Ao final de 2025, com a COP de Belém em evidência, os dados da Athenagro sobre o efeito poupa-terra passaram a ser amplamente utilizados em relatórios, estudos e palestras. Diversos profissionais e equipes recorreram a essas informações com apoio da consultoria. Em alguns casos, porém, a origem dos dados não foi corretamente atribuída ou foi citada de forma inadequada.
O acompanhamento desse efeito poupa-terra tem sido aprimorado há mais de 10 anos através da combinação de diversas bases disponíveis em relação às áreas de pastagens.
Em razão do alto volume de informações incompletas, divulgadas em larga escala, a Athenagro passou a atualizar um relatório anual detalhando alterações em dados passados e incoerência entre os levantamentos sobre a evolução da área no país.
Há análises de efeito poupa-terra, baseadas em dados incompletos, que acabaram por subestimar a curva de evolução da produtividade na pecuária, passando a incorporar o enorme repertório de estudos que negligenciam esse movimento.
Tal negligência implicou em prejuízos ou desperdício de oportunidades para indústrias, empresas de insumos e serviços, revendas e pecuaristas.
Para evitar que tais erros ocorram, além de buscar todas as informações sobre áreas, é precisa cruzá-las com evolução do rebanho e dimensionamento do mercado de insumos e técnicas incorporadas nos sistemas de produção. Por essa razão, reforçamos a importância do respeito à fonte. Não é simples chegar a essa análise.
O conceito foi introduzido na pecuária pelo engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa, Geraldo Bueno Martha Junior, através de artigos, boletins técnicos e estudos publicados entre 2009 e 2012, juntamente com outros pesquisadores, também da Embrapa.
A elaboração das pesquisas, no entanto, usa os censos como referência, tornando a análise limitada aos períodos em que são divulgados. Por essa razão, a Athenagro decidiu atualizar os dados a partir das informações compiladas de diversas fontes disponíveis.
Embora estudos científicos dependam da publicação de dados mais completos – como é o caso do Censo Agropecuário - a atualização periódica é necessária do ponto de vista mercadológico.
Do último censo até 2025, por exemplo, a produtividade na pecuária de corte aumentou 33%, saindo da faixa dos 58,3 kg de carcaça por hectare/ano, em 2017, para os atuais 77,3 kg de carcaça/ha/ano.
Essa curva de aceleração precisa ser compreendida no momento em que ocorre para orientar decisões estratégias do setor público e privado. Com o tempo, a academia produz os estudos conduzidos pelo rigor do método científico e “lapida” as análises.
O cálculo é feito estimando a área que seria necessária para obter a produção atual de carne bovina a partir da produtividade de determinado período.
Em 2025 foram produzidas 12,35 milhões de toneladas de carcaça, com a pecuária ocupando uma área total de 159,75 milhões de hectares – incluindo toda a área em integração com lavouras e florestas.
Para obter a mesma produção de 2025, com o desempenho tecnológico de 1990, a pecuária teria que ocupar 583 milhões de hectares. Sendo assim, o efeito poupa-terra no período é de 423 milhões de hectares. Veja o gráfico a seguir.

Se o mesmo cálculo for realizado a partir de 1970, o efeito poupa-terra supera a área total do país, mostrando o ganho social e ambiental por trás da intensificação da produção pecuária.
Sempre que essa análise é divulgada, as informações acabam sendo recebidas com muita crítica por parte dos ambientalistas que insistem em negar ou omitir esse efeito. Dentre os argumentos contrários ao conceito destacam-se três linhas de raciocínio:
1. O desmatamento continua ocorrendo
Críticos apontam que, embora a pecuária tenha se tornado mais eficiente no plano geral, novas áreas de floresta continuam sendo desmatadas ilegalmente. Para os ambientalistas, o efeito não anula o impacto real da perda contínua de vegetação nativa nesses biomas sensíveis.
Os mesmos críticos, no entanto, omitem que o efeito poupa-terra nunca foi defendido ou apresentado com tal propósito. O raciocínio é teórico e não se trata de combate ao desmatamento, mas sim de comprovar, com dados, que a pecuária tem crescido alicerçada em produtividade e não em expansão, como defendido pelo extremismo ambiental.
Nesse debate, o efeito poupa-terra é usado, inclusive, para defender que o combate ao desmatamento ilegal dificilmente será eficaz enquanto o foco continuar voltado justamente às empresas que atuam dentro da legalidade. As propostas, baseadas na pressão sobre a pecuária moderna e legalizada, apenas aumentarão os problemas sociais no campo, o que elevará, consequentemente, o impacto ambiental causado por esses produtores que lutam pela sobrevivência.
2. Paradoxo de Jevons
Conceito adaptado por pesquisadores defende que o aumento da eficiência no uso de um recurso não reduz o seu consumo. Ao contrário: ao tornar o processo mais barato e lucrativo, a eficiência estimularia a demanda e aceleraria o esgotamento desse recurso — neste caso, a terra. De acordo com essa tese, a rentabilidade da alta tecnologia na pecuária levaria à expansão horizontal das operações através de compra e desmatamento de novas áreas.
O raciocínio, no entanto, omite duas questões essenciais. A primeira é que essa realidade vale para qualquer atividade e não apenas para a produção. O controle do avanço deve ocorrer pela manutenção da lei e não pelo sangramento da atratividade econômica da atividade. Da mesma forma que nem todo cidadão pode abrir um consultório médico, por mais lucrativo que seja, é o Estado que deve conter o avanço de qualquer atividade sobre áreas que devem ser protegidas por lei.
E a segunda omissão é a própria análise dos dados históricos. Em 35 anos, a produção pecuária aumentou 166%, enquanto a área de pastagens recuou 15%, desmontando a lógica do Paradoxo de Jevons. Mesmo que ainda ocorra desmatamento, a soma da área repassada a outras atividades com a perda de pastagens por degradação – cujas áreas iniciam o processo involuntário de regeneração – supera o total desmatado.
E mesmo com todos esses ganhos nas últimas décadas, a produtividade média da pecuária ainda está longe da que é obtida pelos produtores competitivos financeiramente. A própria área de pecuária de baixa tecnologia representa uma fronteira de avanço para a pecuária moderna.
O que seria mais inteligente? Punir ou estimular a intensificação da pecuária?
Ou, questionando de outra forma, quais seriam as alternativas para o desenvolvimento da sociedade se as decisões forem orientadas para lógica em torno do Paradoxo de Jevons?
3. Ciclo de degradação promove expansão e desmatamento ilegal
Lembrando que o ganho de produtividade não ocorre de forma uniforme, os críticos defendem que todo o avanço ilegal é orquestrado como política de produção do setor, tese segundo a qual haveria uma cumplicidade entre produtores e o desmatamento ilegal.
Essa tese omite questões financeiras básicas em relação à rentabilidade do capital imobilizado a partir da produtividade dos ativos, sendo que o principal ativo é a própria terra. Omite também a realidade dos inúmeros pequenos produtores de bezerros.
É essencial entender que o alojamento de gado em áreas recém-desmatadas, ilegalmente, tem por objetivo consolidar a área que foi ocupada. Essa operação independe do mercado de carne. E os principais impactados, nesse caso, são os empresários obrigados a competir com um produto originado ilegalmente, enquanto são pressionados a fiscalizar uma operação que deveria ser controlada pelo próprio Estado.
O desmatamento ilegal conduzido por interesse imobiliário aumenta o custo e reduz a receita da pecuária legalizada em toda a cadeira produtiva, dos insumos ao varejo. O desmatamento ilegal conduzido pela soma de inúmeros pequenos produtores, espalhados em todas as regiões do Brasil, é um problema social que também aumenta o risco da pecuária, justamente pela dificuldade em segregar a origem do animal.
Em ambos os casos, a solução para o problema não está em aumentar a pressão na operação pecuária. A solução depende de políticas públicas que enfrentem o problema de acordo com diagnósticos mais completos, compreendendo a dinâmica das cadeias produtivas e usando inteligência territorial.
E nem é preciso mencionar a importância da regularização fundiária nesse enfrentamento, assunto que demandaria somar mais algumas páginas a esse texto.
Entender e analisar o conceito do efeito poupa-terra tem, por objetivo, melhorar a compreensão dessa dinâmica. Negar, criticar e até ironizar o raciocínio em torno do conceito não mudará a realidade: a pecuária está avançando alicerçada em aumento de produtividade e não através de cumplicidade com a ilegalidade.
Responsabilizar o setor pela ausência do Estado apenas irá atrasar o combate ao desmatamento ilegal. A quem interessa esse atraso?
Maurício Palma Nogueira é engenheiro agrônomo, diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária.