Terras públicas, comunidades tradicionais e crédito de carbono raramente aparecem na mesma equação. Foi justamente nessa interseção que Pedro Plastino, ex-Future Climate com passagens por gestoras da Faria Lima e Rodrigo Brandão, um ex-BNDES, decidiram operar ao criar a Joias Ecológicas da Amazônia.

"Desenvolvemos projeto de carbono comunitários". Essa foi a primeira frase - e síntese do negócio - da entrevista concedida por Plastino ao AgFeed. Com mais de 700 mil hectares sob gestão socioambiental, a empresa criada em julho do ano passado prevê encerrar 2026 com 2 milhões de hectares no portfólio.

"Chegamos aqui pela junção de duas cabeças. O Brandão com a cabeça de governo e a minha com a agenda de crédito de carbono. Antes eu fazia projetos privados, em áreas de dono que possui alguma pressão de desmatamento. Conforme vi o mercado se aprofundado vi que os compradores de carbono estrangeiros sentiam falta de aspectos comunitários", prosseguiu o cofundador.

“Os compradores de fora começaram a perguntar: esse dinheiro vai pra conta de quem? Qual é o impacto social disso? E muitas vezes a resposta era limitada", disse.

A equação começou a fechar quando Brandão trouxe uma alternativa: áreas públicas federais, especialmente reservas extrativistas (Resex), onde já existem comunidades organizadas e com direito de uso reconhecido.

Além do BNDES, Rodrigo Brandão acumula uma carreira com passagens em diversos órgãos públicos como o Exército, Ministério da Economia, Dataprev e da estatal EMGEA, vinculada à Fazenda que gere bens e direitos da União.

A solução trazida por ele tinha como base a legislação recente do mercado de carbono brasileiro, que prevê que comunidades tradicionais são os donos do carbono da área que vivem. “Ali você junta duas coisas que são críticas: segurança fundiária e componente social”, disse Plastino. “Foi a junção de dois mundos".

Na prática, a Joias atua como estruturadora desses projetos, num modelo de negócio que engloba cinco etapas. Tudo começa pela identificação das áreas e avança para uma etapa considerada a mais sensível de todo o processo: a consulta livre, prévia e informada (CLPI), em que a comunidade precisa aprovar formalmente a iniciativa.

Não é um procedimento trivial. Segundo Plastino, cada projeto pode exigir mais de cem reuniões presenciais, muitas delas em regiões de difícil acesso. “Demora cerca de um ano. E tem que demorar. Não é uma conversa na Faria Lima, é lá no meio da comunidade, disse.

Passada a identificação, CLPI e assinatura, aí entra o desenvolvimento técnico do projeto de carbono - que envolve a elaboração da documentação para certificação internacional -, seguido pela comercialização dos créditos e pela implementação no território.

A operação, no entanto, não é feita sozinha. A empresa montou um núcleo com profissionais que passaram por órgãos como o ICMBio, responsáveis por fazer a ponte com as comunidades e acompanhar a execução local. “Nem eu nem o Brandão temos essa vivência nas comunidades. A gente trouxe quem faz isso há 20 anos”, afirmou.

Hoje, a empresa tem projetos em diferentes estágios. Um deles, na região da Calha do Purus, entre o sul do Amazonas e o leste do Acre, já está em fase de desenvolvimento técnico após a assinatura do contrato com a comunidade. Outros, principalmente em áreas de manguezais no Pará, estão no período pós CLPI e pré assinatura.

O projeto da Calha do Purus pode emitir, em créditos, 100 mil toneladas de CO2 por ano, sendo esse um projeto de 40 anos. Nos mangues do Pará, a estimativa é de 30 mil toneladas de CO2 por ano, na mesma duração. É na soma dessas iniciativas que estão os pouco mais de 700 mil hectares atuais sob gestão.

Considerando outros projetos em negociação e início de estruturação, a companhia afirma já ter cerca de 1,5 milhão de hectares sob gestão ou em pipeline, número que deve crescer ao longo do ano até a meta de 2 milhões.

O carbono é só o começo

Mas, para a Joias, o carbono é apenas o começo da história. “O crédito de carbono é o início da conversa, não o fim”, disse Plastino. A lógica da empresa passa por usar essa primeira fonte de receita como um “colchão” para estruturar outras atividades econômicas dentro dos territórios.

Nas áreas onde atua, há uma série de cadeias produtivas já existentes, ainda que pouco organizadas. Açaí, castanha, cacau, óleos vegetais e pesca são alguns dos exemplos citados.

“Eles já fazem isso. A gente não vai ensinar nada. O nosso papel é organizar, estruturar, conectar com comprador”, afirmou. Em alguns casos, o potencial de ganho está na própria distorção de preços. Ele cita o exemplo da cadeia do peixe pirarucu, que nas comunidades, vale menos de R$ 10, enquanto o quilo chega a R$ 100 em alguns centros urbanos.

A ideia é que, ao longo do tempo, essas cadeias de bioeconomia ganhem protagonismo na geração de renda. O carbono, por sua vez, funcionaria como uma base de financiamento de longo prazo, já que as discussões sobre esse mercado ainda são incertas, e o futuro, mais ainda. “O contrato de carbono é de 40 anos. Ele dá previsibilidade, mas o grande salto vem das cadeias produtivas”, disse.

O modelo também prevê a divisão da maior parte da receita com as comunidades. Segundo a empresa, cerca de 70% do resultado líquido dos projetos retorna para os territórios, em forma de renda direta ou investimentos em infraestrutura básica, como energia, água, saneamento e conectividade.

Apesar do tamanho da ambição, a operação ainda está em fase inicial e vem sendo financiada pelos próprios fundadores, que aportaram cerca de R$ 1,5 milhão. Os recursos subsidiam essas etapas iniciais de conversas, viagens e prospecções locais.

A empresa planeja abrir uma rodada de captação ao longo de 2026, mas quer chegar ao mercado com projetos mais maduros. “A gente não quer levantar recurso mostrando piloto. Quer mostrar contrato assinado, projeto em execução”, disse Plastino. A ideia é trazer investidores institucionais e estratégicos, sejam fundos ou profissionais do setor.

Em paralelo, a companhia já começou a se movimentar na ponta da venda dos créditos e negocia memorandos de entendimento com potenciais compradores corporativos. Segundo Plastino, uma "grande empresa brasileira" já está fazendo o processo de dilligence na Joias para assinar contratos. A estratégia é avançar nas duas frentes ao mesmo tempo: garantir território e estruturar demanda.

No negócio, Plastino fica mais responsável pela venda do carbono e relação com as empresas privadas, enquanto Brandão cuida do relacionamento com o governo. A trajetória de Plastino ajuda a explicar esse desenho. Filho de mãe goiana e de uma família de produtores rurais e enteado de um canavicultor da região de Ribeirão Preto, conta que "nunca foi do agro", mas sempre teve o setor presente nos jantares de família.

Formado pela FGV, fez a carreira tradicional no mercado financeiro em escritórios de investimento e gestoras antes de migrar para o setor de carbono na Future Climate (Antiga Future Carbon).

Foi durante um período de estudos na Harvard University, após deixar a antiga empresa que, segundo ele, a agenda de impacto social ganhou mais peso. “Virei 'Faria Limer', ainda uso calça curta e jogo beach tênis mas estou no processo de conversão", brinca. "Mas foi Harvard que abriu minha cabeça em relação ao impacto social, quando tive contato com empreendedores do mundo todo. O Brasil não é a Faria Lima. O Brasil é a Amazônia”, conclui.

Resumo

  • A Joias Ecológicas da Amazônia estrutura projetos de crédito de carbono em áreas públicas com comunidades tradicionais, somando mais de 700 mil hectares e mirando 2 milhões até o fim de 2026
  • Modelo combina reservas extrativistas, consulta prévia às comunidades e certificação internacional com contratos de longo prazo (até 40 anos)
  • lém do carbono, a empresa busca organizar cadeias locais - como açaí, castanha e pescado - usando os créditos como base financeira, com cerca de 70% da receita retornando às comunidades