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    AgTrace, de rastreabilidade, aposta em “associações” para ir além do algodão e do boi

    Empresa já possui parceria com Abrapa, que representa os produtores de algodão, e com o Sebrae, no café. Previsão é chegar às cadeias de mel, vinho e setor florestal, priorizando os projetos com entidades setoriais

    Gustavo Lustosa

    09/10/2024 19:55

    AgTrace, de rastreabilidade, aposta em “associações” para ir além do algodão e do boi

    Alberto Tormos, André Maltz e Luciano Tamiso, sócios da AgTrace

    Na startup AgTrace, que conecta informações de cadeias produtivas do agro e monitora padrões de qualidade, a meta é ganhar escala. E para isso, mais do que estruturar projetos com empresas, aposta em andar de mãos dadas com entidades setoriais.

    A companhia já está fornecendo a base tecnológica para que toda rastreabilidade que envolve a Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão) seja possível.

    No ano passado, cerca de 130 mil peças de roupas tiveram seu rastreio verificado desde a produção, fazenda, passando pelas fiações, malharias, tecelagens e até a distribuição por varejistas como Renner, Reserva e C&A.

    A AgTrace verifica e digitaliza os dados de todas as etapas de produção, e disponibiliza em uma plataforma própria. Segundo o CEO e cofundador da empresa, André Maltz, a startup utiliza a rastreabilidade como uma forma de gestão das cadeias produtivas. “Nós não só capturamos o dado e mostramos o resultado, mas validamos eles ao longo da cadeia”.

    Maltz cita que o objetivo da AgTrace é ser uma ferramenta que possibilite a integração de cadeias, empresas ou projetos setoriais. Nos próximos meses, a empresa deve iniciar projetos com entidades representativas e empresas ligadas à pecuária leiteira, produção de vinho e apicultura.

    Outro setor que está em conversas para projetos é o florestal, tanto no Brasil quanto na Argentina. “É uma cadeia super estruturada e grande, que já olhamos há bastante tempo. Nosso software já é multilíngue, com a mesma estrutura”.

    O CEO não divulga o faturamento da companhia, mas afirma que, do ano passado pra cá, deve mais que dobrar a receita.

    Além da Abrapa, a AgTrace atua junto com o Sebrae na Plataforma Origem Controlada de Cafés, uma iniciativa que visa dar uma identificação geográfica ao grão vendido.

    Maltz estima que hoje o Brasil possui 15 Indicações Geográficas (IG) para a cultura, que permitem com que o café seja embalado como “café do Cerrado Mineiro”, ou “café da Alta Mogiana” e assim por diante.

    Os quase 4 mil produtores envolvidos nesse projeto são ligados a diversas associações que representam a cultura, e a AgTrace entra para aferir que a denominação de origem e os dados de qualidade dos lotes estejam em conformidade com as exigências do mercado comprador.

    Nesse projeto, além da necessidade de se comprovar a origem do grão, todo café precisa ser considerado pelo menos especial.

    Outra cultura de forte presença da AgTrace é na pecuária. Hoje, a plataforma possui 22 protocolos que são homologados na CNA, que vão desde a raça até o sistema produtivo. “Nós somos a empresa de tecnologia que possibilita que esses projetos funcionem”.

    Fora de associações, ele conta que a AgTrace é responsável por fazer toda a rastreabilidade do Guaraná Antártica para a Ambev.

    “Toda produção do guaraná na amazônia é rastreada desde a fazenda, com informações agronômicas, socioambientais registradas, bem como o processamento na indústria. Várias camadas que, juntas, fazem a gestão da cadeia, com dashboards e sistemas”, afirmou o CEO da startup.

    Além da Ambev, a C&A é cliente da empresa, que cuida da rastreabilidade, além da cadeia do algodão, de toda a parte que envolve a viscose.

    Apesar disso, a AgTrace prefere apostar em projetos setoriais. “Você faz uma rastreabilidade muito efetiva trabalhando com clientes específicos, mas para atender às pressões de legislação e do consumidor, só conseguimos com articulação setorial. Não adianta cada empresa adotar um protocolo diferente, pois todos saem perdendo”, afirmou o executivo.

    A companhia também vê oportunidades de atuar em culturas mais comoditizadas, como a soja, onde Maltz revelou que existe um projeto em andamento envolvendo tokenização. A dificuldade, segundo ele, é a dispersão de protocolos entre tradings e grandes empresas do setor. “Para o mercado comprador, isso torna tudo mais difícil”.

    Antes de criar a AgTrace em 2019, André Maltz teve uma carreira no universo da tecnologia.

    Com curtas passagens no Google e na Cyrela, passou mais de cinco anos na IBM, onde passou a olhar para o mercado agro e para a cadeia de suprimentos, de forma a entender como aplicar tecnologia nesse universo. “Notei uma cadeia fragmentada e com dispersão das informações”.

    Ele exemplifica que, ao contrário de segmentos como o bancário, onde existe uma comunicação entre instituições, e o setor de saúde, onde facilmente hospitais, planos de saúde e farmácias dialogam entre si, o agro ainda estava muito atrás.

    “Várias etapas fragmentadas e com pouca digitalização. Isso, no fim das contas, causa uma ineficiência operacional gigantesca. A conversa que vemos hoje de agregação de valor e de pressão por mais transparência e sustentabilidade chegou depois”, afirma.

    Nesse processo de entender a cadeia, conheceu um de seus sócios, Luciano Tamiso, COO da agtech. Tamiso é um agrônomo que sempre atuou com rastreabilidade em cadeias agrícolas, e juntos, pensaram em como fazer algo de diferente do que era feito em outras companhias.

    Maltz conta que, de um lado, existiam negócios focados em criar sistemas para cadeias específicas, que traziam dificuldade em replicar para outras cadeias ou até mesmo outros clientes do mesmo segmento.

    Do outro, companhias que faziam uma “rastreabilidade horizontal”, mas apenas com dados superficiais. “Não tinham dados que o mercado exigia, como protocolos da fazenda, identificação e saúde de um animal, no caso da pecuária”, conta.

    A grande dificuldade é aglutinar os diversos protocolos que existem, sejam voltados para emissões de carbono, ou na parte genética, de sustentabilidade ou até sobre regulamentação fundiária. “Nossa provocação foi em criar um sistema replicável para várias cadeias e que consiga ser flexível para captar informações variadas”.

    Foi nesse momento que Alberto Tormos, um engenheiro que veio da Solinftec se juntou ao time, e a companhia nasceu.

    Diferentemente de outras startups, a AgTrace optou por um autofinanciamento. Sem rodadas de investimento até aqui, a companhia foi crescendo com suas vendas para clientes. “Uma empresa sobrevive de dois jeitos: levantando capital ou achando um cliente grande que pague a conta”, afirma o CEO.

    No caso da startup, a segunda opção foi o caminho, e o cliente foi justamente a Abrapa, o projeto mais antigo da agtech.

    Apesar disso, Maltz cita que conversa regularmente com fundos de investimento, e em um “momento certo”, pode abrir uma rodada. Os recursos captados serviriam, segundo ele, para melhorar ainda mais a tecnologia embarcada e também para escalar equipe comercial em busca de outros projetos.

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