A desaceleração nas vendas de máquinas agrícolas tem sido vista notadamente na baixa de negócios das principais feiras do País. Na Tecnoshow e na Agrishow, por exemplo, a baixa nos negócios foi de 15% e 22%, respectivamente. Com pouco espaço na terra, o jeito é ir para o ar.
Na Xmobots, maior empresa de drones na América Latina, o momento é de expansão. A empresa de São Carlos (SP) encerrou a Agrishow com mais de R$ 55 milhões em negócios e crescimento de 25% em relação à edição anterior, desempenho que chamou atenção justamente por ter ocorrido em um ambiente de retração mais ampla do mercado de máquinas.
Segundo Rafael Fernandes, diretor de vendas agro da Xmobots, os bons números da feira ilustram um mercado brasileiro de drones agrícolas que vive duas mudanças estruturais.
Primeiro, os drones têm sido vistos não mais só como complementares aos pulverizadores. Em segundo lugar, os equipamentos deixaram de ser uma ferramenta utilizada por prestadores de serviço e passaram a ser incorporados pelos próprios produtores rurais.
"Em 2023, cerca de 80% dos drones estavam nas mãos de prestadores de serviço. Hoje estimamos que entre 65% e 70% dos equipamentos vendidos já pertencem aos produtores", disse ao AgFeed.
"O produtor percebeu que o drone é um robô que opera praticamente sozinho. O operador acaba sendo muito mais um supervisor da operação", continuou.
O movimento acontece em um mercado que ainda possui uma base relativamente pequena de equipamentos em operação, mas que cresce rapidamente. Segundo estimativas apresentadas pela empresa, o Brasil saiu de um universo de cerca de 250 drones agrícolas comercializados em 2021 para um mercado que pode superar 11,5 mil unidades neste ano, trazendo uma alta de 38% em um ano.
Considerando o ticket médio dos equipamentos vendidos no País, a Xmobots estima que o segmento já movimenta mais de R$ 2 bilhões por ano.
Na empresa, fundada há quase 20 anos por um grupo de engenheiros, o foco inicial era desenvolver “sistemas de robótica móvel”. Ao longo do tempo, a companhia expandiu sua atuação para diferentes áreas, incluindo defesa - onde tem o Exército Brasileiro como cliente -, segurança, monitoramento ambiental e, mais recentemente, agricultura.
Hoje, o agronegócio já responde por mais da metade do faturamento da empresa, que não divulga seus números.
Nas áreas de defesa, segurança e monitoramento ambiental, a Xmobots afirma desenvolver internamente praticamente toda a tecnologia utilizada em seus equipamentos, desde hardware e software até a montagem final dos drones.
No agronegócio, o modelo é diferente. A empresa atua em parceria com a chinesa DJI, líder global do mercado de drones e detentora de mais de 85% de participação no segmento agrícola, realizando a distribuição exclusiva dos equipamentos nos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo.
Para além de revender a tecnologia asiática, a Xmobots desenvolveu tecnologias próprias para complementar o uso dos drones em campo.
Uma das principais apostas da companhia é uma plataforma chamada SPAD 200, apresentada durante a Agrishow e apontada pela empresa como um dos principais fatores por trás do desempenho comercial obtido na feira.
A estrutura funciona como uma espécie de unidade móvel de pulverização. Acoplada a uma carreta, ela permite transportar e operar simultaneamente dois drones, além de incorporar gerador, reservatórios de água e produtos químicos, fertilizantes, antenas de comunicação, estação meteorológica e conexão via satélite Starlink.
Segundo Fernandes, a solução permite que apenas duas pessoas operem simultaneamente dois equipamentos. "A ideia é reduzir mão de obra e aumentar produtividade", afirmou o diretor.
Hoje, segundo a empresa, um drone agrícola consegue pulverizar aproximadamente 28 hectares por hora a um custo de R$ 38,50.
Um pulverizador tradicional custa R$ 31,50 e aplica o produto em 55 hectares no mesmo período, enquanto que um avião faz 100 hectares por R$ 27. Na proposta da empresa, os dois drones juntos conseguem aplicar de 70 a 75 hectares com um custo de R$ 20.
A solução completa, incluindo plataforma e drones, demanda um investimento de aproximadamente R$ 600 mil ao produtor, citou Fernandes.
Na visão da companhia, justamente por exigir um investimento inferior ao de grandes equipamentos de pulverização e permitir aplicações mais localizadas, a tecnologia vem encontrando espaço crescente dentro das fazendas. Inicialmente, os drones eram utilizados principalmente em bordaduras, áreas de difícil acesso e aplicações pontuais.
Com o amadurecimento da tecnologia, porém, a utilização passou a se expandir na visão do diretor. Segundo Fernandes, as primeiras culturas a absorverem os drones em escala foram a de pastagens para pecuária e as lavouras de soja e milho.
Agora, novas frentes começam a ganhar tração. "A cana e o algodão estão entrando muito forte e os citros passaram a olhar para o drone com mais atenção", afirmou.
No caso da citricultura, o avanço está relacionado aos desafios impostos pelo greening, doença que exige um número elevado de aplicações e aumenta a demanda por ferramentas capazes de realizar operações mais precisas.
A própria geografia das regiões em que a companhia atua ajuda a explicar a estratégia comercial. Na Xmobots, em São Paulo, pouco mais de um terço dos clientes estão na cana, outro terço na pecuária e o restante se divide primordialmente entre soja e milho.
Em Mato Grosso, predominam pecuária (quase 50%), soja (quase 30%) e milho (pouco mais de 15%), algodão com 3% e o restante em culturas menores. Já em Mato Grosso do Sul, novamente a pecuária lidera com mais de 60%, seguida por soja, milho e cana, com 21%, 10% e 3%, respectivamente.
Hoje, a Xmobots opera exclusivamente por meio de canais de distribuição. São cerca de 78 parceiros espalhados pelos três estados onde a empresa possui exclusividade na distribuição dos equipamentos da DJI, num esquema similar ao das concessionárias de máquinas.
Além da venda dos equipamentos, os parceiros oferecem peças de reposição, treinamento e assistência técnica. Segundo Fernandes, a proximidade com o produtor é fundamental em um equipamento cuja principal função está relacionada a janelas operacionais muitas vezes curtas.
"Quando existe uma janela, o produtor precisa aproveitar. Qualquer problema exige que o fornecedor esteja relativamente próximo da propriedade para prestar suporte rapidamente", afirmou.
A companhia pretende continuar investindo na expansão de suas frentes de defesa, segurança e agronegócio. No campo, a avaliação é de que a adoção dos drones ainda está em uma etapa inicial e que o mercado brasileiro possui espaço significativo para crescer nos próximos anos.
"Acreditamos muito no potencial do agro. É uma das frentes mais relevantes para nós e continuará sendo uma das principais áreas de investimento da companhia", disse Fernandes.
Resumo
- Enquanto feiras de máquinas tiveram queda nas vendas, a Xmobots fechou a Agrishow com R$ 55 milhões em negócios, alta de 25%
- O mercado de drones agrícolas deve superar 11,5 mil unidades em 2026 e movimentar mais de R$ 2 bilhões no Brasil