A turbulência no mercado de fertilizantes não dá trégua, acompanhando os desdobramentos do conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel.

Desde os primeiros bombardeios, diferentes analistas alertaram para a alta no preço dos adubos nitrogenados, que são diretamente dependentes do gás natural e da rota logística do Estreito de Ormuz.

Agora, prestes a completar um mês de conflito, a realidade mostra que os efeitos vão muito além dos fertilizantes nitrogenados e não se limitam à dificuldade de acesso ao adubo produzido no Oriente Médio.

Nesta terça-feira, a Rússia, por exemplo, que forneceu 24% dos fertilizantes que o Brasil importou em 2025, comunicou ao mercado global uma interrupção pelo período de um mês das exportações de nitrato de amônio.

Dias antes, a China, outra gigante do segmento de adubos, também sinalizou ao mercado que está restringindo a oferta de fertilizantes, globalmente, para proteger seus consumidores internos.

Em entrevista ao AgFeed, o sócio-diretor da Agroconsult, Cleber Vieira, que é um dos principais especialistas em fertilizantes no País, disse que ter China ou Rússia fora do mercado nesta época do ano não é algo incomum, mas alertou que desta vez, há diferenças importantes.

“Rússia e China estão perto do início do plantio deles, por isso focados em abastecer o mercado local, mas o problema é que antes eles saiam e depois voltavam, mas agora não dá para voltar”, afirmou.

A explicação para isso é a dificuldade que estes países já estão enfrentando para importar determinadas matérias-primas, principalmente o enxofre, que vem do Oriente Médio.

“O enxofre é importante pra produzir (fertilizantes) fosfatados e o sulfato de amônio, que é um nitrogenado, mas para estes países ofertarem estes fertilizantes, eles precisam produzir, e para produzir, precisam importar do Oriente Médio”, explicou Vieira.

O Brasil importou em 2025 um total de 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes, o que representa mais de 90% do que consumiu na agropecuária. Deste total importado, 26% veio da China, 24% da Rússia e 17% do Oriente Médio, segundo o especialista da Agroconsult.

O cenário reduz as possibilidades de “realocação no fornecimento”, como defendem alguns, porque não é uma questão somente de preço elevado e sim de “disponibilidade” destes produtos, ele alerta, especialmente no que se refere aos fertilizantes fosfatados.

“Alguma reorganização tem, mas ela não é plena, com outras origens de suprimento, principalmente do nitrogenado, pode aumentar compras da Nigéria, por exemplo”, disse Vieira.

Já a Rússia, que antes era apontada como alternativa para substituir o fertilizante do Oriente Médio, provavelmente terá que rever sua capacidade produtiva, porque também segue envolvida na guerra com a Ucrânia.

Alta de preços e poucos negócios

Em meio aos temores de menor oferta de adubos, não apenas no Oriente Médio, os preços seguem subindo. A ureia, por exemplo, nitrogenado fundamental para a cultura do milho custava cerca de US$ 450 por tonelada antes da guerra no Irã, chegou a US$ 750 semana passada e agora já chega ao patamar de US$ 800, ou seja, quase o dobro de um mês atrás.

Cleber Vieira diz que mesmo os mercados não diretamente afetados, como o Canadá, outro importante player de fertilizantes, também começa a praticar preços mais altos em função do frete, que fica mais caro.

“O mais crítico no curto prazo é a disponibilidade de fósforo e potássio, mas esse segundo preocupa menos porque vem de outras rotas”. Os fosfatados são os fertilizantes mais usados na soja, que começa a ser plantada em setembro no Brasil.

Em função disso, em julho já seria o período de alta demanda para os adubos no Brasil, mas tudo indica que os negócios seguirão bem abaixo do normal. Entre janeiro e fevereiro o Brasil importou 10% menos fertilizantes na comparação com o ano passado, segundo o analista.

Mas esse ainda não era um efeito da guerra, que teve o estopim no dia 28 de fevereiro. Vieira acredita que o resultado das importações de abril já deve mostrar impactos mais significativos das restrições no mercado internacional.

O principal fosfatado, o MAP, subiu de US$ 700 para US$ 800 por tonelada desde que a guerra começou. “Mas no fósforo o problema é mais disponibilidade do que preço”.

Segundo a Agroconsult, cerca de 25% das vendas de adubos previstas para a safra de verão já ocorreram no Brasil, mas o normal, nesta época do ano, seria estar em 45%.

Os negócios estão lentos porque para o produtor rural a margem fica cada vez mais apertada e, do lado de quem fornece, há muita incerteza sobre se haverá mesmo produção suficiente no volume desejado e se haverá logística que viabilize a chegada do produto nos portos, em tempo hábil.

Na ureia, que é o produto mais afetado pelo bloqueio de Ormuz, a maior demanda ocorre no segundo semestre do ano, já que o milho segunda safra (a maior do País) só começa a ser plantado em janeiro de 2027.

“As importações agora precisariam ser crescentes para começar a gerar estoque dentro do País, seria o normal, isso é o ponto de atenção, porque provavelmente não vai haver essa intensidade, e julho a setembro há uma alta demanda”, lembrou Vieira.

O sócio-diretor da Agroconsult acredita que a tendência, agora, é de preços firmes e com pressão de alta, se a guerra a continuar, porque o Brasil chegará no período de maior demanda com estoques apertados. Em 2025, as entregas de adubos no País totalizaram 49 milhões de toneladas.

Este ano, a situação tem grande chance de mudar. “A tendência é de que não tenha um mercado do mesmo tamanho, os fundamentos indicam para um volume menor que ano passado”, avalia.

Apesar da alta no fertilizante, Cleber Vieira diz que a relação de troca piora, mas ainda não levou o produtor de milho, por exemplo, a margem negativa, desde que tenha alta produtividade. Em situação melhor, estariam os agricultores que já compraram pelo menos parte dos adubos que precisam.

Vieira admite que muitos estão adiando as compras, na expectativa de que o mercado se reacomode e os preços parem de subir, como ocorreu no primeiro ano da guerra da Ucrânia.

Ele alerta, porém, que naquele episódio o mercado reagia somente à incerteza, mas agora há uma situação real de limitação na oferta dos fertilizantes.

Resumo

  • Conflito no Oriente Médio afeta não só nitrogenados, mas toda a cadeia; Rússia suspende exportações de nitrato de amônio e China restringe vendas, reduzindo a disponibilidade global de fertilizantes
  • País importou 45,5 milhões de toneladas em 2025 (mais de 90% do consumo), com forte dependência de China (26%), Rússia (24%) e Oriente Médio (17%), limitando alternativas de fornecimento
  • Ureia saltou de US$ 450 para cerca de US$ 800/tonelada; com incerteza sobre oferta e logística, compras estão atrasadas (25% vs. 45% normal), elevando risco de estoques apertados na safra