A Sparta chegou ao ciclo mais recente de estresse no crédito do agronegócio fazendo exatamente o que sempre fez desde que nasceu, ainda nos anos 1990: evitando atalhos e com muita atenção na relação entre risco e retorno.

Em meio ao rebuliço da Faria Lima encontrando o agro com os dias de bonança no setor há alguns anos - e que hoje colhem, em alguns casos, RJs e inadimplências em suas carteiras - a gestora escolheu não correr.

Hoje com cerca de R$ 20 bilhões sob gestão e um Fiagro listado em Bolsa, a Sparta carrega uma história que antecede em décadas essa relação entre o agro e o mercado de capitais.

Fundada por Victor Nehmi, engenheiro agrônomo formado na Esalq/USP e um dos pioneiros da interseção entre mercado financeiro e agronegócio no Brasil, a empresa nasceu como um clube de commodities em 1993, antes de se transformar formalmente em gestora e entrar no mundo de crédito em meados dos anos 2000.

O agro não foi um tema que apareceu depois. Sempre esteve lá. "Quando começamos a frente de crédito há mais de uma década, o agro naturalmente fez parte da carteira", diz Marcio Takaya, sócio da Sparta e gestor do Sparta Fiagro (CRAA11) ao AgFeed.

"Sempre olhamos empresas do setor e o Fiagro foi um instrumento criado que dava uma condição vantajosa para o investidor", continuou.

Essa lógica ajuda a explicar por que o CRAA11 nunca se apresentou como um fundo feito para disputar os maiores retornos da vitrine.

Lançado em abril de 2023, o fundo não ficou isento da sangria vivida pelo setor ao final de 2024, é verdade. Depois de encerrar 2023 com suas cotas negociadas a cerca de R$ 100, sofreu junto com o mercado em 2024 e fechou o ano cotado a R$ 89,10. Assim como o mercado, recuperou parte das perdas e encerrou 2025 em R$ 95,46. No início de 2026, as cotas estão próximas de R$ 96,50.

Para a Sparta, a trajetória da cotação diz menos sobre erro de estratégia e mais sobre coerência. “Somos uma casa de crédito privado high grade”, afirma Takaya. Enquanto outras gestoras de Fiagros perseguem retornos acima de CDI + 5%, a gestora tem um retorno histórico próximo aos CDI + 2%.

"CDI + 5% não é uma conta que costuma fechar, na nossa visão. Levamos muito em conta o risco e esse é um componente importante pra colocar ativo dentro da carteira", afirmou o gestor do fundo.

O desenho do CRAA11 deixa isso claro: uma pulverização rara entre os players, tanto na quantidade de CRAs encarteirados quanto na diversificação de empresas e segmentos presentes. Uma característica, contudo, é certa: empresas gigantes em seus setores.

O último relatório gerencial do fundo, referente a novembro de 2025, apontava que o veículo somava um patrimônio líquido de R$ 240 milhões, espalhados em 110 ativos distribuídos em 21 segmentos distintos, com a maior posição representando apenas 3,5% do patrimônio. Mais de 90% das empresas investidas faturam acima de R$ 1 bilhão por ano, um filtro que, segundo o gestor, funciona como uma primeira linha de defesa.

“Mesmo sendo um Fiagro, não somos um fundo de produtor rural. Temos muitas agroindústrias, pois são players que conseguem repassar eventualmente alguma volatilidade de preços de grãos e também transformam commodity num produto final. Estão menos expostos à volatilidade", diz Takaya. 

No portfólio, a fala fica clara: CRAs de empresas gigantes exportadoras como JBS, Eldorado Celulose, Minerva, CaramuruBRF, Klabin e SLC Agrícola. Dentre gigantes nacionais estão Jotabasso, São Salvador Alimentos, Cocal, Jalles Machado e GTFoods.

Dentre as cooperativas, a estratégia segue sendo de players verticalizados, como Cooxupé, C.Vale, Lar e Integrada.

"Gostamos muito de cooperativas, mas as que temos no portóflio são quelas que também são agroindústrias. Possuem cooperados, mas também um parque industrial verticalizado ao longo da cadeia, além de serem de porte nacional e não estarem expostas a um único segmento", disse Takaya.

No relatório gerencial de novembro a própria Sparta faz questão de citar que adquiriu um CRA da C.Vale, cooperativa com faturamento superior aos R$ 20 bilhões. 

Na visão de Takaya, essa escolha seletiva ajuda o Fiagro da Sparta a passar sem problemas de crédito, sejam RJs ou inadimplências e renegociações, na carteira.  "É uma receita que dá certo. Seguimos a mesma cartilha em 2025 e continuaremos em 2026: empresas high grade, boas pagadoras de crédito. Trazemos um spread de crédito menor, mas um risco também substancialmente menor", conta.

O portfólio é gerido quase que diariamente, com a Sparta sempre comprando e vendendo ativos no mercado secundário. Tanto que, se olharmos o relatório gerencial do final de 2024, o patrimônio líquido se mantém na faixa dos R$ 240 milhões, mas a quantidade de CRAs encarteirados saiu de 89 para os atuais 110.

A estratégia é ir adequando a melhor relação risco/retorno em tempo real, reavaliando constantemente os ativos. Tanto que, ao longo de 2025, Takaya conta que a gestão reduziu sua exposição a revendas e produtores rurais finais - focando mais nas agroindústrias.  Ao final de 2024, por exemplo, a o fundo possuía CRAs da Belagrícola, que foram vendidos ao longo de 2025.

Para 2026, o tom segue deliberadamente cauteloso. “O cenário do agro deve continuar difícil, assim como foi em 2024 e 2025. Esperamos uma safra boa, especialmente em grãos, mas com margens comprimidas. Isso exige atenção do ponto de vista de risco", disse o gestor.

A resposta da Sparta, segundo ele, não muda. O CRAA11 seguirá com um portfólio composto por "grande sempresas, líderes de segmento e players verticalizados". Ao olhar o mercado, contudo, ele vê um humor mais favorável aos fundos agro como um todo.

Por mais que 2025 tenha sido marcado por uma retomada no preço das cotas dos Fiagros listados, ainda existem muitos fundos descontados.

No mercado de capitais, uma forma de avaliar uma espécie de "preço justo" da ação ou da cota de um fundo é dividir o valor patrimonial do mesmo pela quantidade de cotas que ele possui no mercado. No CRAA11, esse preço justo, chamado de "cota patrimonial" estava em R$ 101,75 ao final de novembro. Acontece que, na B3, a cota vale cerca de R$ 96. Portanto, há um deságio entre o preço negociado e esse "preço justo".

“Quem compra a cota hoje está levando uma carteira que rende acima de CDI +3%, ajustando pelo deságio”, explica. Esse descompasso é o que impede as gestoras - incluindo a Sparta - de fazerem novos follow-ons em seus Fiagros, acredita o gestor.

A Sparta aumentou o capital do seu fundo pela última vez em 2024, quando captou R$ 200 milhões com investidores, já num momento em que o mar não estava tanto assim para peixes quanto em anos anteriores. Ao final daquele ano, chegou a anunciar outro follow-on de mesmo montante, mas voltou atrás com o mercado mais desafiador.

“Follow-on é sempre em função de preço. Se a cota convergir para um patamar adequado e o mercado de ativos estiver favorável, podemos estudar. Não é algo automático”, citou Takaya ao projetar 2026.

Depois de um período em que muitos Fiagros tropeçaram, a avaliação da casa é que 2026 tende a aprofundar a separação entre os fundos.

"Existem alguns fundos que em 2025 tiveram problemas, mas existem alguns Fiagros se destacando nesse bolo sem problemas de crédito. São fundos com performances consistentes em patamares remuneradores. Imagino que em 2026 esses Fiagros que fugiram de problemas façam novas ofertas", projetou.

Resumo

  • A Sparta gere cerca de R$ 20 bilhões e o CRAA11 soma R$ 240 milhões, com 110 CRAs pulverizados em 21 segmentos; a maior posição representa só 3,5% do patrimônio
  • O Fiagro entrega retorno histórico próximo de CDI +2% a +3%, evitando estratégias de maior risco; mais de 90% das empresas investidas faturam acima de R$ 1 bilhão ao ano.
  • Para 2026, a casa mantém postura cautelosa, focada em agroindústrias e players verticalizados, enquanto o deságio da cota ainda trava novos follow-ons