Do mar para o campo. Fundada em 2015 por um time de oceanógrafos de Salvador (BA), a startup i4sea está de olho no agro brasileiro.
A empresa se especializou no que chama de "inteligência climática", e nesses 10 anos de atuação, conquistou clientes de peso: Porto de Santos, Porto do Açu, a mineradora Vale, operadores como a Wilson Sons, além de clientes internacionais, como o Porto de Roterdã e projetos de energia eólica offshore no Mar do Norte e no Báltico.
Na prática, a i4sea capta dados de radares, estações meteorológicas e boias marítimas e fornece previsões e insights hiperlocais de mar e tempo, com resolução de até 1 quilômetro, capazes de indicar janelas operacionais que variam de algumas horas a até 15 dias.
“Nosso trabalho é fazer com que pessoas e negócios estejam menos vulneráveis aos riscos climáticos. O desafio do clima já é agora, não no futuro”, afirmou Mateus Lima, cofundador e CEO da i4sea, em entrevista ao AgFeed.
Por mais que naturalmente beneficie empresas do agro com sua operação nos portos, a ideia é ir além, e atuar diretamente no setor nos próximos anos.
A decisão ganhou tração após a conclusão de uma rodada seed realizada em 2025, onde a startup captou R$ 7,5 milhões num aporte liderado pelo Fundo GovTech, gerido pela KPTL e Cedro Capital, com participação da Polaris Investimentos.
Por mais que haja uma clara e grande demanda do agro em entender melhor o tempo, Lima reconhece que o setor exige uma abordagem distinta da inteligência climática tradicional.
“No porto, muitas decisões são de curto prazo: horas ou dias. No agro, o planejamento é de meses ou até anos”, diz. "Ele não planeja uma safrinha com 10 dias de antecedência. Precisa saber qual semente comprar, qual cultura cultivar. Esse é um planejamento de seis meses", continua o CEO.
Segundo o executivo, o valor está em antecipar cenários de médio e longo prazo, capazes de influenciar escolhas estruturais - da escolha da semente ao seguro agrícola.
A i4sea já testou essa lógica em provas de conceito. Em uma delas, um produtor de soja na cidade de Canarana, no estado de Mato Grosso, recebeu a indicação de que enfrentaria uma safrinha mais quente e seca.
A recomendação da i4sea então foi trocar a cultura de milho por outra menos dependente de água, e o plantio escolhido foi de gergelim. “Na ocasião, em 2024, esse produtor viu amigos fazendeiros plantarem milho e perder parte da produção. Ele plantou gergelim e teve resultado”, relata Lima.
O desafio para ganhar mais tração no agro, reconhece o fundador, está em escalar essa inteligência para um setor ainda pouco acostumado a enxergar resiliência climática como investimento.
“Fizemos o teste mas demos uma pausa no agro, até porque nosso ticket médio chega a ser alto para o setor. O agro ainda tem cabeça de sentar e rezar. Poucas pessoas que tem uma cabeça que resiliência climática dá um benefício futuro", revela. A ideia agora é em dois anos ser atuante no setor.
Com o pé no freio, a empresa percebeu que para estar no setor precisaria de um produto mais escalável, e para isso, está desenvolvendo o que Mateus Lima chamou de "primeiro agente climático de IA no mundo".
Na prática, é um chatbot que recebe os dados do produtor - pacote de insumos, área, localidade, dados do negócio como terceirização de funcionários, tipo de maquinário - e devolve para ele a recomendação para algum cultivo futuro.
"A expectativa é que daqui dois anos, no começo de 2028 estejamos no Brasil inteiro já operando no agro. Ainda não temos metas, porque também nosso plano de negócios envolve consolidar a operação no setor de portos e navegação, além da expansão para a América Latina", afirma o CEO.
A origem da i4sea está nos mares. Fundada formalmente em 2015, a startup nasceu em meio a uma tragédia: o naufrágio da lancha Cavalo Marinho, na Baía de Todos-os-Santos, em 2017.
A startup auxiliou equipes de busca e salvamento nos portos, bombeiros e Marinha que ainda buscavam corpos remanescentes no oceano. Na ocasião, Lima e os outros fundadores colocaram seus modelos climáticos a serviço das equipes, ajudando a reduzir drasticamente a área de procura por vítimas.
O software rodava com os dados do oceano, vento e clima e indicava onde era mais provável do corpo aparecer naquele dia. “Ali ficou muito claro o que significa traduzir dado climático em decisão operacional”, cita Lima.
Desde então, a trajetória da empresa é de crescimento. Sem citar valores, Lima conta que a a receita da companhia avança em passos largos. Após crescer cerca de 60% ao ano antes da última captação, a i4sea acelerou para 80% em 2025 e projeta manter ritmo elevado até 2027, onde projeta dobrar de tamanho.
A expectativa é que, a partir de 2028, o agronegócio passe a responder por uma parcela relevante dessa expansão, impulsionado tanto pela escala no Brasil quanto pela internacionalização na América Latina. “O agro é a galinha dos ovos de ouro”, diz Lima.
“A gente conhece a dor, já vive isso nos portos com soja, milho, açúcar. A diferença é chegar mais mastigado para o produtor para que ele tenha uma tomada de decisão assertiva. Queremos fazer com que ele tenha a capacidade de tomar decisão sem nem precisar falar com alguém pelo telefone", finalizou o CEO da i4sea.
Resumo
- Criada em 2015, a i4sea desenvolveu inteligência climática hiperlocal (resolução de até 1 km) e atende gigantes como Porto de Santos, Vale e Porto de Roterdã, com crescimento de 80% em 2025
- Após captar R$ 7,5 milhões em seed liderada pela KPTL no ano passado, a startup passou a estruturar a entrada no agro, mirando decisões de médio e longo prazo como escolha de cultura, sementes e seguro
- A aposta é escalar via IA, com um “agente climático” para produtores, e fazer do agro um vetor relevante de crescimento a partir de 2028, no Brasil e na América Latina