Adotar práticas sustentáveis como o plantio direto e o uso de biológicos e ser remunerado (a mais) por isso. É o sonho de todo o produtor rural brasileiro, mas que quase sempre ainda se coloca como uma marca distante a ser alcançada.

A empresa americana Indigo Ag, que se destaca globalmente no mercado de biológicos e também nas ferramentas para projetos de carbono, garante que já tem agricultor no Brasil recebendo o dinheiro “na conta”, pra valer.

O projeto se chama “Source” e já existia nos Estados Unidos há pelo menos cinco anos. No Brasil, foi lançado no início de 2025.

É uma lógica inversa do que tem sido visto no Brasil. Normalmente, produtores se associam a tradings em programas de agricultura regenerativa. E só depois se espera que, lá na ponta, na indústria de alimentos e bebidas, por exemplo, alguma empresa tope participar e ajude, quem sabe, a “pagar um prêmio”, por esse produto agrícola de baixo carbono.

No caso da Indigo Ag, por ser conhecida nos EUA como uma empresa de soluções em sustentabilidade, ela mesma já possui uma ferramenta de MRV (que na sigla indica a capacidade de mensurar, reportar e verificar), capaz de calcular a redução do carbono.

Por isso, diz estar cada vez mais recebendo a demanda de grandes grupos da indústria ou do varejo de alimentos.

“Esse player busca a Indigo, porque eles já fizeram seus compromissos (de descarbonização) mas eles não têm capacidade de fazer esse processo de mensuração com qualidade tendo esse trabalho mais intensivo, de ponta a ponta, até porque os fornecedores variam. Esse trabalho é o que a Indigo faz”, explicou Guilherme Raucci, responsável pelo programa na América Latina, em entrevista exclusiva ao AgFeed.

O executivo afirma que essa demanda externa, por enquanto, está vindo mais do setor de alimentos e bebidas. As empresas estão cada vez mais próximas das datas que estabeleceram para reduzir drasticamente ou mesmo zerar suas emissões de carbono, por isso precisariam de soluções rápidas e eficientes, que envolvam toda a cadeia.

É o que o mercado chama de “estratégia insetting”, quando as empresas realizam projetos de gestão de emissões dentro de sua própria cadeia de valor (escopo 3, de acordo com GHG Protocol).

A Indigo Ag está comunicando ao mercado que, na safra 2024/2025 e na safra atual, alcançou a marca de 16 mil hectares participantes do programa, com produtores de soja, milho e arroz do Brasil e da Argentina.

Segundo a empresa, já estão sendo repassados R$ 10 milhões aos agricultores, por meio de pagamento direto, que não envolve participação de tradings ou outras indústrias. A Indigo não revela qual o número de produtores.

Isso é possível porque empresas que estão na ponta da cadeia, que vendem os alimentos ao consumidor, contrataram a Indigo para receber essa “redução de carbono” em seus balanços.

"A empresa precisa fazer esse reporte climático, então o nosso programa está diretamente fazendo essa ponte", destacou.

Cada produtor estaria recebendo um pagamento equivalente a algo entre 2% e 5% de prêmio sobre o valor de mercado da commodity.

A Indigo não revela quais seriam as multinacionais envolvidas, especificamente, nos pagamentos que estão sendo gerados aos produtores da América Latina.

O fato é que o pagamento não ocorre na hora que o produtor entrega o grão, fisicamente, já que a Indigo não está fazendo diretamente a originação destas commodities. O prêmio é pago ao final dos processos de mensuração e validação, pela própria Indigo.

Segundo Raucci, aquelas empresas que já têm amplo relacionamento nos EUA acabam saindo na frente. Ele cita como exemplos o Walmart e a AB Inbev, mas ressalva que há cerca de 50 empresas parceiras envolvidas em projetos similares.

Meta é dobrar de tamanho

As áreas agrícolas inscritas no programa recebem assistência técnica da equipe da Indigo que, no Brasil, vem se atuando também na venda de insumos biológicos.

Guilherme Raucci deixa claro que não há nenhuma obrigatoriedade ou relação direta entre a compra do insumo da empresa e a inscrição no programa.

A sinergia ocorre apenas pelo fato de as equipes de campo ajudarem a dar suporte nas visitas aos agricultores, auxiliando na adoção de práticas mais sustentáveis.

São consideradas práticas elegíveis ao programa atividades como o plantio direto, o cultivo de plantas de cobertura, o uso racional de fertilizantes e, também, a maior adoção de biológicos.

“O programa tem esse incentivo pelo volume (de grãos) que está sendo demandado. A gente desenha a estrutura para cada nível que o produtor atinge e eu faço um pagamento para esse nível - tem o de entrada, o intermediário ou o avançado”, disse Raucci.

“Não é zero e 1, não exclui ninguém do processo. Quem está começando tem uma chance, mas ainda é menor. E quem já consegue adotar mais, o valor é maior.”

Os primeiros contratos foram feitos por 2 anos, por isso se encerram nessa safra 2025/2026. O diretor da Indigo disse ao AgFeed que espera, no ciclo 2026/2027, conseguir dobrar o volume de inscritos e parceiros no programa Source.

A expectativa se baseia principalmente no fato de a empresa contar com “bastante track record”, ou seja, são projetos que já estariam rodando bastante nos EUA e que geram um histórico documento de desempenho do que já foi feito. É algo que reduziria o risco e aumentaria o apetite destas multinacionais de passar a fazer o mesmo na América Latina.

A empresa divulgou o nome de um dos produtores rurais brasileiros contemplados pelo programa. É o Grupo Teles, uma empresa agrícola que atua nos estados de Goiás, Mato Grosso e Pará, cultivando 48 mil hectares de soja e um total de aproximadamente 90 mil hectares por ano, incluindo rotações de segunda safra (safrinha) com milho, gergelim, sorgo e culturas de cobertura.

No comunicado da empresa, há uma citação de Lucas Teles, produtor e gestor do grupo: “Pela primeira vez, recebemos pela adoção de práticas sustentáveis, e isso mostra que existe um reconhecimento real do trabalho do produtor”.

Créditos de carbono também estão no radar

Há uma outra frente de projetos de carbono que poderá crescer, futuramente, também na América Latina. É o programa de carbono da “estratégia offseting”, que é quando uma empresa ou produto busca reduzir suas emissões residuais ao comprar créditos de carbono nos mercados, regulados e voluntários.

“É uma outra abordagem, o crédito de carbono tem toda uma estrutura metodológica diferente, são protocolos diferentes e tem uma esteira muito mais médio e longo prazo para ser construída”, ressaltou Raucci.

A vantagem é que o ajuste feito nas metodologias no projeto Source, para “tropicalizar” a análise, como dizem os especialistas, poderá ser aproveitada quando vierem as oportunidades de projetos de crédito de carbono.

A Indigo diz que a demanda tem sido maior pelo insetting, por isso a estratégia de lançar primeiro o projeto no Brasil, mas diz que já avalia parcerias para esta segunda etapa.

Há grandes chances de que a atuação, nos créditos de carbono, seja mais como um suporte para projetos já existentes. Seria uma ferramenta para atestar e dar credibilidade a esses créditos, à medida que já são realizados nos EUA.

“A gente não precisa ser a líder desse programa desde o início, mas ela (a Indigo) pode ser a fornecedora da mensuração, do reporte, apoiar a verificação desse projeto”, afirmou.

De qualquer forma, ele diz ainda pode demorar pelo menos 5 anos, para que se concretize no Brasil, esse tipo de iniciativa.

“Basicamente, o ferramental que a gente usa para fazer o técnico de modelos, ele alimenta os dois caminhos, alimenta esse projeto de source e alimenta o projeto de crédito. Mas esse é um horizonte que a gente dá de 5 anos, porque até o acúmulo de carbono no solo é muito lento, no ambiente tropical, então até para você fazer essa mensuração, hoje é um horizonte mínimo. Lá fora, a Indigo faz a gestão inteira do programa”.

Quando isso acontecer, o Indigo Carbon, bastante conhecido nos EUA, finalmente chegaria ao Brasil. O desejo é que, no futuro, seja possível fazer operações como a que foi divulgada no início desse ano. Foram adquiridos 2,85 milhões de créditos pela Microsoft, gerados pelo programa da Indigo.

Ele lembra que já há projetos que envolvem créditos de carbono no solo no em andamento no Brasil, mas acredita que eles, mesmo envolvendo grandes players, ainda encontram desafios.

“A gente percebe que um dos gaps dessas iniciativas está justamente numa mensuração e numa estruturação do MRV, para eles ganharem mais escalabilidade. Você pode medir o carbono no famoso medir e remedir, cava um buraco em um ano, daqui a cinco você volta lá. Mas isso é difícil fechar a conta, é um processo muito intensivo”.

Para o produtor rural, o modelo do offsetting tem um outro problema, que é a questão da “adicionalidade”. Quem já faz plantio direto há anos, por exemplo, não tem como gerar créditos a partir disso, porque não “adicionou” redução ao modelo que já existe.

“Aí existe esse modelo de inseting, onde a gente consegue associar diretamente aquela produção, incorporando benefícios que já foram usados, historicamente”.

Resumo

  • A Indigo Ag já repassou cerca de R$ 10 milhões a produtores do Brasil e da Argentina por adoção de práticas agrícolas sustentáveis
  • O programa Source conecta agricultores diretamente a empresas do varejo e da indústria que buscam reduzir emissões via insetting
  • A meta da empresa é dobrar a área e o número de participantes até a safra 2026/2027, com créditos de carbono no radar no longo prazo