Primogênito dos irmãos Batista, a família controladora da JBS, José Batista Júnior, mais conhecido como Júnior Friboi, sempre foi conhecido como bom negociante. Desde jovem, quando auxiliava o pai, Zé Mineiro, no transporte de carne para a ainda incipiente Brasília, já demonstrava faro para negócios mesmo sem ter educação formal – ele abandonou os estudos ainda jovem.
Essa característica se consolidou ao longo dos 25 anos em que esteve à frente da JBS – então conhecida como Friboi, origem do apelido que se incorporou ao seu nome – período em que liderou a transformação do pequeno frigorífico da família Batista em um gigante global do setor.
No mercado, ganhou fama de comprar barato e vender a bom preço, segundo conta o livro "Why Not", espécie de biografia da JBS e da família Batista publicada em 2019 pela jornalista Raquel Landim.
Júnior está distante do controle da JBS desde 2013, quando vendeu sua participação na J&F, a holding que controla a JBS, para os irmãos mais novos, Joesley e Wesley. Mas não perdeu o ímpeto e voltou sua atenção para o crescimento de sua própria holding, a JBJ Investimentos.
E, como era de se esperar, Júnior manteve atuação na pecuária, a partir da JBJ Agropecuária, que hoje é dona de uma das maiores operações de confinamento e um dos maiores vendedores de gado para abate no Brasil – seu principal cliente é justamente a JBS.
Agora, não perdendo a fama de bom negociante, Júnior está comprando a Fazenda Conforto, propriedade de 12 mil hectares localizada em Nova Crixás (GO), onde funciona um dos maiores confinamento de gado do País, com capacidade estática de receber 76 mil animais e giro anual estimado em 180 mil cabeças.
Trata-se de um importante incremento à operação da JBJ, que hoje diz já possuir o maior confinamento de gado do Brasil, com capacidade anual de receber 540 mil animais, sendo 180 mil estáticos, em todas as suas unidades. A empresa de Júnior Friboi atua em todas as etapas da pecuária, contando com fazendas de cria dedicadas à seleção e produção de bezerros e bezerras das raças Nelore e Angus, fazendas de recria e confinamento.
Parte do rebanho da JBJ abastece frigoríficos de Júnior Friboi, reunidos sob a marca Prima Foods, mas a maior parcela segue para unidades da JBS, da qual a JBJ é uma das principais fornecedoras.
A transação em torno da Conforto foi protocolada junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) nesta semana. O valor não foi divulgado nos documentos enviados ao Cade pelo escritório de advocacia Cescon Barrieu. Mas, considerando estimativas da plataforma Reland, que precifica cada hectare em Nova Crixás a R$ 38,9 mil, a transação pode ter chegado a mais de R$ 460,9 milhões - sem contar a infraestrutura e as diferentes operações da propriedade, incluídas no negócio.
A Conforto pertence à família Negrão e é comandada por Sérgio Pellizzer, genro do fundador da fazenda, Alexandre Negrão, que a montou em 1996. Falecido em 2023, ele foi fundador e presidente da farmacêutica Medley e piloto de Stock Car e, na fazenda, impôs o mesmo ritmo acelerado que praticava nas pistas.
Sob o comando de Negrão, a Conforto passou a funcionar sob escala industrial, registrando produtividade de 150 arrobas por hectare, 30 vezes superior à média brasileira, que é de cinco arrobas por hectare. Em 2023, chegou à marca histórica de 1,5 milhão de animais abatidos. No ano passado, faturou mais de R$ 1,2 bilhão.
Sendo uma “indústria a céu aberto”, a fazenda não se resume ao confinamento de três módulos. Também possui uma planta de biofertilizantes, produzidos a partir dos resíduos do gado, fábrica de ração, silos de armazenamento de grãos, parque para geração de energia fotovoltaica, represa, 2 mil hectares com lavouras irrigadas com 16 pivôs e uma área de reserva que ocupa quase 30% da propriedade.
A negociação não envolve, entretanto, uma segunda propriedade, que começou a sair do papel pouco antes da morte de Negrão: a Fazenda Conforto II, que tem 5 mil hectares e está situada no município de Formosa do Araguaia (TO), a cerca de 300 quilômetros de Nova Crixás.
Maior grupo de gado da América Latina
Com a chegada da Conforto, Júnior Friboi deve realizar o sonho de fazer da JBJ o maior "grupo de gado do Brasil", informação que consta inclusive no site da empresa. Mais do que isso, deve formar o maior projeto pecuário da América Latina, com mais de 700 mil animais confinados por ano.
A trajetória de expansão da companhia, porém, tem uma origem curiosa: uma tentativa frustrada de ingresso de Junior Friboi na política.
Ao longo de duas décadas, o empresário se filiou a diferentes partidos e ensaiou disputar o governo de Goiás em três ocasiões, em 2006, 2010 e 2014. Em todas, acabou recuando após desavenças no meio político.
Às vésperas da última tentativa, em 2013, decidiu dissociar os negócios da família de suas ambições eleitorais e vendeu sua participação na J&F, holding que controla a JBS, aos irmãos mais novos, Joesley e Wesley.
A partir daí, Junior passou a concentrar esforços na própria holding, a JBJ, inicialmente formada por seis fazendas de pecuária de corte em Goiás e Tocantins.
O retorno ao segmento de frigoríficos veio no fim de 2014, com a compra do Mataboi, de Araguari (MG), então em recuperação judicial e com operações em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.
Mas, em 2017, o Cade barrou a aquisição, citando o vínculo familiar com os controladores da JBS. A decisão foi contestada na Justiça e, posteriormente, Junior conseguiu assumir o controle do ativo, rebatizado de Prima Foods, que hoje mantém unidades em Santa Fé de Goiás (GO) e Cassilândia (MS).
Paralelamente, a JBJ Agropecuária seguiu em ritmo de expansão e se consolidou como um dos maiores produtores de gado do país, com foco nas raças Nelore e Angus e atuando na cria, recria e engorda.
No ano passado, a empresa já havia dado novos sinais de sua ambição ao adquirir a Fazenda Ressaca, uma propriedade centenária de 37,5 mil hectares em Cáceres (MT), que pertencia aos irmãos Pedro e Alexandre Grendene desde a década de 1980.
Além de comandarem a maior fabricante de sandálias do mundo, os Grendene também têm presença relevante na pecuária, por meio da Nelore Grendene, cuja operação na Fazenda Ressaca supera a marca de 3 mil touros da raça Nelore PO produduzidos por ano, com foco em genética de qualidade.
Embora os valores da transação não tenham sido divulgados, as estimativas indicam cifras na casa das centenas de milhões de reais. Considerando o preço médio do hectare na região de Cáceres, em torno de R$ 16,3 mil, os 37,5 mil hectares da Ressaca superariam R$ 610 milhões.
Resumo
- JBJ, empresa de Júnior Friboi, primogênito da família Batista, formaliza no Cade transação de compra da Fazenda Conforto, em Goiás
- Propriedade da família Negrão é dona de um dos maiores confinamentos de gado do Brasil
- Com aquisição, empresário deve atingir objetivo de se tornar "maior grupo de gado" do País