Desde que anunciou a compra de ativos que pertenciam à concorrente Marfrig, em agosto de 2023, a Minerva Foods esteve no centro de questionamentos sobre o valor do negócio – eram originalmente R$ 7,5 bilhões por 16 plantas, mas o preço final foi menor por conta da negativa uruguaia em aprovar a transferência de três unidades no país.

Também desde então, sempre que têm oportunidade, Fernando Galletti de Queiroz, o CEO, e Edison Ticle, o CFO da companhia, fazem questão de mostrar, com os resultados de seus balanços, que, como costumam dizer, sabiam o que estavam comprando.

É possível que tenham repetido esse “ritual” pela última vez nesta quarta-feira, 18 de março. Com números expressivos a apresentar, relativos ao desempenho da Minerva em 2025, os executivos mais uma vez reforçaram como a aquisição foi estratégica para uma coleção de recordes declamada por Ticle logo no início de uma conversa com um grupo de jornalistas.

“O balanço teve alguns destaques. O primeiro é que foi recorde de receita, recorde de Ebitda e recorde de lucro líquido”, apontou. Em valores, são R$ 54,8 bilhões de receita líquida (60,9% acima de 2024), R$ 4,8 bilhões de Ebitda e lucro líquido de R$ 848 milhões.

“A gente teve muito mais sucesso do que o mercado esperava no processo de integração das plantas”, disse o CFO. “As dúvidas que se tinha acerca do preço que a gente pagou foram totalmente dissipadas. A gente entregou exatamente, ou até melhor, do que aquilo que a gente esperava quando fez a aquisição”.

Ticle recorreu novamente aos números para quantificar o efeito da aquisição ao final do primeiro ano completo de sua integração. Ele lembrou que, antes da incorporação, a Minerva costumava reportar cerca de R$ 3 bilhões de Ebitda.

Os ativos comprados, segundo ele, geraram uma receita líquida próxima de R$ 15 bilhões e um Ebitda de R$ 1,5 bilhão no ano passado.

E então, Ticle repetiu o discurso ouvido em trimestres anteriores: “Isso mostra que a gente sabia exatamente o que a gente estava fazendo, que a gente conhecia o potencial dos ativos, sabia qual era a nossa capacidade de extrair valor”.

O que “o mercado esperava” ficou bem aquém dos resultados divulgados pela companhia. Ticle recuperou o guidance empresa e os dados do consenso do mercado do começo do ano passado para mostrar que, em 2025, o desempenho foi superior às melhores expectativas.

Na receita líquida, por exemplo, a empresa previu, na ocasião, ficar dentro de um intervalo entre R$ 50 bilhões e R$ 58 bilhões – acabou ficando bem no centro desse alvo. A estimativa média do mercado ficava em R$ 46 bilhões.

“O mercado tinha um EBITDA estimado de 4 bi, a gente entregou 4,8. O mercado tinha um lucro líquido de R$ 286 milhões, a gente entregou R$ 848 milhões. O mercado tinha um fluxo de caixa livre negativo de R$ 780 milhões, a gente entregou R$ 1,5 bi. E o mercado tinha uma dívida líquida de R$ 15,5 bi, que dava uma alavancagem de 3,9 (vezes, na relação com o Ebitda) e a gente está entregando R$ 12,7 bi, com alavancagem líquida de 2,6”.

Das sinergias obtidas com a integração, a mais significativa, de acordo com o executivo, foi a redução proporcional das despesas em relação à receita líquida, graças aos ganhos de escala obtidos. Essa proporção caiu da casa dos 13,5% a 14% para um nível entre 10,5% a 11,5%, que é o que empresa acredita ser sustentável.

Empresa sul-americana

Outro ponto estratégico da aquisição, segundo ressaltou o CEO Galletti de Queiroz, foi o reforço à diversificação geográfica obtida com a integração de plantas na Argentina e no Chile.

Com 60% de sua receita proveniente de exportações, a empresa avalia ter feito o movimento no momento correto, que permitiu que ela tirasse proveito de um cenário global favorável no mercado de proteínas.

“Nós analisamos a Minerva como uma companhia que está na América do Sul como um todo”, afirmou Queiroz, apontando como o fato de ter unidades em outros países, não apenas no Brasil, funcionou como um “hedge geopolítico”, na sua definição.

Esse posicionamento sul-americano, segundo ele, foi relevante durante a curta vigência do tarifaço americano, ajudará a mitigar efeitos da guerra no Oriente Médio e será fundamental para reduzir impactos da imposição de salvaguardas chinesas à carne brasileira.

“Pela forma que foi calculada a salvaguarda, que foi a média de três anos antes de 2024, ela pegou o Brasil dentro de uma curva ascendente de volume para o mercado chinês”, disse o CEO.

“Portanto, isso aí limitou o Brasil. Mas fazendo essa mesma análise dos outros países que nós operamos, ela não tem alteração. Isso reforça a diversificação geográfica na produção da Minerva como um fator mitigador de risco”.

Em 2025, a China representou 27% das receitas com exportação da Minerva – o que implica em 15% da receita total da empresa. Queiroz reforça que, se a salvaguarda traz limitação significativa para o Brasil, para Argentina, Uruguai e Colômbia não tem o mesmo impacto.

“Nós, da Minerva, com a diversificação e com a rede de estruturas comerciais supercapilares em diferentes partes do mundo, consegue estar diluindo isso em outros mercados e contando também com os mercados internos dos países que a gente tem operação”, afirmou.

Já o Oriente Médio preocupa menos. De acordo com Ticle, a região representa 10% das exportações do grupo, o que significa 6% das receitas.

“E mesmo dentro desse 6%, o que vai para a região que não está conseguindo fazer entrega, é menos de 20% disso”, disse ele. Os principais mercados da empresa na região são Arábia Saudita, Israel e Jordânia, que continuam sendo atendidos.

Assim, segundo Ticle, o principal impacto do conflito seria o aumento de custos, começando pelos fretes, principalmente por causa do aumento do petróleo.

“Isso vai impactar os custos de toda a operação, não só de exportação. Vocês estão vendo o debate que está tendo com o aumento de óleo diesel aqui no Brasil. Isso vai ter um efeito mais macro, inflacionário”, analisou.

Queiroz afirma que os fretes pesam menos no negócio de carnes do que em outras cadeias, em função do maior valor unitário das carnes em relação a outras commodities. Isso faz com que um custo adicional seja diluído.

Mas a volatilidade e as incertezas internacionais, somadas à pressão de custos, fazem a empresa esperar um primeiro trimestre mais difícil. “E, dependendo de como as coisas aconteceram ao longo do ano, a gente deve ter um ano de 2026 realmente pior do que 2025”, disse Ticle, que informou que, desta vez, a Minerva não divulgará um guidance com as previsões para o ano.

Por outro lado, a empresa vê espaço para recomposição de preços em alguns mercados, com estimativas de redução de oferta de carne em mercados importantes, como o americano e mesmo o chinês.

Nos Estados Unidos, o Departamento de Agricultura (USDA) havia previsto uma redução de oferta, para os primeiros meses do ano, de menos de 1%. Mas foi de 8%. “A Europa também está dentro de uma trajetória negativa na parte de produção”, afirmou Queiroz.

Além disso, na revisão das tabelas nutricionais nos EUA, as proteínas tiveram seu papel destacado, subindo ao topo da pirâmide. “Isso mostra bastante como não só a questão da operação, mas como a leitura que nós tivemos do ambiente está cada vez mais se materializando”, concluiu.

Resumo

  • Minerva Foods superou expectativas e registrou recordes de receita (R$ 54,8 bi), Ebitda e lucro em 2025
  • Aquisição de ativos da Marfrig contribuiu com R$ 15 bi no resultado e ampliou presença na América do Sul, fortalecendo diversificação geográfica
  • Estratégia regional funciona como “hedge geopolítico”, reduzindo impactos de China, EUA e conflitos globais