Trimestre após trimestre, a Serasa Experian divulga os números que ajudam a medir o avanço da crise financeira no campo. Os dados mais recentes sobre recuperações judiciais no agronegócio, referentes ao fechamento de 2025, mostraram um recorde, com quase 2 mil pedidos no agro ao longo do ano passado.
Para além disso, o cenário criado com a guerra no Oriente Médio, que pressiona preços do petróleo, diesel, fertilizantes e defensivos, piora os custos no campo e pode atrasar ainda mais o início de uma queda na inadimplência rural.
Ao mesmo tempo em que acompanha a deterioração financeira de parte do setor, porém, a companhia olha para a "base" e tenta atuar na outra ponta da cadeia: a prevenção.
A empresa acaba de concluir a primeira edição do Impulsiona Agro, projeto piloto criado em parceria com o Sebrae de Santa Catarina para profissionalizar a gestão de pequenos produtores rurais e reduzir vulnerabilidades financeiras ainda na base do agro.
Depois de oito meses de consultorias e capacitações, o programa terminou com um dado que a companhia considera simbólico. Os produtores participantes registraram evolução superior a 200% nos indicadores ligados à gestão financeira e do negócio.
A iniciativa envolveu 36 produtores rurais da região de Chapecó, em um projeto que consumiu mais de R$ 300 mil em investimentos e cerca de 1,3 mil horas de consultorias, workshops e acompanhamento técnico. O Serasa já soma mais de R$ 1 milhão investido em iniciativas junto ao Sebrae em âmbito nacional.
O foco foi atacar justamente gargalos considerados básicos - ainda comuns entre pequenos produtores familiares - como organização de fluxo de caixa, separação entre o que "é PJ do que é PF", avaliação de rentabilidade por atividade, regularização documental e planejamento comercial.
“Quando levamos um projeto para profissionalizar gestão e práticas ESG no campo, estamos entrando com uma ferramenta vital para ajudar os produtores a se organizarem, entenderem as finanças e o dia a dia do negócio”, afirmou Paulo Gustavo Gomes, head de sustentabilidade da Serasa Experian, ao AgFeed.
Segundo ele, a lógica do programa nasceu da tentativa de conectar impacto social ao próprio core business da companhia, cuja operação está diretamente ligada à análise de crédito e risco financeiro.
“O agro cresceu muito dentro da companhia nos últimos anos, e fazia sentido levar essa agenda de transformação social para o campo. Quando ajudamos um produtor a se desenvolver, aumentar faturamento e organizar a gestão, isso também gera renda nas comunidades e reduz vulnerabilidades financeiras”, disse.
Na prática, o programa funcionou como uma espécie de imersão empresarial para produtores rurais familiares. Cada participante passou inicialmente por um diagnóstico individualizado feito em conjunto com especialistas do Sebrae, que identificaram as principais fragilidades da operação.
A partir daí, as consultorias passaram a trabalhar pilares específicos de cada propriedade. Em muitos casos, segundo a empresa, os desafios eram extremamente básicos. Havia produtores sem fluxo de caixa estruturado, sem cálculo de rentabilidade por cultura ou atividade e sem qualquer separação formal entre pessoa física e jurídica.
“Os agricultores familiares costumam ser extremamente eficientes dentro da porteira. O problema muitas vezes está na gestão”, acrescentou Jeysa Meneses, gerente de soluções agro da Serasa Experian. “Em vários casos, o produtor não sabia exatamente quanto precisava vender para não operar no vermelho".
Além da gestão financeira, o programa também buscou estruturar práticas ligadas a ESG, marketing e vendas. Segundo os dados divulgados pela companhia, houve avanço de 64% nos indicadores ligados à sustentabilidade e de 45% em marketing e comercialização.
As mudanças envolveram desde regularização ambiental e adoção de equipamentos de proteção individual (EPI) até organização de canais de venda e desenvolvimento de marcas próprias.
Os exemplos variam bastante. Gomes relata, por exemplo, um produtor de morangos que passou a estruturar melhor as vendas diretas ao consumidor. Já uma família produtora de uva começou a expandir a atuação para derivados como vinhos e sucos, indo além da venda do fruto. Em outro caso, pequenos produtores de suínos passaram a agregar valor com itens processados, como salames e copa.
Além dos produtores, o projeto abarcou alguns cooperados da Cooperativa Central Sabor Colonial, uma rede de 26 pequenas cooperativas e 131 agroindústrias parceiras, com 4 mil agricultores familiares parceiros.
“O programa contribuiu muito para o canal de comercialização que começamos a construir no fim de 2025. Até então, não tínhamos experiência com venda direta ao consumidor. O programa ajudou a estruturar processos importantes dentro da nossa loja”, afirmou Réges Chimello, consultor da cooperativa que participou do projeto.
A escolha do Oeste catarinense para o piloto não foi aleatória. Segundo a Serasa e o Sebrae, a região reúne forte presença de agricultura familiar, além de uma característica considerada estratégica para o projeto: a forte sobreposição entre finanças pessoais e operação produtiva.
Gustavo Gomes cita que 77% dos estabelecimentos agropecuários de Santa Catarina pertencem à agricultura familiar, responsável por cerca de metade do faturamento agropecuário estadual.
Outro fator relevante foi a própria estrutura regional do Sebrae, que possui no Oeste catarinense um núcleo especializado em ESG voltado ao agro.
Para o Serasa, existe uma relação direta entre organização financeira, capacidade de gestão e redução de risco de insolvência.
“Quando o produtor entende os números do próprio negócio e consegue se antecipar aos riscos, o nível de endividamento tende a cair drasticamente. O projeto entra justamente como uma ferramenta para ajudar o produtor a se antecipar”, afirmou Jeysa Meneses.
Internamente, a leitura da Serasa é que o Impulsiona Agro pode se tornar um modelo replicável para outros perfis de produtores e regiões do País.
A companhia já confirmou uma segunda edição do programa, embora ainda esteja desenhando formato, localidade e público-alvo.
A tendência, segundo Gomes e Meneses, é manter a lógica de grupos menores e acompanhamento próximo, mas avançar também para produtores médios, um perfil que, na visão da companhia, pode gerar impacto econômico ainda maior nas regiões onde atua.
“Agora estamos avaliando como o projeto se comporta com produtores que já têm uma estrutura maior, mais funcionários e maior capacidade de movimentar a economia local”, afirmou Gomes.
A expansão ainda está em fase embrionária, mas a avaliação interna é que o piloto entregou exatamente o que a empresa buscava: uma iniciativa de impacto social conectada diretamente à lógica financeira do agro.
Resumo
- Programa da Serasa feito com 30 agricultores familiares em SC elevou em mais de 200% os indicadores de gestão dos produtores
- Companhia já prepara nova edição e avalia expandir iniciativa para produtores médios