra 2025/2026 atingiu dimensões sem precedentes. No segmento de açúcar, a companhia comercializou um total de 17 milhões de toneladas. Desse montante, 15 milhões de toneladas foram destinadas ao mercado internacional através da Alvean, a trading controlada pelo grupo, enquanto 2 milhões de toneladas abasteceram o mercado doméstico brasileiro.
No mercado de combustíveis, a performance não foi menos impressionante. Foram 21 bilhões de litros de etanol comercializados, somando as operações no Brasil e nos Estados Unidos.
Nesse mercado, a safra 2025/2026 marcou a incorporação total da Evolua Etanol, plataforma de comercialização que agora é 100% controlada pela Copersucar após a conclusão da compra da fatia que pertencia à Vibra. A empresa registrou o melhor resultado de sua história, com um ROE recorde de 44%.
Nos Estados Unidos, a subsidiária Eco-Energy expandiu sua atuação não apenas no etanol, mas avançou agressivamente no segmento de gás natural.
Manzano destacou a magnitude dessa operação americana com uma comparação direta. "Comercializamos 43 milhões de metros cúbicos de gás por dia através da Eco-Energy. Só para efeito de comparação, esse volume equivale a 80% de tudo o que o Brasil consome de gás natural diariamente. É uma operação de escala global que nos dá uma visão privilegiada do mercado de energia na maior economia do mundo."
Outros braços do ecossistema também avançaram. A Newcom, comercializadora de energia elétrica, completou seu primeiro ano integral de operação com 11 milhões de MWh movimentados, sendo 6,5 mil GWh provenientes da biomassa das usinas associadas.
O CTC (Centro de Tecnologia Canavieira) entregou resultados recordes em pesquisa e desenvolvimento, lançando novas variedades que prometem elevar o teto produtivo do setor. Já a Logum, responsável pela logística dutoviária, registrou seu quinto ano consecutivo de crescimento, movimentando 4,9 milhões de m³ de etanol.
O CFO da Copersucar, Thiago Struminski, resumiu o sentimento da diretoria: "Todos eles, na verdade, tiveram o melhor resultado já registrado em suas histórias".
Na rota do Biometano e do etanol
Olhando para o futuro, Manzano destacou o avanço da operação de biometano, vista como a grande fronteira de inovação da Copersucar para a segunda metade desta década. O projeto BioRota, que nasceu como um piloto experimental, atingiu escala comercial plena na safra 2025/2026.
Com uma frota de 70 caminhões movidos a biometano, a operação já é responsável por 14% de todo o açúcar transportado até o Terminal Açucareiro Copersucar (TAC), no Porto de Santos. Os números da iniciativa são superlativos: mais de 13 mil viagens realizadas, 11 milhões de quilômetros percorridos e 600 mil toneladas de carga transportadas, resultando na substituição de 5 milhões de litros de diesel e na preservação da atmosfera contra 8 mil toneladas de CO2.
Mas o biometano não ficará restrito à logística própria. A Copersucar está pavimentando o caminho para se tornar uma potência na produção e comercialização desse gás renovável. A companhia tem dois novos projetos de usinas de biometano em estágio avançado, com previsão de início das obras entre o final de 2026 e o começo de 2027.
O investimento estimado para cada planta gira entre R$ 200 milhões e R$ 300 milhões, totalizando um aporte de até R$ 600 milhões no curto prazo.
"Ainda não podemos dizer o nome, mas temos duas usinas do sistema Copersucar já avançadas com os projetos. O modelo de negócio será o mesmo que nos trouxe até aqui com o açúcar e o etanol: a usina associada produz, e a Copersucar
Outra aposta da companhia até o fim dessa década são as oportunidades para crescimento do mercado do etanol. Na Visão 2030 da Copersucar, elas se dividem em três dimensões estratégicas. A primeira, de mais curto prazo, é a rodoviária, onde o desafio é converter o potencial da frota flex em consumo real.
Segundo ele, embora 90% dos carros leves no Brasil possam rodar com o combustível renovável, apenas 30% o fazem atualmente. A grande aposta imediata é a elevação da mistura de anidro na gasolina para 32% (E32), pauta que Manzano considera urgente – enquanto ele tratava do assunto na entrevista, o governo anunciou o adiamento da reunião do Conselho de Política Energética que analisaria este assunto ainda esta semana.
"A agenda do E32 sempre é uma preocupação, pois destrava uma demanda importante e imediata. Do ponto de vista técnico, já temos todos os testes feitos e a comprovação de que não há problemas para os motores. Agora, depende da vontade política e regulatória no CNPE", afirmou Manzano.
A segunda dimensão é a marítima. A Copersucar trabalha há três anos no desenvolvimento do etanol como combustível para navegação de grande porte. Para o executivo, as vantagens competitivas são claras: escala de produção já existente, infraestrutura de distribuição montada, baixíssima intensidade de carbono e um custo significativamente menor do que alternativas como amônia verde ou hidrogênio.
Por fim, a terceira dimensão é a aérea, com o SAF (Sustainable Aviation Fuel). Embora promissor, Manzano enxerga o combustível de aviação como uma rota de mais longo prazo, que ainda depende de ajustes de custo e maturação tecnológica para ganhar o céu de forma massiva.
O dilema dos preços
Apesar do brilho dos resultados internos, o cenário externo impõe cautela. Ao responder aos questionamentos sobre a recente pressão nos preços das commodities, Manzano foi enfático ao separar ruído de fundamento. Para o executivo, a queda nas cotações do açúcar para o patamar de 14 a 15 centavos de dólar por libra-peso em Nova York é um movimento que desafia a lógica econômica do setor no longo prazo.
"Estamos vivendo um momento de pressão nos dois produtos, tanto no açúcar quanto no etanol. No etanol, por uma razão de sobreoferta momentânea. No açúcar, não é um mercado que a gente enxerga que sustenta esse nível de preço baixo por um prazo longo. O mercado está equilibrado, os estoques globais estão baixos e o Brasil continua sendo a única grande fonte de suprimento capaz de atender à demanda mundial com eficiência", analisou o executivo.
Resumo
- Copersucar faturou R$ 65,8 bilhões e lucrou R$ 631 milhões na safra 2025/2026, mantendo 17 anos consecutivos de crescimento
- Grupo reverteu dívida líquida para caixa de R$ 607 milhões e projeta processar até 128 milhões de toneladas de cana em 2026/2027
- Empresa projeta novo crescimento de moagem, para mais de 125 milhões de toneladas de cana, na safra 2026/2027