No Brasil, a agricultura familiar responde por mais de três quartos dos estabelecimentos agropecuários brasileiros e tem participação fundamental na produção de alimentos que chegam à mesa da população.
Mas, apesar dessa relevância, a maior parte dos pequenos produtores não tem acesso a crédito rural e assistência técnica para o desenvolvimento de suas atividades.
É o que aponta o levantamento Desigualdades estruturais e heterogeneidade da Agricultura Familiar no Brasil a partir do Censo Agropecuário 2017, da organização WRI Brasil, divulgado nesta quinta-feira, dia 15 de outubro.
O estudo indica que apenas 15,4% dos estabelecimentos da agricultura familiar têm acesso ao crédito rural. A assistência técnica chega a 18,2% das propriedades, enquanto somente 11,5% contam com tratores.
Em entrevista ao AgFeed, Virginia Antonioli, gerente sênior de Sistemas Alimentares Sustentáveis no Programa de Florestas e Uso da Terra do WRI Brasil e uma das coordenadoras do estudo, explica que a dificuldade de acesso aos recursos produtivos não está necessariamente relacionada apenas à disponibilidade de dinheiro.
Em muitos casos, o problema está na estrutura dos sistemas públicos e privados responsáveis por fazer esses recursos chegarem até os agricultores.
“A capilaridade dos sistemas de apoio à agricultura familiar não acompanha a capilaridade e a diversidade da própria categoria dos agricultores familiares”, afirma Antonioli.
De acordo com a pesquisadora, essa diferença ajuda a explicar por que programas de financiamento e assistência técnica nem sempre conseguem atender às necessidades de produtores distribuídos por diferentes regiões e cadeias produtivas.
"Muitas vezes, ou não existe essa disponibilidade, nem da assistência técnica pública, nem da privada, ou a assistência técnica não atende as necessidades desses produtores por serem culturas bastante diversas, com territórios diversos", diz Antonioli.
No crédito rural, um ponto que atravanca o acesso a financiamento é a heterogeneidade da agricultura familiar, aponta o WRI.
Enquanto grandes operações agrícolas costumam trabalhar com sistemas de produção mais padronizados, a agricultura familiar reúne atividades distintas, frequentemente desenvolvidas em uma mesma propriedade, o que exige soluções específicas.
“É muito difícil, às vezes, conseguir acessar crédito público com sistemas diversos de produção para você construir um projeto, para você conseguir crédito. De maneira geral, quanto mais homogêneo, melhor [para as instituições financeiras]”, explica a pesquisadora.
A burocracia também aparece como obstáculo. Virginia Antonioli aponta que os agentes responsáveis pela operacionalização das linhas de financiamento, incluindo recursos do Pronaf, nem sempre possuem estrutura suficiente para atender à diversidade de perfis produtivos encontrados no campo.
“A gente observa também uma baixa capacidade e capilaridade dos agentes que operacionalizam o crédito na ponta. Então, desde conseguir se fazer entender com esses produtores, o diálogo entre eles, o que se espera daquele crédito”, afirma a pesquisadora do WRI.
Na assistência técnica, a dificuldade é semelhante, mas com uma particularidade: a maior dependência dos agricultores familiares em relação aos serviços públicos, uma vez que muitos não possuem recursos para contratar consultorias privadas.
Para Virginia Antonioli, esse cenário também representa uma oportunidade de expansão para empresas privadas de assistência técnica, desde que adaptem seus modelos de atuação às particularidades desses produtores.
As desigualdades ficam ainda mais evidentes quando os dados são analisados regionalmente.
Entre os estabelecimentos familiares brasileiros que recebem assistência técnica, 46% estão localizados na região Sul, enquanto 24% ficam no Sudeste.
A região Nordeste concentra 19% dos atendidos, seguido pelo Norte, com 6%, e pelo Centro-Oeste, com 5%.
No crédito rural, o Nordeste concentra 39% dos estabelecimentos familiares que obtiveram financiamento, enquanto o Sul responde por 33%. O Sudeste aparece com 16%, seguido pelo Norte, com 7%, e pelo Centro-Oeste, com 5%.
Para compreender essas diferenças, o estudo identificou três perfis predominantes de agricultura familiar no País.
O primeiro está concentrado principalmente nas regiões Norte e Nordeste, reunindo estabelecimentos de menor área e acesso mais limitado à assistência técnica, financiamento e mecanização. Nessas regiões, também há maior presença relativa de mulheres e produtores e produtoras pretos e pardos, afirma o WRI.
O segundo aparece com maior frequência no Sul e Sudeste, onde os agricultores apresentam condições relativamente mais favoráveis de acesso a tecnologias e serviços de apoio. "Essas características são compatíveis com formas mais intensivas de inserção nos mercados, embora persistam desigualdades de gênero e cor", diz o estudo.
Já o terceiro está associado ao Centro-Oeste, região marcada pela expansão de culturas agrícolas em larga escala e pela maior concentração fundiária.
"Os agricultores familiares desse perfil apresentam níveis intermediários de acesso aos meios de produção, e convivendo também com restrições de acesso à assistência técnica, infraestrutura, tecnologia e crédito em um contexto de expansão de sistemas produtivos especializados."
Na avaliação de Virginia Antonioli, parte dessas diferenças está associada à própria trajetória histórica de ocupação e desenvolvimento econômico das regiões brasileiras.
Mas há também um componente relacionado à capacidade do poder público de reduzir desigualdades estruturais ao longo do tempo.
“A gente não trabalhou suficientemente rápido para reduzir desigualdades, essas desigualdades persistem”, avalia.
Apesar dessas restrições, a agricultura familiar continua desempenhando papel relevante na economia agropecuária brasileira.
Segundo o levantamento, a categoria representa aproximadamente 77% dos estabelecimentos rurais do País, embora ocupe apenas 23% da área destinada à agropecuária. Ainda assim, responde por 23% do Valor Bruto da Produção (VBP) nacional.
Em determinadas culturas agrícolas, a participação é muito maior. A agricultura familiar representa aproximadamente 80% do valor da produção brasileira de mandioca, 78,8% do açaí cultivado, 62,8% do leite de vaca e 55,1% do cacau.
No total, o levantamento identificou 142 produtos agropecuários nos quais os agricultores familiares respondem por mais da metade do valor bruto produzido nacionalmente.
“Mesmo assim, a gente ainda observa, olhando para esses dados do estudo, que existe uma produtividade bem interessante, uma diversidade produtiva na agricultura familiar, mesmo com uma infraestrutura aquém do que se imaginaria”, afirma Virginia Antonioli.
Para a pesquisadora do WRI, os resultados indicam oportunidades para ampliar a produção e a geração de renda por meio de melhorias nas condições de acesso aos recursos produtivos.
As dificuldades, entretanto, não estão distribuídas uniformemente entre homens e mulheres.
Embora as mulheres estejam à frente de 19,7% dos estabelecimentos familiares brasileiros, apenas 11,2% das propriedades dirigidas por elas recebem assistência técnica, percentual inferior aos 19,9% registrados entre aquelas comandadas por homens.
A diferença é ainda maior na mecanização. Apenas 4,2% dos estabelecimentos dirigidos por mulheres possuem tratores, contra 13,2% daqueles sob comando masculino.
Também existem desigualdades relacionadas à estrutura fundiária.
Entre os estabelecimentos familiares dirigidos por indígenas, 70,8% possuem até cinco hectares. O percentual é de 51% entre aqueles dirigidos por pessoas pretas e 46,1% entre os comandados por pessoas pardas. Entre os estabelecimentos dirigidos por pessoas brancas, essa proporção cai para 28,6%.
Embora tenha sido realizado em 2026, o levantamento utiliza como principal base de informações o Censo Agropecuário de 2017 do IBGE, último disponível com esse nível de detalhamento.
A defasagem é reconhecida pelos pesquisadores como uma limitação, especialmente diante das mudanças tecnológicas e financeiras ocorridas nos últimos anos.
A realização de um novo Censo Agropecuário, prevista para 2027, é vista pelo WRI Brasil como uma oportunidade para atualizar o diagnóstico.
“É muito importante a gente ter essas análises presentes na construção de políticas públicas, no monitoramento da alocação de recursos, isso tanto recursos públicos quanto recursos privados”, afirma Antonioli.
Para a pesquisadora, compreender as particularidades regionais permitirá direcionar melhor os investimentos. Em algumas regiões, a prioridade pode estar na expansão do acesso a mercados; em outras, no financiamento e na assistência técnica.
A pesquisadora também defende a ampliação das informações coletadas e a integração entre diferentes bases públicas, permitindo análises mais precisas sobre as condições produtivas.
“A gente está procurando novas formas de olhar para a agricultura familiar, que por si só ela já é pouco discutida, ainda menos nas suas diversidades”, afirma.
Resumo
- Apenas 15,4% dos agricultores familiares acessam crédito rural, enquanto 18,2% recebem assistência técnica, diz levantamento da WRI
- Estudo indica que agricultura familiar reúne 77% dos estabelecimentos rurais do País, mas ocupa apenas 23% da área agropecuária
- Pesquisa também revela desigualdades regionais e aponta que mulheres enfrentam maiores dificuldades de acesso a recursos