A Rumo, empresa de logística do grupo Cosan, está trocando seu comando. Daniel Rockenbach, atual CEO da Rumo Malha Sul - operação de mais de 7 mil quilômetros que passa pelos estados de Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul -, passará a ocupar o posto máximo da empresa no próximo dia 20 de julho.
O novo diretor-presidente já está na empresa há 15 anos, e assume o lugar hoje de Pedro Palma, CEO da Rumo desde 2024 e que acumula mais de 10 anos de companhia.
Antes de comandar as operações da Malha Sul, o Rockenbach foi diretor comercial e COO da Rumo. Também atuou na MRS Logística e na ALL.
A informação foi divulgada primeiro no site Brazil Journal e posteriormente a Rumo confirmou a mudança através de fato relevante. A operadora logística não informou os motivos para a troca, mas disse que Rockenbach assumirá de forma interina - até quando ocupará o posto, não se sabe.
O movimento ocorre em meio a uma mudança geral de rota na Cosan, de Rubens Ometto, e em todas suas subsidiárias.
Por mais que grande parte da dívida da holding esteja concentrada na Raízen, que aprovou recentemente seu plano de recuperação extrajudicial com os credores, as outras controladas também são alvos constantes de boatos sobre novas direções a serem tomadas.
A Compass, plataforma de gás e energia da holding, fez seu IPO em maio, levando mais de R$ 3 bi ao caixa da Cosan. Agora, os olhares se voltam para a Rumo.
A Cosan informou ao mercado, no início de junho, que sua prioridade é "desalavancar e simplificar a estrutura da empresa", e que esse processo envolve a avaliação de vendas de participação em investidas.
Os números mais recentes mostram por que a desalavancagem virou prioridade para Rubens Ometto.
No primeiro trimestre de 2026, a Cosan registrou prejuízo de R$ 1,5 bilhão e encerrou o período com dívida líquida expandida de R$ 11,4 bilhões.
O ponto chave para analistas é a capacidade da holding de sustentar seu endividamento apenas com os dividendos recebidos das controladas.
Tanto que a empresa não divulga abertamente sua alavancagem e optou por informar o índice de cobertura do serviço da dívida (ICSD), que mede a relação entre os dividendos recebidos pelas investidas - como Rumo, Compass e Raízen - e os juros pagos nos últimos 12 meses.
Essa relação estava em 0,9 vez no final de 2025 e caiu para 0,4 vez no fim de março. Há um ano, estava em 1,2 vez.
Na prática, a geração de caixa das investidas cobre hoje apenas 40% das despesas financeiras da holding, o que reforça a necessidade de venda de ativos e outras medidas para reduzir a alavancagem.
Por isso e pelo fato de Daniel Rockenbach assumir de forma interina o comando da Rumo, os rumores de uma venda voltam a se aquecer, já que um novo controlador ou acionista poderia indicar novos executivos.
Hoje, a Cosan é dona de 20,33% da Rumo. Grande parte do capital (75,6%) é negociada na Bolsa, e o restante é diluído em investidores menores como Julia Arduini (dona de pouco mais de 3%), da ALL (América Latina Logística), empresa que foi incorporada e fundida com a Rumo em 2015
O site Pipeline, do jornal Valor Econômico, publicou há alguns meses que a lista dos interessados em comprar a participação (ou parte dela) da Cosan na Rumo incluía Inpasa, gigante do etanol de milho, Bunge, uma das maiores tradings do mundo, e o Grupo Ultra, que há poucos anos comprou o controle da Hidrovias do Brasil.
Na opinião de Filipe Nielsen, analista do Citi, a saída de Palma sugere um "momento de aparente incerteza na governança e estratégia da Rumo", ressaltando justamente negociações para venda da participação da Cosan na empresa.
Somado a isso, o relatório publicado por ele cita que a mudança deve "alavancar a vasta experiência" do novo CEO em um momento em que a empresa deve direcionar seu foco para desempenho operacional, acelerando volumes e pausando novos investimentos para expansão no Mato Grosso.
Pessimista com a empresa, o Citi recomenda a venda das ações da Rumo. Hoje, o papel negociado na B3 sobe 1% - no ano registra queda de 14%.
Onde há fumaça, há fogo?
Diferente da Raízen, onde a dívida é maior do que o valor da própria empresa, a Rumo ainda é um ativo gerador de caixa e com previsibilidade de receita. No último balanço, a companhia citou que o caixa total era superior aos R$ 5,7 bi, com quase R$ 800 milhões de geração de caixa após o capex recorrente no trimestre.
Diante disso, uma possível venda da participação da Cosan na Rumo tem mais a ver com a holding do que com a subsidiária.
"O momento da Rumo não é ruim. É um ativo de infraestrutura muito estratégico e que tem uma posição diferente da VLI, que tem dificuldades geográficas e até do ponto de vista de governança entre acionistas", disse uma fonte que conhece de perto o mercado de logística no agro e os executivos envolvidos na troca.
Com isso, a pergunta para um possível novo acionista de referência é: quanto ele quer ter de influência? Diante disso, ele acredita que dos três players colocados como possíveis compradores - Inpasa, Bunge e Ultra - não aceitariam um aporte sem esse controle do negócio.
Dos três, essa fonte acredita que o Ultra é que teria mais fit com a compra. Do lado da Inpasa, que teve aproximações estratégicas com empresas como a Petrobras e tentativas de joint venture com a Amaggi - ambas sem concretização -, seria improvável um aporte sem esse prognóstico.
No caso da Bunge - sempre apontada como possível compradora em rumores envolvendo grandes M&As no agro - que verticalizaria parte da produção, a compra poderia motivar uma união entre concorrentes como Cargill, Amaggi, Cofco, LDC e ADM a recorrerem em instâncias como o Cade, nos mesmos moldes que a Raízen fez no passado quando a Ipiranga tentou comprar a Ale. O negócio não saiu do papel.
Porém, na opinião dessa fonte, o Ultra entra no negócio se o caminho para assumir controle estiver claro, assim como foi na compra da Hidrovias do Brasil há cerca de dois anos.
"É preciso olhar que [a Rumo] é um negócio sem concorrência, de faturamento estável, de perspectiva de faturamento crescente porque os volumes do agro continuam subindo, e é um ativo em expansão que portanto captura volume e faturará mais. Isso tem a cara do Grupo Ultra. Eles não costumam jogar em mercados de muita competição", disse.
Em relação à saída de Pedro Palma do cargo de CEO, essa mesma fonte cita três possíveis motivos para o fato. O primeiro seria o executivo pedindo para sair após algum pedido de aumento de escopo da função por parte da Cosan, como por exemplo, passar a administrar itens contábeis do balanço, como risco-sacado.
Na segunda hipótese, Palma já sabendo que não será o futuro CEO no caso da Rumo trocar de fato seu acionista de referência, já trocou de emprego. Na terceira opção, que também envolve uma negociação das ações que a Cosan tem na Rumo, é apenas um rito de transição que demandaria um CEO transitório.
A fonte acredita mais ou na segunda ou na terceira opção. "As vezes sabendo que sairia da empresa, ele teve que deixar o cargo. Se isso ocorrer, não seria surpresa ele aparecer na VLI, que tem um CEO que acumula funções". Na concorrente, Fábio Marchiori é tanto CEO quanto CFO e diretor de relação com investidores.
"Mas onde há fumaça há fogo. Sabendo que a empresa está nesse processo de avaliar a venda da participação da Cosan, é coincidência demais o CEO sair com eles citando que quem ocupa é interino", prosseguiu a fonte.
O último ato de Pedro Palma
No último sábado, 20 de junho, a Rumo inaugurou o primeiro trecho da Ferrovia Estadual de Mato Grosso e seu terminal da BR-070, no município de Dom Aquino (MT). O investimento foi superior aos R$ 5 bilhões, e a nova unidade terá capacidade de movimentar até 10 milhões de toneladas de grãos por ano.
A unidade é próxima das cidades de cidades de Primavera do Leste e Campo Verde. Foram construídos 162 quilômetros de ferrovias, e o novo terminal extende o ponto final da operação da empresa no estado, que antes se encerrava no terminal de Rondonópolis.
A inauguração marcou o último ato público de Palma enquanto CEO. Depois do evento, o executivo celebrou o evento em seu Linkedin e citou que a inauguração é a "materialização de um sonho que começou quando a Rumo assumiu a concessão da ferrovia em 2015". Na época, ele era diretor comercial da operação Norte da empresa.
"Além de mais do que dobrar a capacidade de volume transportado em Mato Grosso na última década, passando de 12,5 para quase 26 milhões de toneladas de grãos por ano, agora este novo terminal passa a agregar uma capacidade anual para movimentar 10 milhões de toneladas de soja e milho", pontuou no seu post publicado na rede social.
A ideia é que o terminal receba grãos, além das cidades próximas, também da região do Vale do Araguaia, como do município de Água Boa.
Hoje, a Rumo possui autorização para realizar a expansão da FMT até a cidade de Lucas do Rio Verde, num projeto mais ousado que contaria com outros terminais (um em Lucas e outro em Nova Mutum), além de uma extensão ferroviária até Cuiabá, capital do estado.
Se chegar em Lucas do Rio Verde, a ferrovia conseguirá atrair os grãos da maior região produtora de soja do País, que engloba os municípios de Sinop e Sorriso. A ideia da Rumo é que os caminhões trafeguem, no máximo, 200 quilômetros da fazenda até o local de descarga.
A Rumo ainda não definiu prazos nem Capex para o restante do projeto, que pode atingir 743 quilômetros de ferrovias uma vez finalizado. O projeto todo contempla uma ferrovia que passa por 16 cidades entre Rondonópolis e Lucas do Rio Verde, com um ramal para Cuiabá - tudo interligado ao Porto de Santos.
Resumo
- A Rumo trocou de CEO: Daniel Rockenbach, há 15 anos na companhia, assume interinamente no lugar de Pedro Palma
- A mudança ocorre em meio ao plano da Cosan de reduzir alavancagem, reacendendo rumores de venda da fatia na Rumo.
- Antes de deixar o cargo, Palma inaugurou o terminal de Dom Aquino (MT), investimento de R$ 5 bilhões e capacidade para 10 milhões de toneladas por ano