A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de considerar ilegais as tarifas impostas pelo governo americano, desde o ano passado, sobre produtos importados foi recebida com alívio pelos principais representantes de setores do agronegócio brasileiro afetados pelo “tarifaço” do presidente Donald Trump.
Ainda há dúvidas sobre como a gestão trumpista vai reagir ao veredicto do Judiciário americano, uma vez que há a possibilidade de o governo encontrar mecanismos legais para fazer valer sua política comercial.
Mas o fato é que, por seis votos a três, a maioria dos ministros da Corte americana entendeu que o presidente não poderia criar tarifas por conta, de acordo com o que diz a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, legislação que foi utilizada como base para a decisão de Trump, mas que, no entender dos juízes, veta a imposição de tarifas por ordem presidencial.
No Brasil, o agro brasileiro e suas empresas comemoram. Mesmo com o esvaziamento do tarifaço no segundo semestre de 2025 - que demorou, mas retirou commodities como carne e cafés das tarifas adicionais de 40% aplicadas diretamente ao Brasil (que acrescidas dos 10% iniciais somavam os 50%) - alguns setores ainda ficaram inclusos nos 50%.
Café solúvel, açúcar orgânico e pescados foram os exemplos mais impactados. No café, a ABIC (Associação Brasileira da Indústria de Café), se manifestou favorável à decisão da Suprema Corte americana. Segundo ela, a ação "reforça a segurança jurídica e o respeito às competências legais nas relações comerciais internacionais".
"Para a indústria do café, setor global e altamente integrado, previsibilidade, isonomia e regras claras são fundamentais para garantir estabilidade, investimentos e proteção ao consumidor. Medidas unilaterais geram incertezas e impactos ao longo de toda a cadeia produtiva", disse Pavel Cardoso, presidente da ABIC, em nota.
No ano passado, o as exportações de café solúvel para o mercado americano caíram 28,2%, para 558,7 mil sacas, segundo dados da Abics (Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel).
No café verde, que esteve incluso no tarifaço de agosto e novembro, a queda nos embarques foi de 55%, trazendo um impacto superior aos R$ 2 bilhões.
No ano passado, os americanos importaram 5,38 milhões de sacas, com queda de 33,9% em relação a 2024.
Nos pescados, Francisco Medeiros, presidente da PeixeBR, também considerou o movimento positivo. Em entrevista ao AgFeed, citou que percebeu uma certa paralisação do governo brasileiro nas negociações e que esperava alguma ação vinda do próprio EUA.
"Os Estados Unidos são o principal parceiro de exportação e estávamos nos preparando para a feira de Boston (Seafood Expo North America), que ocorre no próximo mês. Esperamos um movimento legal e isso [a decisão da Suprema Corte] muda totalmente a expectativa para 2026", disse.
"As empresas brasileiras estavam exportando mesmo com a tarifa e pagando para ver até onde essa história ia, e agora é possível incrementar as exportações. Temos um produto que os americanos compram com preços competitivos", acrescentou.
No ano passado, as exportações de peixe brasileiro aumentaram 2% em valor, para US$ 60 milhões, segundo dados da Embrapa Pesca e Aquicultura. Na relação com os EUA, o Brasil caiu uma colocação e passou a ser o quinto maior fornecedor de tilápia.
A mesmo tempo, o México tornou-se o quinto principal importador de tilápia do Brasil. A tilápia foi a terceira espécie da piscicultura mais importada pelo Brasil, com valor total de US$ 1,4 milhão. "Mudamos as rotas, mandávamos para o Canadá, o peixe era colocado num caminhão e ia para os EUA", citou o presidente da PeixeBR.
Segundo Medeiros, após a estabilidade vista em 2025 e com o tarifaço em vigor, a tendência para 2026 era de manutenção, mas com a mudança no jogo, pode haver um aumento.
A APRE Florestas (Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal) foi outra que avaliou positivamente a decisão da Suprema Corte dos EUA.
O presidente da APRE Florestas, Fabio Brun, afirmou que os produtos do setor florestal são fortemente dependentes do mercado americano e que a tarifa vinha impactando e muito as exportações.
Em nota, Brun ressaltou uma mensagem de cautela, e disse que existem várias alternativas que o governo americano ainda pode adotar, e nem todas garantem a revogação imediata das tarifas.
“O entendimento jurídico imposto pela Suprema Corte é uma resposta encorajadora. Seguimos com esperança de que as tarifas impostas aos produtos brasileiros sejam revogadas, mas é preciso acompanhar com atenção cada fase desse processo”, aponta o presidente da APRE Florestas.
Apesar das comemorações, há dúvidas sobre o que vem pela frente. Trump já declarou nesta tarde que possui um "plano B" e, independente do contragolpe presidencial, o estrago já foi feito nos últimos meses em diversas empresas e setores.
A possível conta a ser paga com a arrecadação dessas tarifas é estimada em US$ 175 bilhões, cerca de R$ 900 bilhões.
Nos Estados Unidos, uma série de empresas de pequeno porte contratou advogados e entrou com ações judiciais ou apresentou solicitações formais para obter algum tipo de reembolso com as perdas - mesmo antes da Suprema Corte emitir sua decisão.
O jornal The New York Times cita a organização We Pay the Tariffs, uma coalizão de mais de 800 empresas, como uma das que exigiu reembolsos rápidos. “Uma vitória legal não tem significado algum sem um alívio real para as empresas que pagaram essas tarifas”, afirmou o grupo em comunicado.
Algumas empresas do agro calcularam suas perdas com o tarifaço. Ao divulgar seu balanço do ano de 2025, a John Deere projetou que as tarifas seguiriam prejudicando a empresa em 2026, com um impacto tarifário pré-impostos estimado em cerca de US$ 1,2 bilhão neste ano, ο dobro dos quase US$ 600 milhões registrados ao longo de 2025. Somado a um cenário de vendas mais fracas, o lucro da empresa ano passado caiu 30%.
A sucroenergética Jalles foi impactada no tarifaço em seu segmento de açúcar orgânico. A companhia informou, em agosto do ano passado, que estimava perdas financeiras de R$ 20 milhões a R$ 25 milhões, em razão da reclassificação de 15 mil a 20 mil toneladas originalmente destinadas à exportação, que passaram a ser rotuladas como açúcar cristal para comercialização no mercado interno, com menor valor agregado.
Até a adoção da medida, a Jalles dizia que a perspectiva era positiva para o produto, com preços e volumes de comercialização em alta.
A trading ADM, que viu seu lucro cair 40% em 2025, pontuou em seu balanço que a ausência da China na compra de soja americano foi um dos fatores que pressionou os números. A relação entre China, EUA e soja é outro fator que ganha uma interrogação a partir de agora.
As tarifas elevaram as tensões comerciais entre americanos e chineses, o que motivou os asiáticos a comprarem ainda mais soja vinda do Brasil. Em meados de outubro, China e Estados Unidos sinalizaram uma normalidade, com um anúncio para comprar 12 milhões de toneladas da oleaginosa ainda no ano passado e outras 25 milhões por ano até 2028, retomando um fluxo de comércio mais regular.
E com a ilegalidade das tarifas? O analista de commodities e fundador da Pine Agronegócios, Alessandro Delara, acredita que, sem as tarifas, Pequim pode entender que o acordo fechado no ano passado perdeu a utilidade, e pode voltar a comprar soja americana só se o preço for atrativo.
"Já adianto que o Brasil é muito mais barato, tanto devido aos prêmios, quanto ao frete marítimo. O Brasil é, na média US$ 14 por tonelada mais barato em relação ao preço no Golfo dos EUA", disse, em seu perfil no X, antigo Twitter.
Com reportagem de Italo Bertão Filho
Resumo
- Decisão que derruba o “tarifaço” foi recebida com alívio por setores como café, pescados e base florestal, que sofreram quedas expressivas nas exportações e perdas milionárias
- Empresas como John Deere, Jalles e ADM já haviam contabilizado impactos bilionários, enquanto o agro brasileiro redirecionava fluxos comerciais em meio às tensões entre EUA e China
- Apesar do alívio, há incerteza sobre um possível “plano B” da Casa Branca e sobre como a mudança pode afetar acordos recentes, especialmente no mercado global de soja