O mercado consumidor dos países árabes do Oriente Médio reúne quase 600 milhões de pessoas. Somando outras nações de população islâmica no norte da África e no sudeste asiático, forma-se um universo de 2 milhões de compradores para produtos halal – além de bilhões de dólares disponíveis em estratégias nacionais focadas em garantir segurança alimentar.

“É o mercado que cresce, com alta taxa de natalidade e um crescimento de renda per capita grande”, afirmou Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS, em conversa com jornalistas, por vídeo, neste domingo, 8 de fevereiro. “A taxa de crescimento [do consumo] de proteína tem muito a ver com o crescimento da renda. As duas coisas andam juntos”.

Segundo dados do Banco Mundial, a população da região que engloba o Oriente Médio e o norte da África deve crescer em 2026 a uma taxa entre 1,5% e 1,6% ao ano, o dobro do previsto para o crescimento gobal.

Não por acaso, Tomazoni falava direto de Omã, país com apenas 5 milhões de habitantes localizado na ponta sudoeste da Península Arábica, região que se tornou o epicentro da disputa de gigantes globais dos alimentos, sobretudo das companhias brasileiras baseadas nas proteínas animais.

Ali, a JBS, maior delas, acaba de dar seu segundo passo, apenas neste ano, para se posicionar como protagonista também nessa geografia. Na videoconferência, Tomazoni anunciou um investimento de US$ 150 milhões (cerca de R$ 780 milhões) na criação do que chamou de um “hub multiproteínas de exportação”, em parceria com a Oman Food Company (OFC), braço de investimentos em alimentos e agronegócio da Oman Investment Authority (OIA).

Parte dos recursos foi destinada à aquisição de uma participação de 80% em uma holding de alimentos recém-criada pela OFC, que manterá os demais 20% do negócio, agora uma joint-venture com a JBS.

A holding reúne dois ativos produtivos no país árabe, que agora receberão aportes, seja para a sua conclusão, no caso de uma unidade para processamento de aves, seja para revitalização e ampliação de outra planta para abate e corte de carbes de bovinos e de cordeiros.

Quando elas estiverem operando, devem mais do que dobrar a presença do grupo da família Batista no mercado halal nos próximos anos.

A primeira transação do ano, dentro da mesma estratégia, havia sido anunciada há pouco mais de duas semanas, com a inauguração – já com o anúncio de outro investimento relevante, de US$ 85 milhões (o equivalente a R$ 445 milhões), para a expansão – de uma planta em Jedá, na Arábia Saudita, com foco na produção e comercialização de produtos de maior valor agregado sob a marca Seara.

Além disso, a empresa já opera fábricas da Seara em Dammam, também na Arábia Saudita, e em Ras Al Khaimah, nos Emirados Árabes Unidos.

“O nosso momento aqui é construir uma plataforma muito competitiva para poder conquistar a preferência dos consumidores na região e para exportação para todo o mercado halal”, disse Tomazoni. “A iniciativa reforça a estratégia da JBS de diversificação geográfica e de proteínas, além da proximidade com mercados consumidores estratégicos”.

Segundo Tomazoni, o investimento em Omã surgiu como “uma oportunidade” de acelerar esse processo. Com a formação da joint-venture com a OFC, a empresa já recebe duas plantas que podem começar a operar em um prazo bem mais curto do que se fossem planejadas do zero.

Em seis meses, por exemplo, devem começar a ser distribuídos os primeiros cortes saídos da unidade para bovinos e cordeiros que antes pertenciam à Al Bashayer, no sul de Omã. Essa planta, segundo o executivo, já operou no passado, mas estava desativada e, agora, passará por uma readequação para ser reativada.

Junto a ela existe um confinamento, onde serão recebidos e terminados os animais vivos para o abate. A capacidade prevista é de mil cabeças de bovinos e 5 mil de ovinos por dia.

A outra planta, para o processamento de aves, foi construída pela empresa local A’Namaa, da holding OFC, e está localizada a aproximadamente 380 quilômetros de Mascate, capital do Omã, e, estrategicamente, a 280 quilômetros ao sul de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, um dos principais centros financeiros e entrepostos para exportação na região.

A unidade nunca chegou, no entanto, a funcionar. “Os equipamentos foram todos comprados, está tudo construído, mas a montagem não foi toda feita”, contou Tomazoni. “Então, vamos terminar a montagem desses equipamentos e fazer alterações que nós acreditamos serem adequadas para um aumento de produtividade”.

A expectativa dele é de que a produção da planta para frangos – que terá, quando concluída, capacidade para 600 mil aves por dia –, comece em um prazo de doze meses. O prazo é necessário porque, nesse caso, há uma série de investimentos paralelos a serem feitos, como a montagem de uma estrutura para a produção própria dos frangos – diferentemente do que acontece no Brasil, onde a Seara atua com produtores integrados – e também de uma fábrica de ração, que será abastecida pela estrutura global de grãos da JBS.

Nesse sentido, a localização da planta também é estratégia, próxima do porto de Sohar, por onde seria importados os grãos. “Toda a cadeia que vai pertencer à companhia”, apontou.

No caso dos bovinos, o desenvolvimento da cadeia também será necessário e envolverá geografias um pouco mais distantes. Nos últimos meses, segundo Tomazoni, equipes da área de originação da JBS visitaram propriedades de pecuaristas em países africanos, como a Etiópia, para identificar potenciais fornecedores capazes de entregar animais com a qualidade necessária para a operação.

“Vamos usar toda a expertise que temos do Brasil e na Austrália para desenvolver uma cadeia que seja uma cadeia que tenha regularidade e padronização de qualidade de produto. Tudo está nos planos, já foi mapeado”, afirmou.

Hoje, disse, já existe uma rota de exportação de gado africano para o Oriente Médio, que deve ser intensificada com a chegada de um player como a JBS. “Vamos dar escala a esse processo”.

Alternativa geopolítica

As duas unidades, somadas, devem gerar uma quantidade estimada de 3 mil empregos diretos. É quase o dobro dos 1,6 mil que a JBS mantém atualmente na região.

Mais do que a oferta de empregos, entretanto, ao convidar a JBS a investir no país o governo do Sultanato de Omã visava trazer um grupo de peso global para dentro de sua estratégia de fortalecimento da segurança alimentar, batizada de Visão 2040.

No investimento feito em Jedá também houve um alinhamento semelhante, inclusive no nome, com a estratégia Visão 2030 do governo da Arábia Saudita.

Iniciativas como essas entraram em sintonia com a mudança de estratégia da JBS em relação ao Oriente Médio. Os primeiros investimentos da companhia na região, de acordo com Tomazoni, foi feito em unidades para a produção de produtos processados, utilizando a matéria-prima importada do Brasil, ou vendendo diretamente produtos in-natura ou com marca saídos das fábricas brasileiras.

“Mas a gente achava que era importante estarmos na parte inicial da cadeia, porque todos os países eles têm uma estratégia de segurança alimentar”, disse.

Além disso, preocupações com o impacto de questões geopolíticas sobre os mercados também motivaram o reforço dos planos de produção local.

“A gente não sabe por quanto tempo vai ser competitivo, se vai ser possível ficar exportando. Para ser realmente competitivo, para construir marca, tem que estar no local,
é uma vantagem competitiva importante”.

Tomazoni disse ter ficado “honrado” com o convite de Omã para fazer parte da estratégia do país. “Acho que eles viram na JBS essa capacidade de produzir competitivamente”.

A OFC, por sua vez, possui participações em 15 empresas e já atua em parceria com operadores internacionais em outros mercados de alimentos, como lácteos, aquicultura e ração animal, com exportações para 50 países, o que a tornou um parceiro importante nos planos da companhia brasileira.

“Omã é um mercado que tem grande diversificação e a gente pode daqui acessar outros mercados”, afirmou. “Mas não paramos aqui. Vamos continuar investindo, porque decidimos construir uma plataforma, o que é diferente de você fazer um investimento spot”. Afina, há 2 bilhões de consumidores com apetite para mais proteína.

Resumo

  • JBS anunciou investimento de US$ 150 milhões em Omã para criar um hub multiproteínas halal, reforçando estratégia no Oriente Médio.
  • Com duas plantas para processamento de de aves, bovinos e cordeiros, joint-venture com a OFC deve mais que dobrar a presença da companhia na região
  • O movimento faz parte da diversificação geográfica da JBS, mirando um mercado de até 2 bilhões de consumidores islâmicos