Um diálogo mais proativo para decidir sobre pautas urgentes do agronegócio, principalmente o endividamento. É o que defende o empresário Carlos Augustin, ex-assessor especial do Ministério da Agricultura, durante a gestão de Carlos Fávaro, e ainda próximo da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), por ter sido o fundador do Instituto Pensar Agro, que dá suporte aos parlamentares.
Proprietário da Sementes Petrovina, de Rondonópolis (MT), ele conhece bem as dificuldades dos produtores da região, nos últimos anos, em meio a margens apertadas e alto endividamento.
Em entrevista ao AgFeed, Carlos Augustin, que no meio agro é conhecido como “Teti”, disse que parlamentares e governo devem agir de forma proativa, com mais boa vontade, deixando diferenças da eleição de lado, para tratar de questões graves que ainda não foram resolvidas, como as dívidas agrícolas.
“Temos problemas demais pra ficar brigando, o endividamento está seríssimo e o dinheiro do Plano Safra está empoçado”, alertou.
Ele diz ter ficado animado com última reunião da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), onde o presidente Pedro Lupion defendeu “virar a página das eleições” e disposição em manter diálogo com o governo nas pautas do agronegócio.
Augustin defende que se avance com urgência em negociações para que instituições como Banco do Brasil e Caixa voltem a liberar recursos do Plano Safra, que estariam represados, mesmo após a edição da MP 1376, aprovada em julho.
Na época, o governo estimava que R$ 100 bilhões em dívidas poderiam ser renegociadas, mas na prática os acordos foram tímidos e avançaram lentamente, demonstrando que os bancos seguem receosos em voltar a liberar crédito para produtores endividados, alegando riscos elevados, em meio a inadimplência ainda alta no setor.
“O banco não consegue aplicar os recursos pela deterioração financeira do agricultor”, ponderou Augustin.
Em reportagem recente com o Banco do Brasil, o site Globo Rural mostrou que entre julho e outubro deste ano (meses cruciais para o custeio da safra 26/27) os desembolsos de crédito rural da instituição haviam recuado mais de 44% na comparação com o mesmo período de 2025, especialmente no financiamento de grandes produtores e via CPRs (Cédula do Produtor Rural).
Para o ex-assessor do Mapa, a MP 1314 editada no ano passado e essa de 2026 “não deram certo”, por isso é necessária “uma readequação do endividamento muito grande”.
Um dos problemas, segundo ele, é que no cenário preocupante os preços das terras estão caindo. Por isso, instituições como a Caixa “estão reavaliando as garantias”, ou seja, o produtor que antes talvez estivesse apto a receber o recurso pode ser encluído novamente.
Nesse cenário, alerta Augustin, o produtor que pagou a dívida no banco mas não conseguiu recurso para a safra seguinte, “fica sem alternativa se não a RJ”.
Fundo Garantidor com estados
Como uma das soluções para enfrentar o endividamento Carlos Augustin defende a criação do Fundo Garantidor de Crédito, que conte com aportes da União e também dos estados que estejam dispostos em ajudar os agricultores prejudicados.
Na última MP, o fundo foi aprovado para os casos de renegociação, mas ele defende que seja algo mais amplo. A ideia é que o fundo abastecido com recursos públicos funcione como uma garantia parcial das operações de crédito rural.
Ele diz já ter conversado com governador eleito em Mato Grosso, Otaviano Pivetta, que estaria disposto a colaborar. E acredita que outros estados, como São Paulo, também possam se abrir para um diálogo sobre o tema.
O modelo do fundo é inspirado no que foi criado no perído da pandemia, garantindo crédito a pequenas e médias empresas, como o próprio secretário de política agrícola do Mapa, Guilherme Campos, já defendeu, em entrevista ao AgFeed.
“Já funciona para indústria e comércio, então não precisa fazer lei, dá para fazer uma readequação mais simples”, defendeu Augustin.
Ele lembra que esse modelo citado, o Pronampe, garantia aos bancos 88% do total que cada instituição havia emprestado. “Mas a proposta é não sobrecarregar só o governo federal”, ressaltou.
Em Mato Grosso, haveria a possibilidade de o governo estadual entrar com metade do aporte necessário.
Para que se renegocie R$ 4 bilhões por exemplo, seriam necessários R$ 400 milhões, metade disso viria do estado e a outra metade da União, segundo a hipótese levantada pelo empresário. “Se o governo tiver boa vontade, sai”, afirmou.
Seguindo esse raciocínio, se considerado o alvo de renegociar R$ 100 bilhões (plano Safra fica próximo de R$ 500 bi), ele calcula que o governo federal precisaria aportar R$ 5 bilhões “para dar um empurrão final no plano safra, o seria uma grande ajuda para o agricultor”.
O cenário para o ano que vem, no entanto, ainda seria de incerteza.
Readequação da escala 6x1 no campo
Outro tema que deve mobilizar esforços da FPA e de líderes do agro próximos do governo Lula é a busca de uma “adequação do fim da escala 6x1” para a agricultura.
“Para períodos de plantio e colheita é necessário permitir que haja escala 6x1, com banco de horas ou pagamento, mas não é para o ano inteiro”, explicou Carlos Augustin.
Ele alega que quando chove é preciso correr para plantar, por exemplo e o contrário também ocorre, não há plantio sem a condição climática necessária.
“Temos que achar uma alternativa sem cercear direitos do trabalhador”, frisou.
Seria mais um tema que demandará empenho do governo e da FPA. “Temos que trabalhar com mais bom senso das duas partes”.
Resumo
- Ex-assessor do Mapa alerta para o represamento de recursos do Plano Safra e defende medidas urgentes para renegociar dívidas rurais
- Empresário propõe fundo garantidor com participação dos governos federal e estaduais para ampliar o acesso dos produtores ao crédito
- Augustin também defende regras específicas para a escala 6x1 no campo durante períodos de plantio e colheita, preservando direitos trabalhistas