As restrições europeias não expõem apenas uma disputa comercial. Expõem algo mais grave: o Brasil ainda quer competir em mercados sofisticados sem provar, com profundidade, a origem, a conformidade e os riscos escondidos na própria cadeia de suprimentos.

Existe uma resistência do mercado brasileiro em relação às restrições europeias à carne nacional. Sempre que surge uma exigência mais dura, a reação automática é a mesma: culpar a Europa, falar em protecionismo, denunciar hipocrisia regulatória, reclamar da assimetria e transformar a discussão inteira em um teatro previsível de vitimização comercial.

É um reflexo compreensível, mas perigoso. Porque, mesmo quando existe interesse geopolítico, um viés ou disputa de mercado embutida, isso não anula a pergunta central que o Brasil evita encarar: e se o problema não for apenas a barreira europeia, mas a opacidade brasileira?

Essa é a pergunta que realmente importa. A Europa não está apenas colocando pressão sobre a carne brasileira. Está expondo uma fragilidade estrutural de grande parte das cadeias produtivas do País. Nós ainda confundimos produção eficiente com cadeia confiável.

Durante muito tempo, bastava produzir em escala e com custo competitivo para garantir o mercado. Hoje, o mundo mudou. Mercados sofisticados não compram apenas o produto; compram rastreabilidade, governança e previsibilidade. O que está em julgamento não é mais o que foi exportado, mas o sistema que existe por trás dele.

Esse é o ponto que o caso da carne escancara. O produto deixou de ser analisado isoladamente. O que está em julgamento agora é o sistema que existe por trás dele. A discussão já não gira apenas em torno do que foi exportado, mas de quem produziu, de onde veio, em quais condições, com qual monitoramento e com qual capacidade de auditoria.

Isso muda tudo. A União Europeia é hoje o segundo maior mercado para carnes brasileiras em valor, atrás apenas da China. Em 2025, comprou cerca de 368,1 mil toneladas, em negócios que somaram US$ 1,8 bilhão. Só em carne bovina, foram mais de US$1 bilhão.

O tempo da confiança presumida acabou. O mercado quer provas, e isso significa demonstrar controle sobre a cadeia inteira — inclusive onde as empresas preferem não olhar.

O risco mais sério raramente está no fornecedor direto. Ele vive nos elos pulverizados, nos fornecedores indiretos e intermediários invisíveis onde a governança corporativa vira ficção e a operação funciona na base da esperança.

Uma empresa que não enxerga seus indiretos não administra risco — ela apenas terceiriza a própria vulnerabilidade. Cadeia desorganizada não é só um problema moral ou de compliance; é um problema financeiro.

Estudos globais mostram que disrupções severas na cadeia podem custar quase 45% do lucro anual de uma companhia. Rastreabilidade não é um “luxo ESG”, é sobrevivência econômica.

E a parte mais desconfortável é que isso não para na pauta ambiental. A cadeia opaca também concentra risco trabalhista, fragilidade documental e exposição reputacional internacional. A agricultura continua sendo o principal setor de incidência de trabalho infantil no mundo.

Isso não autoriza acusações simplistas contra uma cadeia específica. Mas impõe uma consequência inevitável: em mercados sofisticados, quem não consegue demonstrar controle suficiente passa a carregar suspeita estrutural maior.

E suspeita, hoje, custa dinheiro. O mercado internacional não está esperando confessionários corporativos. Está exigindo mecanismos de prova.

A nova regulação europeia associada a produtos ligados ao desmatamento é apenas uma manifestação mais explícita desse movimento. Antes de acessar o mercado, será cada vez mais necessário apresentar diligência, documentação, declaração formal e rastreabilidade minimamente robusta.

O jogo deixou de ser discursivo para ser probatório. As novas regulações europeias contra o desmatamento são apenas a manifestação mais explícita desse movimento. Não interessa mais se a empresa “fala bem” sobre clima ou ética. Interessa se ela consegue demonstrar onde está exposta e como evita que o risco se transforme em perda operacional.

No Brasil, isso é ainda mais grave porque nossas cadeias dependem fortemente de território, clima, logística longa, origem pulverizada e alta sensibilidade regulatória. Ou seja: se não houver inteligência real sobre a cadeia, a empresa não controla risco — ela apenas convive com ele até ser punida por ele.

O Brasil ainda insiste em vender para o século XXI com mecanismos mentais do século XX. Ainda acha que escala resolve, que preço compensa e que compliance é apenas um documento. Cadeia de suprimentos virou estratégia e acesso ao mercado.

A próxima grande vantagem competitiva global não será produzir mais, será provar melhor. Quem não conseguir demonstrar controle sobre sua origem continuará chamando de “barreira internacional” o que, na verdade, já é incompetência estratégica disfarçada de indignação. No novo comércio global, não perde mercado quem produz menos. Perde mercado quem enxerga menos do que deveria.

Porque, no fim, a questão não é se o Brasil sabe produzir. Sabe. A questão é se sabe provar. Provar origem, conformidade, controle. Provar que a cadeia não é um discurso elegante sustentado por zonas de sombra.

E a verdade mais incômoda talvez seja esta: o risco que vai tirar empresas brasileiras dos mercados mais sofisticados não será, necessariamente, o desmatamento, o clima, a Europa ou a regulação. Será a cegueira.

André Veneziani é VP Comercial da C-more para Brasil e América Latina.