Depois de surgir no mercado prometendo cartões de crédito com prazo safra e operações estruturadas para produtores rurais, a agtech mineira E-ctare resolveu mudar o rumo do próprio negócio.
Se, antes, o foco estava em facilitar o acesso a crédito no agronegócio, a empresa agora vem se posicionando em qualificar a infraestrutura tecnológica para cooperativas, agroindústrias, revendas e outros elos da cadeia agropecuária, usando dados capturados de diferentes sistemas para ajudar empresas a tomar decisões operacionais e comerciais em tempo real.
A mudança de direção aconteceu após a empresa perceber que o mercado de crédito rural ficou mais complexo, caro e arriscado nos últimos anos, especialmente depois da alta dos juros e do aumento da inadimplência em parte do setor.
“A gente percebeu que, hoje, as pessoas estão muito mais interessadas em informação para tomar decisão do que necessariamente em crédito”, afirma Fernando Alvarenga, sócio da E-ctare, em entrevista ao AgFeed.
Ligado a uma família tradicional do agronegócio mineiro, dona da marca de laticínios Aviação, proprietária da famosa manteiga de mesmo nome, e também do Armazéns Gerais Peneira Alta, um dos maiores armazenadores de café do País, Alvarenga diz que a própria vivência no agro ajudou a moldar o novo posicionamento da empresa.
“A gente tem o pé na roça. Isso ajuda muito a entender rapidamente as dores das cooperativas, agroindústrias e produtores”, disse.
Criada em 2015, a empresa nasceu ofertando uma plataforma de cotação de preços de café em tempo real, que foi se desdobrando em outras funcionalidades, como serviços de corretagem digital, até trazer ao mercado soluções de financiamento.
Segundo Alvarenga, a iniciativa surgiu num momento em que o setor ainda tinha baixa digitalização, especialmente entre os produtores de café.
“Só que a gente estava no momento errado do agro. Talvez a tecnologia ainda não estivesse tão presente no dia a dia do cafeicultor naquela época”, afirmou.
Aproveitando o momento em que as CPRs (Cédula do Produto Rural) estavam sendo digitalizadas, a partir de 2020, a startup começou a fazer antecipação de recebíveis para pequenos e médios produtores de culturas como café, leite e pecuária de corte dentro de sua plataforma.
Com o antigo Banco Alfa, comprado pelo Banco Safra em 2023, a E-ctare emitiu dois CRAs no mercado - um de R$ 50 milhões, em 2022, e outro de R$ 54,5 milhões, em 2023 (já pela Alfa Corretora) – e fazia as originações de títulos de crédito para um FIDC criado pelo banco.
Ao longo do processo, porém, a agtech percebeu que o ativo mais valioso que havia construído não era necessariamente o crédito, mas sim a rede de dados e conexões criada ao integrar produtores, cooperativas, agroindústrias e sistemas de gestão usados pelo setor. “A gente acabou criando uma grande infraestrutura para o agronegócio”, afirmou Alvarenga.
Foi então que a empresa decidiu pivotar sua operação, que envolveu inclusive mudanças em sua estrutura societária. No começo de 2025, Alvarenga recomprou as participações de antigos sócios e assumiu posição majoritária na empresa.
A partir dali, a E-ctare passou a focar na construção de soluções de infraestrutura tecnológica voltadas à gestão operacional e inteligência de dados para o agro.
Hoje, a empresa atua plugando sua camada tecnológica sobre ERPs já utilizados pelo mercado, capturando dados dessas plataformas e transformando as informações em ferramentas para tomada de decisão.
“A gente faz meio que um backstage dos grandes ERPs. Pegamos as informações e transformamos isso em inteligência para o tomador de decisão”, resumiu.
Na prática, a E-ctare afirma atuar em áreas como CRM, rastreabilidade, gestão logística, controle de estoques, aplicativos para produtores e ferramentas comerciais usadas por equipes de campo.
Segundo Alvarenga, um dos diferenciais está justamente na capacidade de customização rápida das ferramentas, algo que grandes sistemas normalmente têm dificuldade em fazer.
“As cooperativas possuem grandes ERPs, mas muitas vezes têm dificuldade de adaptar aquilo para necessidades específicas. Além de caro, demora muito tempo”, afirmou.
Entre os clientes citados pela companhia estão cooperativas como a paulista Coopercitrus e a paranaense Cocamar, além de empresas como Planalto Tratores e laticínios ligados ao grupo familiar.
Segundo ele, a tecnologia permite, por exemplo, que vendedores e equipes de campo tenham acesso off-line a informações comerciais, estoques, operações de barter e tabelas de paridade em tempo real dentro da propriedade rural.
“No barter, por exemplo, conseguimos gerar tabelas de paridade para tomada de decisão imediata, sem precisar depender de aprovações de várias alçadas superiores. Isso evita perda de negócios”, diz Alvarenga.
A empresa também aposta no avanço de ferramentas de rastreabilidade, tema que ganhou força nos últimos anos diante das exigências ambientais e comerciais impostas principalmente pelo mercado europeu com o avanço da lei anti desmatamento.
Um dos projetos considerados mais estratégicos atualmente pela empresa é o Auto Origem, plataforma desenvolvida inicialmente dentro do Armazéns Gerais Peneira Alta e posteriormente incorporada pela E-ctare.
Segundo Alvarenga, a ferramenta busca rastrear toda a cadeia produtiva agrícola, desde o plantio até armazenagem e comercialização, reunindo dados sobre localização, imagens de satélite, uso de insumos e informações operacionais da propriedade.
“É a rastreabilidade desde o plantio, passando pelo processo de coleta até chegar aos armazéns, para a gente atender todas as necessidades do mercado externo com as leis e com as regras baseadas na nossa legislação”, afirma Alvarenga.
A ideia da companhia é oferecer essa infraestrutura de rastreabilidade não diretamente ao produtor, mas aos próprios clientes da E-ctare – cooperativas, agroindústrias e tradings – que passam então a usar a solução junto às suas bases de fornecedores.
Apesar da mudança de estratégia, a E-ctare afirma não abandonar totalmente o relacionamento com bancos e operações financeiras estruturadas. O cartão de crédito prazo safra continua existindo, por exemplo, ainda que esteja em segundo plano na nova estratégia.
Além disso, boa parte da infraestrutura criada anteriormente ainda continua sendo usada em projetos ligados a crédito e funding, mas agora funcionando como suporte para terceiros.
A leitura do sócio da E-ctare é de que o agro entrou num momento em que eficiência operacional e qualidade da informação passaram a valer mais do que simplesmente ampliar acesso ao capital.
“Hoje tecnologia e informação valem mais do que o dinheiro em si. O dinheiro quem tem que colocar é o banco”, afirma Alvarenga.
“Quando começamos com o CRA, a taxa de juros no Brasil era uma, e quando acabamos com o CRA, a taxa de juros no Brasil era outra. Mudou completamente a dinâmica de crédito e a gente disse: ‘Isso não é para nós. Tem gente com dinheiro mais barato e com apetite maior para o risco’”, emenda.
A E-ctare agora busca consolidar esse novo posicionamento antes de discutir movimentos maiores de expansão ou novas parcerias estratégicas.
“Nós já passamos da fase de startup. Agora queremos consolidar o modelo e mostrar para o mercado a importância dessa infraestrutura que conecta o campo ao mercado comprador”, afirmou Alvarenga.
Resumo
- Agtech E-ctare muda estratégia e passa a focar em infraestrutura tecnológica e inteligência de dados para o agro
- Empresa atende cooperativas e agroindústrias com soluções de rastreabilidade, CRM, logística e gestão operacional
- Alta dos juros e aumento da inadimplência aceleraram a migração do crédito rural para tecnologia e informação