O Brasil já passou pelo boom da produção e exportação de carne bovina, depois se tornou líder nas vendas do frango e segue crescendo nos suínos e na piscicultura.
Mas quando o País poderá se transformar no maior produtor de pescado do mundo? A presidente da Aquishow 2026, evento destinado ao setor, Marilsa Patrício Fernandes, acredita que isso deve ocorrer “em 10 anos ou até menos”.
Hoje o Brasil está em quarto lugar. Quem lidera o ranking é a China, mas a produção brasileira vem crescendo em média 10% ao ano.
“Há dez anos a gente produzia 280 mil toneladas de tilápia, hoje produzimos quase 800 mil toneladas. Em uma década a gente transformou o Brasil, que ficou entre os maiores produtores de tilápio”, explicou Emerson Esteves, diretor da PeixeSP, entidade que representa o setor no estado de São Paulo e é organizadora da Aquishow, que este ano ocorre em Uberlândia (MG).
Ao percorrer alguns estandes no evento, a reportagem do AgFeed verificou sinais de que os números devem seguir positivos.
Grupos nacionais de produção de peixe e fabricação de ração mencionam projetos para a construção de novas fábricas. E entre as multinacionais, há empresas que já faturam mais com ração para peixe do que com aves.
Para Marilsa Fernandes, um dos atrativos é o retorno sobre o investimento.
"A tilapicultura tem um retorno muito rápido. Em 8 meses você já está recebendo o que você pôs na água, porque a tilápia tem um ciclo muito rápido, dependendo do tamanho do peixe, da conversão que você consegue fazer de seis a 8 meses”, pontuou.
A previsão da entidade é de que a receita e o volume produzido na piscicultura brasileira mais uma vez cresçam 10% em 2026, em relação ao ano passado.
Segundo Emerson Esteves, a cadeia como um todo, considerando o cultivo do peixe, a ração, os medicamentos, entre outros itens, já movimenta R$ 11 bilhões por ano.
A atividade tem atraído cada vez mais cooperativas, uma saída que foi encontrada por pequenos produtores para seguir competitivos.
Em paralelo, há um movimento natural de consolidação do setor, com grupos maiores e até investimentos de fundos, inclusive estrangeiros, segundo Esteves.
A Tilabras Aquicultura, por exemplo, tem participação dos investidores estrangeiros. Em 2022, o fundo Ocean 14 Capital investiu 10 milhões de euros na empresa. A Fisher Piscicultura tem participação do fundo holandês Aqua Spark.
O diretor da PeixeSP vê também uma tendência de players importantes da avicultura expandirem para a produção de pescados. É o caso de Copacol, Lar, Coopavel e até a Avivar Alimentos, que passou a comercializar tilápia.
Junto com o setor, a Aquishow vem crescendo, segundo os organizadores. Este ano são mais de 100 expositores e a previsão é receber 7 mil visitantes.
Os desafios da tilápia
A produção de tilápia representa 70% da produção oriunda do cultivo de peixes no Brasil. Mas embora os números sejam positivos, há um clima de apreensão entre as empresas do setor.
No ano passado, foi fechado um acordo durante a visita do presidente Lula ao Vietnã: o Brasil passaria a exportar carne bovina para o país asiático e os brasileiros comprariam o peixe produzido lá.
Os empresários reclamam do acordo, que seria injusto, já que “o Vietnã não produz carne bovina, mas o Brasil é um produtor importante de tilápia)".
“O impacto é muito grande. Se você pegar o mês de abril, o Brasil importou 2 mil toneladas de filé do Vietnã. Isso corresponde a 6 mil toneladas de peixe inteiro”, afirmou o diretor da PeixeSP.
No acumulado de janeiro a maio, segundo ele, as importações já ultrapassam 5 mil toneladas de filé de tilápia, o equivalente a toda a produção de um polo importante no Brasil, que é a região de Santa Fé do Sul, “onde se gera mais de 3 mil empregos diretos”.
Na abertura da Aquishow 2026, na terça-feira, 9 de junho, Emerson Esteves fez um apelo ao ministro da Pesca e Aquicultura, Édipo Araujo, que estava no evento.
“Passei a ele o sentimento do nosso setor, é preciso que o ministro ligue para o presidente Lula e explique que este é um problema de Estado”.
Enquanto não há uma definição junto ao governo federal, o setor tem buscado negociações com os estados, para desonerar a tilápia e buscar maior competividade. Hoje o produto do Vietnã chega “6 reais mais barato” (por kilo) que o brasileiro.
“Santa Catarina foi o primeiro a aumentar a alíquota do ICMS (para o peixe importado), depois veio Paraná, Minas Gerais, e semana passada, São Paulo e Pernambuco. Em São Paulo, o governador elevou em 7% para todos os pescados, diferente dos outros estados, que só foi tilápia”, explicou.
O setor da tilápia também monitora as discussões que ocorrem no Conabio, Conselho Nacional de Biodiversidade, que ameaça enquadrar a tilápia como espécie invasora no Brasil.
“Se isso ocorrer, vamos perder certificações e não vamos conseguir exportador para o mercado americano”, alertou Esteves.
Hoje o Brasil exporta 4% da produção de tilápia, tendo EUA como principal cliente. No ano passado, o setor levou outro susto com a aplicação das tarifas de Donald Trump.
Houve um recuo dos embarques no primeiro mês da taxação, mas depois a situação foi normalizada.
“A tarifa não atrapalhou muito. Teve um balde de água gelada no primeiro mês, mas o americano vai continuar comendo filé de tilápia. Não tem outro país, aqui no continente americano, que consiga atender o mercado com filé fresco de qualidade. Colômbia não tem, México não tem, Costa Rica não tem. Então, o Brasil continuou vendendo”, disse.
Em busca de mais competitividade
O setor avalia que, além de seguir monitorando as importações, é necessário manter uma busca constante por competitividade.
Roberto Imai, diretor da Divisão da Cadeia Produtiva da Pesca e Aquicultura da FIESP, em conversa com o AgFeed, durante o evento, lembrou que a balança comercial do peixe ainda é deficitária em cerca de US$ 1 bilhão.
Segundo ele, há cerca de 30 anos, o consumo de peixe no Brasil era de aproximadamente 6 kg por habitante ao ano. Atualmente, subiu para cerca de 10 kg ao ano.
“Embora o aumento individual pareça pequeno, ele é significativo quando multiplicado pela população brasileira de 200 milhões de habitantes. Mas grande parte do aumento no consumo nacional não veio da produção interna (pesca ou aquicultura), mas sim de peixes importados”, afirmou.
Ele destaca que o Brasil possui “vantagens naturais incomparáveis”, para se tornar o principal player global no setor, mas enfrenta obstáculos estruturais que precisam ser superados. Entre os problemas estaria o “custo Brasil”, com elevada taxa de juros, questões trabalhistas, “burocracia ambiental e carga tributária”.
Imai também defende mais investimentos em tecnificação e mecanização, para competir com mercados como o Vietnã, que hoje produz com custos mais baixos.