As coisas têm acontecido rápido na vida de Jonas Hipólito. Há pouco mais de um ano, em 15 de janeiro de 2025, o jovem executivo de apenas 35 anos assumia a cadeira de CEO da Biotrop, escolhido pelo fundador Antonio Carlos Zem, com a anuência da controladora, a belga Biofirst.
Agora, aos 36, ele mesmo lidera uma multinacional dentro da multinacional e celebra, em seu primeiro balanço anual à frente da fabricante de biológicos, um resultado que deve causar inveja à maioria dos seus concorrentes.
“Entramos no ano do bilhão”, afirmou Hipólito em entrevista ao AgFeed nesta quarta-feira, 25 de fevereiro. Ele falava de 2026 com base nos números de 2025: a Biotrop fechou o ano passado com receita próxima dos R$ 900 milhões, marcando um crescimento de 23% em relação a 2024.
É um ritmo de expansão mais baixo que a média da companhia, acostumada a taxas superiores a 30% nos últimos anos, mas bem acima da média de mercado. E serve como parâmetro para que o CEO estime superar a marca bilionária ainda este ano – bastaria manter esse mesmo índice e a meta estaria atingida.
Hipólito revela confiança de que vai conseguir. “É uma marca relevante para uma empresa de inovação no Brasil”, analisou, já recorrendo ao posicionamento que a Biotrop vem utilizando para se destacar no cada vez mais concorrido mercado brasileiro de biológicos.
O balanço desse primeiro ano não é apenas numérico para o executivo. Seu batismo de guerra como comandante da companhia se deu em um front complexo, com produtores arredios a investimentos e controlando cada centavo destinado aos seus cultivos.
“Como um negócio foi um ano que exigiu bastante criatividade para saber navegar um cenário de desafios no agronegócio, de crédito, de uma cadeia do agro bastante estressado em várias pontas”, refletiu.
Boa parte do crédito pelo sucesso nessa batalha ele transfere à estrutura que herdou de Zem, sobretudo a equipe de vendas formada por 300 agrônomos sempre em campo. Um time, segundo diz, “formado em biológico” e com uma forte cultura de enxergar oportunidades enquanto outros veem dificuldades.
Diante de um quadro de pressão de preços e aumento de concorrência, ele disse preferir olhar para o nível de adoção ainda muito baixo dos biológicos no Pais como um amplo terreno para prospectar mais vendas.
“O não usuário ainda é o maior mercado”, afirmou. “Eu posso olhar a minha base e falar que 23% de crescimento é muito. Mas se eu olho o potencial da área em que eu estou e vejo que eu tenho 12%, 13% de market share, o que aparece é o potencial de crescimento”.
Outra parte do crédito, segundo ele, é da área de inovação da companhia. A Biotrop investe, em média, pouco mais de 10% de sua receita em pesquisa e desenvolvimento, o que, segundo o CEO, tem ajudado a desempatar decisões de produtores quando há disputas mais intensas em algumas classes de produtos.
No ano passado, foram € 15 milhões (o equivalente a mais de R$ 90 milhões) destinados à área, que conta com um time de 70 pesquisadores, incluindo biólogos, agrônomos, químicos, engenheiros de bioprocessos, bioinformatas e estatísticos, concentrados na BioOracle, uma fazenda em Santo Antonio da Posse, no inrerior de São Paulo, para onde Hipólito transferiu também a administração da empresa.
Lá, nos laboratórios da empresa, eles têm acesso a um banco com 4,3 mil cepas funcionais de microrganismos catalogadas.
“A gente investiu muito em patente, investiu muito em inovação de formulação, em novos produtos, e isso ajudou muito”, avaliou.
No ano passado, a companhia obteve três novas patentes. Para 2026, a expectativa é conseguir o registro de dez tecnologias “com alto potencial de impacto no manejo agrícola”.
Uma das metas da companhia é obter, a cada ano, 20% de sua receita com a comercialização de produtos que têm no máximo 24 meses, ou duas safras, de mercado.
Segundo Hipólito, essa meta tem sido consistentemente alcançada. Em 2025, por exemplo, a empresa se beneficiou pelo crescimento de demanda por uma das principais apostas da empresa, os biopesticidas para combater doenças transmitidas por insetos sugadores através do controle por manejo de lagartas.
Outro marco destacado por ele foi a entrada da Biotrop no algodão. E já com o lançamento, este ano, de uma inovação para o controle de uma das principais pragas da cultura, o bicudo-do-algodoeiro.
A partir da observação, na natureza, de um fungo capaz de inibir a proliferação do pequeno besouro que se alimenta das flores da planta, os pesquisadores da companhia desenvolveram uma formulação líquida em óleo dispersível para combatê-lo.
“Hoje a gente tem um programa de desenvolvimento muito focado no algodão e também na cana-de-açúcar, mas sempre mantendo a soja e o milho, que são nosso carro-chefe”, afirmou.
Hipólito citou ainda a expansão da cobertura de biofungicidas e biopesticidas e de novas tecnologias em uma linha de eficiência nutricional, que auxilia as plantas em questões de absorção de água e nutrientes, como maior fixação de nitrogênio e absorção de fósforo, por exemplo.
Para 2026, a Biotrop promete uma extensa lista de lançamentos, encabeçada por aquele que Hipólito afirmou ser “o primeiro bioherbicida do mundo em escala”.
Há também no pipeline uma linha de inseticidas para pragas de difícil controle no algodão e uma de fixação biológica de nitrogênio em não leguminosas.
Para cana, milho e trigo, será lançada, segundo ele, uma família nova de produtos com base de metabólitos. “Essa é uma das grandes linhas de investimento e de desenvolvimento da Biotrop”, apontou.
Expansão internacional
O ano do bilhão começou também com uma responsabilidade e um desafio a mais para o jovem CEO. No início de 2026 passou a ter efeito uma reformulação feita pela controladora Biofirst, que colocou sob o gurda-chuvas da Biotrop outra de suas controladas, a Bioworks.
Com sede nos Estados Unidos, a companhia tem foco em soluções biológicos para os cultivos de hortifrutis. Com ela, a Biotrop incorpora uma receita de cerca de € 20 milhões (pouco mais de R4 120 milhões), uma equipe de 40 profissionais nos Estados Unidos e 16 na Europa, além de mais unidades de produção.
“Para nós o que é interessante é que a Biotrop já vinha nesse processo de expansão internacional faz tempo”, afirmou Hipólito. A empresa brasileira tinha iniciado no ano passado a entrada nos Estados Unidos, onde conta com sete pessoas.
Além disso, já possui registros em andamento ou obtido em 14 países – Uruguai, Argentina, Paraguai, Chile, Colômbia, Equador, México, EUA e Canadá nas Américas e Portugal, Espanha, Itália, França e Grécia no Sul doa Europa.
“Se a gente se propõe a ser um gigante no setor de proteção de cultivos, é importante que a gente tenha uma presença internacional, que diversifique risco e culturas e aprenda com o que é feito lá fora”, disse.
“Nossa visão é de que essa expansão internacional traz aceleração, porque diversifica modos de pensar culturas e desafios e traz resiliência para o negócio no futuro”.
Hipólito acredita que o Brasil continuará sendo o maior mercado pelo menos pelos próximos 20 anos, mas vê potencial de crescimentos exponenciais tanto no campo interno como externo. Em oito anos, afirmou, a expectativa é ter um negócio de US$ 800 milhões (mais de R$ 4 bilhões) no País. “Então, Estados Unidos e Europa teriam de ser um negócio de US$ 200 milhões (R$ 1 bilhão), pelo menos.
Pela especificidade dos mercados em que atuam, as equipes de Bioworks e Biotrop continuarão atuando de forma independente. Mas as receitas correm para o mesmo cofre, permitindo, segundo o CEO, um menor efeito da sazonalidade no caixa da empresa.
Nas culturas atendidas pela Bioworks, de acordo com ele, os picos de receita acontecem nos meses de março, abril e maio, tipicamente de baixa no hemisfério sul.
Mesmo geograficamente, o cinturão dos grãos que a Biotrop pretende acessar nos Estados Unidos é distante dos territórios em que a Bioworks atua no país.
O olhar treinado para oportunidades, entretanto, mira o meio do caminho entre um e outro. “Tem um mundo ali que é o que a gente chama de Specialty Ag, que é o mercado de uvas, pistaches, amêndoas, batatas e morango, um mercado gigantesco nos Estados Unidos, de cultivo de valor agregado mas de campo aberto”.
Para ele, haveria aí um espaço ara a intersecção entre as duas empresas sob seu comando e que formaria o maior mercado potencial para biológicos nos Estados Unidos, estimado em US$ 1 bilhão.
Com a precocidade que marca a carreira de Hipólito, não é de se duvidar que, em breve, ele esteja fazendo negócios também por lá.
Resumo
- Fabricante de biológicos Biotrop cresce 23%, chega a R$ 900 milhões em receita e projeta superar R$ 1 bilhão em 2026
- Forte investimento em inovação e lançamento de novos biológicos impulsionam expansão do faturamento
- Incorporação da americana Bioworks, também controlada pela bela Biofirts, acelera internacionalização e diversificação de mercados