Na Syngenta, a estratégia para driblar o preço baixo das commodities e a consequente dificuldade no agro em diversas regiões é apostar nas margens.

De acordo com o balanço divulgado pela empresa nesta terça-feira, 31 de março, as vendas da Syngenta somaram US$ 28,4 bilhões (quase R$ 150 bilhões pela cotação atual) no ano passado, um recuo de 1% em relação a 2024.

Desconsiderando a redução da operação de trading de grãos, que retirou cerca de US$ 1 bilhão da receita, o faturamento teria crescido aproximadamente 2% no período.

Apesar da retração nominal, o resultado operacional avançou. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) do ano subiu 13%, para US$ 4,4 bilhões, com expansão de 1,9 ponto percentual na margem, que chegou a 15,4%.

O movimento reflete uma mudança no mix de negócios da empresa, controlada pela estatal chinesa ChemChina, com maior peso de produtos e operações de maior valor agregado, além de maior disciplina na alocação de capital.

A Syngenta explica no balanço que a redução de receita está ligada à revisão do portfólio, com menor exposição a operações como o trading de grãos, enquanto áreas como defensivos, sementes e biológicos ganharam mais relevância na composição dos resultados.

"O negócio de comercialização de grãos sofreu uma redução estratégica planejada de 68%, principalmente devido à redução estratégica contínua de atividades de menor margem. O negócio MAP também passou por uma transformação estratégica para se concentrar em modelos de serviço de maior margem", exemplificou a empresa no balanço.

A divisão de defensivos agrícolas (Crop Protection), principal negócio da companhia, registrou receita de US$ 13,7 bilhões, alta de 4%, impulsionada por volumes e novos produtos, mesmo com pressão de preços em mercados relevantes, incluindo o Brasil.

"Os volumes totais aumentaram à medida que a normalização dos estoques nos canais de distribuição se materializou nos principais mercados, enquanto as pressões sobre os preços permaneceram, principalmente no Brasil e na América Latina", diz o balanço.

No País, as vendas recuaram 1%, e no continente, 3%. A Syngenta cita, além de uma pressão de preços por conta do mercado de genéricos, efeitos cambiais desfavoráveis. Apesar disso, aponta que a rentabilidade aumentou em todas as regiões ao longo do ano.

Em entrevista recente ao AgFeed, o presidente da unidade de Crop Protection da Syngenta para o Brasil, André Savino, projetou um 2026 ainda de ajuste no agro, com juros altos, crédito restrito e menor expansão de área.

Para ele, produtores devem focar em eficiência e em novas tecnologias com maior retorno sobre investimento. Savino ainda analisou que a guerra no Irã já traz efeitos indiretos ao setor, pressionando custos logísticos e fertilizantes.

O maior crescimento nesse segmento, segundo a Syngenta, foi puxado principalmente pela América do Norte, com alta de 10%, além de avanços na China e em regiões como Europa, África e Oriente Médio.

Na divisão de sementes, a receita somou US$ 4,8 bilhões, avanço de 2%, com destaque para o desempenho no hemisfério sul. No Brasil, as vendas cresceram 17%, enquanto a América Latina avançou 10%, refletindo ganho de participação de mercado e novos lançamentos.

Já a operação na América do Norte recuou 12%, impactada por reestruturações ao longo do ano. A unidade da China apresentou queda mais relevante, com receita de US$ 8,3 bilhões, recuo de 10%, refletindo principalmente a redução planejada do negócio de trading de grãos, que caiu 68% no período.

Apesar disso, segmentos estratégicos dentro da operação chinesa, como sementes e produtos formulados, mantiveram crescimento, reforçando a mudança estrutural no perfil da companhia.

A Adama, braço de defensivos genéricos (pós-patente), registrou receita de US$ 4,1 bilhões, queda de 2%, ainda impactada por um ambiente mais competitivo para produtos genéricos, embora com melhora gradual de margens ao longo do ano.

A Syngenta ainda informou que o negócio de biológicos cresceu dois dígitos em vendas ao longo de 2025, refletindo uma demanda principalmente por biocontroladores, bioestimulantes e produtos para eficiência nutricional.

De acordo com o documento, a nova unidade de produção em Orangeburg, na Carolina do Sul (EUA), irá "fortalecer ainda mais a rede global de fabricação de produtos biológicos da Syngenta", que já conta com unidades no Brasil, Itália, Índia e Noruega.

Mesmo com a alta no ano, os resultados do quarto trimestre mostraram maior pressão. O Ebitda caiu 16% na comparação anual, para US$ 900 milhões, impactado por reestruturações e um aumento de provisões de crédito - especialmente no Brasil.

A Syngenta ainda informou algumas mudanças na diretoria. A companhia nomeou Nelson Jiang, ex-CEO da Sinochem, como CFO da empresa e Hengde Qin para o recém-criado cargo de diretor de operações. A ideia é buscar mais eficiência diante de um mercado mais complexo, informou a empresa.

Resumo

  • Receita da Syngenta recuou 1% (US$ 28,4 bi) em 2025, mas Ebitda cresce 13% (US$ 4,4 bi) e margem sobe para 15,4%, refletindo mudança estratégica para negócios mais rentáveis
  • Empresa reduz exposição a trading e reforça portfólio em defensivos, sementes e biológicos, com ganhos de rentabilidade mesmo em mercados pressionados como Brasil e América Latina
  • Crop Protection cresce 4% (US$ 13,7 bi) e sementes avançam no Brasil (+17%), enquanto biológicos têm expansão de dois dígitos