Anote o nome: Paulo Todescan Lessa Mattos. Se ainda não lhe é familiar, não há dúvidas de que ouvirá cada vez mais falar dele como um dos mais influentes do meio corporativo brasileiro – e também do agronegócio.

Mattos é advogado, formado em Direito pela USP. Vive em Londres, de onde tem protagonizado, nos últimos anos, jogadas ousadas com potencial de mexer com o tabuleiro empresarial no País.

Através de sua gestora, a IG4 capital, no fim do ano passado ele estruturou uma operação para tomar o controle da petroquímica Braskem, ativo mais valioso do portfolio da antiga e problemática Odebrecht, rebatizada como Novonor. A transação foi oficializada em abril.

No início de junho, a mesma IG4 esteve à frente de um negócio de US$ 835 milhões, desta vez do lado vendedor. A gestora se desfez de sua participação no terminal portuário CLI, no Maranhão, aceitando uma proposta da AD Ports, companhia sediada em Abu Dabhi. Um investimento que rendeu, em dólar, quatro vezes o investimento feito para comprá-lo, há apenas cinco anos.

Agora, Mattos e sua IG4 voltam aos holofotes depois que correu pelo mercado a informação de que estariam negociando a compra de boa parte da dívida de R$ 65 bilhões incluída no plano de recuperação extrajudicial da gigante sucroenergética Raízen, protocolado no dia 3 de junho passado.

A IG4 teria iniciado nesta segunda-feira, 15 de junho, o envio de cartas a esses credores com ofertas para que negociem seus direitos, recebendo em troca cotas de um fundo de investimentos e participações (FIP), que se tornaria controlador da Raízen.

Isso seria possível porque o plano de RE da Raízen prevê a conversão de dívida em ações, entregando aos credores cerca de 80% do capital da empresa. Com a sua estratégia, a IG4 pretende reunir mais de 50% desse capital.

Já as dívidas adquiridas seriam concentradas em um fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC), também criado pela IG4.

Para os credores que não se interessem pelo modelo, a gestora oferece a possibilidade de pagamento em dinheiro, com valores negociados individualmente, ou em derivativos que renderiam ganhos no futuro, quando a IG4 decidisse pela venda de sua participação na empresa.

Caso o plano se concretize, Mattos passaria a ocupar o papel que hoje cabe a Rubens Ometto: o de definidor dos destinos da empresa. Através da holding Cosan, Ometto dividia o controle da companhia com a energética anglo-holandesa Shell, mas era ele quem indicava os principais executivos e avalizava as estratégias da Raízen.

Modelo Braskem

A missão de Mattos é complexa, mas ele tem experiência de sobra para tentar executá-la. De certa forma, a operação pensada para a Raízen replica o modelo que lhe garantiu a tomada de controle da Braskem.

Desde que criou a IG4, em 2016, um de seus focos esteve na aquisição dos chamados ativos estressados – dívidas de empresas em crise financeira, mas com potencial de recuperação.

O primeiro investimento da gestora, em 2017, foi justamente em uma delas, a CBA Ambiental, depois renomeada como Iguá Saneamento – a saída ocorreu em maio de 2024, com a empresa recuperada e negociada com grupos canadenses.

No caso da recém-fechada transação da Braskem, a IG4 adquiriu 34,3% do capital, que equivalia a 50,1% do capital votante e 34,3% do capital total, após negociar com credores da Novonor, que também haviam recebido ações em troca de seus créditos em uma dívida total que superava R$ 20 bilhões.

O modus operandi foi o mesmo: reunir os créditos em um FIP que se tornou majoritário na empresa. E, então, assumir o controle, indicando os gestores e formulando a estratégia de negócios.

A principal diferença entre os dois casos está no perfil dos credores. Na petroquímica, a negociação ficou concentrada em cinco grandes bancos - Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e BNDES.

Na Raízen, os créditos estão pulverizados em centenas, se não milhares, de investidores que adquiriram títulos da companhia no Brasil e no exterior, o que demandará um esforço muito maior.

O especialista

A tese de Mattos e seu time para atrair os credores é a de que, concentrados em um único veículo, eles ganhariam peso em negociações e na gestão da empresa.

“A gente se especializou em reestruturação de dívida com a operação no private equity e sabemos fazer isso muito bem”, afirmou Mattos em entrevista à revista Exame em 2022, quando a IG4 afirmava já ter reestruturado mais de US$ 800 milhões em dívidas.

A gestora foi criada no Brasil, mas pensada para se tornar uma marca internacional, com atuação inicialmente voltada para a América Latina. Assim, a IG4 passou a abrir escritórios e contratar times em outros países.

Hoje, segundo o site da empresa, possui uma equipe de investimento e operações composta por mais de 30 profissionais, divididos entre Londres, Jersey, Miami, Madrid e São Paulo.

A IG4 se define como “uma das maiores gestoras de ativos independentes focada em situações especiais em mercados emergentes, tendo expandido suas operações globalmente com investimentos em mercados com distorções”.

Seu foco são investidores institucionais, além de fundos patrimoniais, fundações, fundos de fundos, gestores de patrimônio, multifamily offices e capital próprio de bancos.

Além de ativos estressados, a empresa tem se posicionado também como uma investidora em projetos sustentáveis, com pegada ESG – uma convivência de temas não muito comum no mercado financeiro.

Desde os seus primeiros anos, a gestora ostenta a certificação de Empresa B, que, além de retorno aos acionistas, exige que as companhias entreguem benefícios para a sociedade e para o meio ambiente.

“Ou promovemos uma mudança estrutural no capitalismo ou continuaremos aquecendo o planeta. E já está claro que o custo de remediar vai ser muito mais alto que o de mudar. Mas para isso precisa de tecnologia, inovação e processos”, afirmou Paulo Mattos na mesma entrevista.

Em seu currículo, que combina sólida formação acadêmica com uma trajetória profissional de sucesso, a convivência entre ESG e apetite pelo risco também está presente.

Enquanto cursava seu doutorado da USP, conseguiu uma bolsa na Universidade de Yale, uma das mais prestigiadas dos Estados Unidos, em que já pesquisava formas de transformar o capitalismo, reduzindo o papel do Estado como regulador.

Como pesquisador, além de Yale, ele atuou junto ao King’s College, de Londres. Seus principais interesses, no campo acadêmico, abrangem as áreas de sociologia do direito, sociologia da economia, direito e desenvolvimento econômico, regulação econômica e ESG, regulação dos mercados financeiros e de capitais e política industrial.

Antes de se fixar em Londres, Mattos foi diretor do BNDES, sendo um dos responsáveis pela estruturação do Fundo Amazônia, voltado ao financiamento de projetos sustentáveis na região.

Atuou ainda como diretor-geral e chefe de investimentos em Infraestrutura e Telecomunicações da GP Investimentos.

Assim, ao olhar para a Raízen, ele pode estar vendo uma conversão desses diferentes interesses. Uma das líderes globais na produção de biocombustíveis, a companhia ajuda a materializar o discurso da sustentabilidade, sem perder de vista a oportunidades de ganhos para o capital.

Além disso, permite que ele coloque de vez os pés em uma área que, segundo admitiu ao jornal Valor Econômico em 2024, está cada vez mais no seu radar. “Buscamos bons negócios que em geral tenham algum ativo real na base, como infraestrutura, indústria. Também começamos a olhar a tese de agronegócio, na qual o ativo é a terra”, afirmou.

Resumo

  • Gestora IG4 Capital se movimenta para comprar dívidas da Raízen e assumir o controle da empresa
  • Empresa é comandada por Paulo Mattos e se especializou em ativos estressados com potencial de valorização
  • Plano é repetir na Raízen modelo estruturado para o acordo que resultou na aquisição da Brasken