Não faltou tentativa até a conversa acontecer. O primeiro horário caiu. O segundo, também. A ligação só saiu dias depois, já no fim da tarde, em meio a uma agenda apertada. Quando finalmente atendeu, Vinicius Carvalho resumiu o momento da Agronorte em uma frase: “Trabalho não vai faltar esse ano”.
O comentário resume bem o momento da Agronorte. A pequena revenda comprada pelo pai de Vinicius, Gilmar Carvalho, nos anos 1980 se tornou uma gigante do segmento de nutrição animal no Norte e Nordeste do País, com operações também em armazenagem, trading, logística, fazendas de pecuária, psicultura e até postos de combustível. Agora, está prestes a dar o maior salto de sua história.
A empresa adquiriu recentemente uma fábrica de ração da trading americana ADM em Três Corações, no interior de Minas Gerais. Mais do que uma aquisição pontual, o movimento reposiciona o grupo em outra escala e muda o centro de gravidade da operação.
A unidade, uma das maiores do País em nutrição animal, tem capacidade instalada para produzir até 520 mil toneladas por ano - mas só produzia cerca de 200 mil toneladas com a antiga dona.
O negócio dobra a produção de rações da Agronorte e deve adicionar até R$ 400 milhões ao faturamento já em 2026, segundo projeções da própria companhia. Em 2025, a receita ficou próxima dos R$ 1,3 bilhão.
De acordo com Vinicius Carvalho, diretor da empresa, a oportunidade veio em um momento em que a Agronorte já avaliava ampliar sua capacidade produtiva.
“A gente estava com um projeto de construir uma fábrica nova no sul do Tocantins, porque a unidade de Tocantinópolis já está próxima do limite. No meio desse trâmite apareceu essa oportunidade e partimos para um mercado consumidor muito mais robusto”, afirmou em entrevista ao AgFeed.
Segundo ele, a fábrica mineira é oito vezes maior do que a unidade que a empresa opera hoje. "A ideia é duplicar o tamanho da Agronorte em até três anos". A transação ainda precisa passar pelo Cade, em rito sumário.
Por mais que a aquisição seja transformadora para a companhia, a investida deve gerar pouca alavancagem ao negócio. A expectativa é que a relação entre a dívida líquida e o Ebtida encerre o ano abaixo de 2 vezes, levemente acima de 1,7 vez vista em 2025.
O valor da transação não foi divulgado, mas segundo apuração do jornal Valor Econômico, ficou "bem abaixo" do pedido inicial da ADM, de cerca de R$ 1,5 bilhão. A trading resolveu encerrar as atividades da unidade em 2025, citando um prejuízo com o negócio.
A empresa americana contratou o banco Barclays para buscar o comprador e, segundo uma reportagem do site Neofeed de janeiro de 2025, a ideia era fazer uma limpeza em seu portfólio pet. Uma fonte ouvida pelo site citou que a divisão trazia uma receita de R$ 1,1 bi mas dava prejuízos na casa dos R$ 100 milhões.
Crise para uns, oportunidade para outros. Para aproveitá-la, Carvalho cita um bom dever de casa sendo feito na companhia. Ele afirma que a empresa vem crescendo dois dígitos em praticamente todas suas linhas de negócio nos últimos cinco anos. "Mesmo antes dessa aquisição, o planejamento era de manter esse mesmo ritmo", conta.
“O tempo pesa muito. Para construir uma fábrica nova, você fala em dois anos e meio só de obra, fora o ramp-up operacional. Aqui estamos falando de uma planta que já existe, com todo um histórico e inserção comercial”, diz Carvalho.
A unidade de Três Corações tem como principal linha a produção de ração para pets, mas também fabrica produtos para peixes e ruminantes. A ideia da Agronorte é manter o portfólio já existente na planta e integrá-lo ao mix atual do grupo, sem alterar a lógica de atuação.
Até aqui, a presença da empresa era fortemente concentrada no Norte e no Nordeste, com atuação em 11 estados. A compra representa, na prática, uma virada de chave. “A gente sempre falou em avançar para Goiás e norte de Minas. São Paulo, por exemplo, não estava no radar. Agora, de fato, passamos a ter uma abrangência nacional, até no Sul”, diz Carvalho.
A julgar pelos últimos anos, a Agronorte é uma companhia em franca expansão. Em conversa anterior do AgFeed com o diretor, em maio de 2024, a companhia estava investindo R$ 135 milhões para construir uma nova fábrica em Gurupi (TO) e e alguns armazéns.
Enquanto a unidade produtiva atende um mercado de rações para para peixes, pets, bovinos (corte e leite), aves, suínos e equinos, os novos armazéns foram erguidos em Açailândia, no Maranhão, e em Bom Jesus, no Tocantins.
Fora do segmento de nutrição animal, os demais projetos de expansão da empresa - armazenagem, logística e trading - seguem a todo vapor. A exportação de grãos é um negócio de grande peso no balanço da Agronorte. Segundo Carvalho, foram 600 mil toneladas transacionadas no último ano, com exportações feitas principalmente pelo Porto do Itaqui, em São Luiz, no Maranhão.
Na logística, são três armazéns no Tocantins, e a meta é sempre adicionar, por ano, cerca de 35 mil toneladas de capacidade estática - seja via novos silos ou ampliando os existentes. A leitura é que o déficit de armazenagem no Norte e Nordeste segue elevado e cria espaço para operadores integrados.
Resumo
- Agronorte compra fábrica de ração da ADM em Três Corações e deve dobrar capacidade produtiva e faturamento em três anos
- Com capacidade instalada de 520 mil toneladas por ano, a planta leva o grupo do eixo Norte-Nordeste para uma atuação nacional, com presença efetiva em Minas, Sudeste e Sul.
- A aquisição da unidade de Três Corações pode acrescentar até R$ 400 milhões ao faturamento já em 2026, sobre uma base de R$ 1,3 bilhão