Depois de ter emitido seus primeiros créditos de carbono num projeto-piloto em uma fazenda do Mato Grosso do Sul no ano passado, a climatech NaturAll Carbon dá um passo além e acaba de fechar uma parceria com um dos nomes mais conhecidos do agronegócio brasileiro: a Fazenda Nova Piratininga, uma das maiores do Brasil, localizada entre os estados de Goiás e Tocantins e pertencente ao empresário goiano Marcelo Limírio Gonçalves, ex-controlador da farmacêutica Neo Química.
O projeto, do tipo ALM (Agricultural Land Management), que designa modelos que trabalham com agricultura regenerativa, será implementado em uma área de 12,3 mil hectares localizada entre Goiás e Tocantins, justamente a parcela agrícola da fazenda, que passou por conversão recente de pastagens. Ali atualmente estão sendo plantados soja, milho, sorgo e capim ao longo de três safras.
A expectativa das empresas é de que, com a conversão de pastagens e a adoção de técnicas de agricultura regenerativa como plantio direto, rotação de culturas, cobertura vegetal e integração lavoura-pecuária (ILP), o sequestro de carbono no solo cresça, contribua com a produtividade da operação e também tenha potencial para gerar até 30 mil créditos de carbono.
"A gente analisou áreas com potencial e qualidade de solo boa, áreas que tinha o potencial de produção de até duas safras, seja de soja e milho, soja e sorgo ou soja e capim, porque nós precisamos do pasto para a pecuária, que é o nosso maior negócio", afirma João Paulo Castro, diretor administrativo-financeiro da Nova Piratininga, em entrevista ao AgFeed.
A fazenda vem adotando sistemas integrados de produção agropecuária como ILP (integração lavoura-pecuária) desde 2020 e, segundo Castro, tem avançado na intensificação do modelo.
“Temos evoluído nos últimos anos no manejo desse sistema, buscando ser o máximo possível intensivo para que se corte o capim na altura correta, trazendo o melhor ganho para o animal e também garante a palhada para a próxima safra", diz.
Na parceria com a NaturAll Carbon, a Nova Piratininga aporta suas áreas produtivas e conduz, no campo, a adoção das práticas regenerativas, enquanto a climatech responde por toda a estrutura técnica do projeto de carbono, desde a coleta e análise de amostras de solo, passando pela modelagem e auditoria, até a certificação e emissão dos créditos pela Verra, principal certificadora global do mercado.
A receita gerada com a comercialização dos créditos é compartilhada entre as partes, com uma parcela destinada ao produtor rural e outra à desenvolvedora do projeto.
Trata-se de um processo altamente técnico e intensivo em conhecimento, que a climatech vem consolidando desde sua criação, em 2022 – e que chamou a atenção da Nova Piratininga nos últimos meses.
“A gente olhava mais para o lado do excedente de reserva legal e não para a área produtiva. Mas o carbono sempre foi um negócio que prestávamos atenção. Agora, quando saiu o primeiro crédito de carbono na Europa e o piloto da NaturAll, nos aproximamos”, afirma Castro.
A área incluída no projeto corresponde apenas à parte agrícola da fazenda. No total, a propriedade soma cerca de 202 mil hectares, sendo 82 mil de áreas de reserva legal e preservação permanente e aproximadamente 120 mil hectares produtivos, a maior parte voltada à pecuária.
Até aqui, o projeto ainda está em fase inicial. A NaturAll Carbon já realizou a coleta de amostras de solo na área da Nova Piratininga e agora avança para as próximas etapas.
"Depois a gente vai ter que fazer toda a parte de quantificação, porque a gente usa uma metodologia, uma modelagem que chamamos de biogeoquímica, uma modelagem exclusiva nossa para fazer a quantificação do carbono no solo", explica Alexandre Leite, CEO da climatech, ao AgFeed.
Na sequência, uma auditoria presencial deve ocorrer na metade do ano. A expectativa é que, até o fim de 2026, o projeto da Nova Piratininga seja registrado na Verra, com a emissão dos créditos prevista para o segundo trimestre de 2027, segundo Leite.
O projeto de carbono no qual a Nova Piratininga atuará é o mesmo que a climatech já desenvolvia desde o ano passado na Fazenda Flórida, de Cassilândia (MS), aprovado pela certificadora Verra e de onde foram emitidos os primeiros créditos. A metodologia usada é a de número VM0042.
A ideia da climatech é formar um "pool", adicionando mais fazendas além da Nova Piratininga e da Flórida no projeto. "Vamos ter provavelmente mais três fazendas", diz Leite, econômico nos deatlhes. "Mas com a Nova Piratininga sendo a maior desse pool de fazendas que vão entrar nesse agrupamento de projetos", ressalta.
Por já estar inserido em um projeto agrupado previamente aprovado pela Verra, o cronograma tende a ser mais rápido do que iniciativas que começam do zero. "Com o projeto sendo aprovado, você consegue incorporar novas fazendas que tenham práticas semelhantes e que possam fazer parte do projeto", explica Leite.
No lado da Nova Piratininga, a ideia é validar os resultados primeiro para depois ampliar o projeto para outras áreas, abarcando também a pecuária. "O fato é que a gente opta por começar pequeno, fazendo um projeto-piloto para depois expandir", resume João Paulo Castro, diretor da Nova Piratininga.
Além disso, é mais um marco importante na história da propriedade, que, no passado, pertenceu ao empresário Wagner Canhedo, ex-dono da companhia aérea Vasp, e em 2010, foi comprada por três empresários goianos: João Alves de Queiroz Filho, dono da Hypera Pharma, a antiga Hypermarcas, Igor Nogueira Alves de Melo, que até hoje integra o conselho de administração da farmacêutica Teuto, e Marcelo Limírio Gonçalves – que comprou a propriedade dos sócios em 2018.
Quando o trio assumiu a gestão da então Piratininga, a fazenda estava com a operação prejudicada por estar envolvida em processos judiciais envolvendo as empresas de Canhedo. De lá para cá, o trio fez diversos investimentos e transformou a Piratininga, rebatizada de Nova Piratininga, no "estado da arte" em termos de operação agrícola, se tornando exemplo de produção metrificada.
A parceria com a Nova Piratininga reforça a estratégia da NaturAll Carbon de trabalhar com grandes operadores de terras agrícolas e avançar rumo à meta de ter 150 mil hectares sob gestão até 2027, com potencial de sequestrar até 300 mil toneladas de CO2 por ano.
A expectativa da startup é de chegar, ao fim de 2026, com 50 mil hectares de projetos com pedido de registro na Verra, considerando já o projeto da Nova Piratininga e outros projetos - caso de um outro, mantido com outra gigante, a Amaggi, que firmou parceria com a startup para um programa de crédito de carbono por agricultura regenerativa em uma área de 25 mil hectares da Fazenda Carolinas, localizada em Corumbiara (RO).
A expectativa é que a empresa da família Maggi tenha um retorno médio de 2 toneladas por hectare de sequestro de carbono por ano, trazendo um sequestro de 50 mil toneladas nesta área estabelecida.
O número exato ainda depende de definições e contabilizações anuais, feitas pela própria NaturAll Carbon e ratificadas em uma auditoria. A emissão e a venda dos créditos ainda está pendente.
A NaturAll Carbon foi criada por Leite, ex-executivo de companhias como Petrobras, Cargill e Copersucar, em 2022, junto com outros dois sócios, Marcio Facas e Felipe Antoniazi.
No ano passado, a Carbonext, desenvolvedora de projetos de carbono que tem como sócia a petroleira Shell, adquiriu uma participação minoritária da climatech. O valor da aquisição e o volume exato da participação comprada pela Carbonext não foi revelado.
Resumo
- NaturAll Carbon vai desenvolver projeto de carbono em 12,3 mil hectares da Fazenda Nova Piratininga, uma das maiores do Brasil
- Projeto nasce com potencial para gerar 30 mil créditos de carbono
- Primeiras emissões devem acontecer em 2027