A novela da fusão da Kepler Weber com a americana Grain & Protein Technologies (GPT) parecia ter chegado ao fim na segunda-feira, dia 2 de março, mas ganhou um novo capítulo – provavelmente o seu epílogo – na manhã desta terça-feira, dia 3 de março.
Em fato relevante divulgado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a companhia brasileira de soluções pós-colheita informou que não dará sequência à combinação de negócios anunciada na véspera com a empresa americana.
Segundo a Kepler Weber, a negociação estava condicionada ao cumprimento de duas exigências até as 18h do dia 2: a aprovação da minuta do acordo pelo Conselho de Administração e a assinatura de um compromisso de voto entre a GPT e a gestora Trígono Capital, maior acionista da companhia, além de seus fundos investidores na Kepler Weber e de seu CIO, Werner Roger.
Pelo entendimento preliminar, a Trígono se comprometeria a votar favoravelmente à operação em uma Assembleia Geral Extraordinária ainda a ser convocada.
O Conselho de Administração da Kepler aprovou a operação. No entanto, não houve acordo entre a Trígono e a GPT quanto ao compromisso de voto, o que fez com que a oferta perdesse sua validade dentro do prazo estabelecido.
“Dessa forma, em decorrência da retirada da oferta pela GPT, a transação não prosseguirá, e as deliberações tomadas e/ou atos praticados em relação à transação pretendida ficam sem efeito”, informou a companhia.
"A administração reitera que a Companhia apresenta elevada solidez econômico-financeira e operacional mesmo diante de um ciclo setorial mais adverso, amparada por um histórico consistente de disciplina de gestão, governança e execução estratégica. A Kepler Weber manterá foco rigoroso e contínuo na implementação do seu plano estratégico KW 2030, com diretrizes claramente orientadas ao crescimento sustentável, à eficiência operacional e à inovação, que tem contribuído para a consolidação e o fortalecimento de sua posição de liderança no mercado brasileiro", finalizou a Kepler.
Na proposta apresentada pela GPT, a Kepler informou que havia a previsão de R$ 11 por ação aos acionistas, além de um earn-out de R$ 1, condicionado ao cumprimento de determinadas condições futuras, ou ainda R$ 8 em dinheiro, mais 0,4299 cotas da GPT Brasil e mais R$ 1 retido.
O plano deixou de fora, no entanto, a possibilidade de acordos separados entre a GPT e a Trígono Capital e a família Heller que, juntos, detém 26,8% do capital acionário da companhia.
Reportagens publicadas na imprensa no fim de 2025 sugeriram que a negociação entre GPT e Trígono/Heller envolveria o pagamento de valores diferenciados e potencialmente mais elevados a estes acionistas, sob condições distintas daquelas oferecidas aos acionistas minoritários, que sairiam prejudicados ao fim da operação.
A ideia de um preço diferenciado irritou outros acionistas da companhia, que chegaram a enviar uma comunicação formal ao Conselho Fiscal da Kepler rechaçando a ideia.
Agora, a Kepler segue seu caminho na expectativa de dias melhores. Em 2025, a companhia viu seu lucro líquido recuar 21,5%, somando R$ 156,3 milhões. O resultado foi impactado negativamente por uma seletividade maior nas decisões de investimento em estruturas de armazenagem por parte dos produtores e empresas em função dos juros em nível elevado.
Os investidores reagiram mal ao fim das negociações. Na B3, as ações da Kepler chegaram a recuar quase 20% no início do pregão. Às 10h45, estavam cotadas a R$ 8,10, queda de 15,89%. No ano, a Kepler ainda acumula alta de 6,72%.
Resumo
- Após anunciar a fusão com a americana Grain & Protein Technologies (GPT), a Kepler Weber voltou atrás e informou à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que a operação não terá continuidade.
- A transação dependia de duas condições até as 18h de 2 de março: aprovação do acordo pelo Conselho de Administração (que foi concedida) e assinatura de um compromisso de voto entre a GPT e a Trígono Capital, maior acionista da companhia, além de seus fundos e do CIO Werner Roger.
- Sem acordo sobre o compromisso de voto, que previa apoio da Trígono em futura AGE, a GPT retirou a oferta, tornando sem efeito as deliberações e atos relacionados à fusão