Durante décadas, a queima da palha fez parte do manejo da cana-de-açúcar no Brasil, facilitando o corte manual e permitindo ganhos de eficiência no momento da colheita.
Com o avanço da mecanização e das exigências ambientais, esse modelo ficou para trás. As colhedoras passaram a ocupar o espaço dos cortadores nos canaviais e mudaram profundamente a forma de produzir cana no País.
Para Giuliano Beggio Francischini, porém, o futuro da cana-de-açúcar ainda estava – e está – por ser plantado.
Foi essa a leitura que o empresário fez há alguns anos, ao assumir a operação agrícola de sua família, a Beggio Lorenzo Agropecuária, que cultiva 300 hectares de cana-de-açúcar em áreas próprias na região de Matão, no interior de São Paulo, e é fornecedora da Raízen.
“Quando a gente olha para a cana-de-açúcar, nós estamos falando de mais de 500 anos com as mesmas produtividades. Se a gente não fizer de forma diferente, não vamos ter resultados diferentes”, afirma Beggio Francischini, em entrevista ao AgFeed.
Na visão do executivo, o próximo salto viria de mudanças na forma de manejar o solo e o ambiente produtivo.
“Quando assumi as fazendas, pensei em adotarmos a agricultura regenerativa, primeiro, porque é certo. Segundo, porque o planeta precisa. E terceiro, porque vai gerar mais resultado ao meu negócio”, diz.
Sob a gestão de Beggio Francischini, a regeneração passou a ser tratada como parte da estratégia dos canaviais da família, com foco em elevar a produtividade, preservar a capacidade produtiva do solo e melhorar a rentabilidade da operação.
A lógica começa debaixo da terra. "Tudo aquilo que não é medido não é gerido", filosofa Beggio.
Hoje, na gestão da operação agrícola, o executivo utiliza análises e mapeamentos para definir o manejo de cada área, avaliando fatores como matéria orgânica, microbiota, fertilidade, conservação do solo e disponibilidade de água.
A partir desses indicadores, são tomadas decisões sobre reposição de matéria orgânica, ajustes na aplicação de NPK, uso de fertilizantes organominerais e combinação entre o uso de defensivos químicos e de produtos biológicos.
No entorno dos canaviais da Beggio Lorenzo, foram plantadas mais de 160 mil árvores para que as plantas tivessem acesso a um microclima mais favorável. “A gente fez um corredor verde na região, inclusive indo muito além do que os 20% de preservação permanente que a lei pede.”
Todo esse “arsenal” de soluções tem se refletido em resultados no campo, comemora Beggio Francischini. “Tem valido a pena o esforço.”
Na última safra, a Beggio Lorenzo alcançou produtividade média de 129,15 toneladas de cana por hectare, com ATR de 141 quilos por tonelada. O resultado equivale a 18,26 toneladas de açúcar por hectare.
A titulo de comparação, duas grandes companhias do setor sucroenergético, Jalles Machado e São Martinho, tiveram na última safra um ATR médio, respectivamente, de 139,3 quilos e 139 quilos por tonelada, menores, portanto que o atingido pela operação da Beggio Lorenzo.
"É uma das maiores médias do Brasil", ressalta Beggio Francischini. “E essa é a prova de que sustentabilidade não é uma agenda que traz apenas retorno ambiental ou midiático. Traz retorno financeiro, ela traz ROI por negócio.”
Produzir dessa forma, no entanto, não significa gastar menos. Beggio conta que a empresa investe cerca de 33% mais na implantação da cana-planta do que a média do mercado e aproximadamente 60% mais no manejo da cana-soca. O custo chega a aproximadamente R$ 20 mil por hectare no plantio e R$ 5,5 mil por hectare na soqueira.
A conta fecha, segundo Beggio Francischini, pela produtividade e pelo retorno sobre o capital investido. "O ROI é de 35%. Ou seja: exige capital a ser investido, mas também traz uma rentabilidade interessante", avalia.
A experiência construída nas próprias fazendas também passou a ocupar espaço na atuação de Beggio Francischini fora da empresa.
O executivo integra o conselho deliberativo da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana) e ocupa a diretoria executiva da Associação dos Plantadores de Cana da Região de Jaú (Associcana), que representa cerca de 55 mil hectares na região de Jaú.
Mais recentemente, passou a integrar também o comitê da Frente Empresarial para a Regeneração da Agricultura (FERA), movimento criado no ano passado para promover a adoção de práticas regenerativas no campo.
“Sustentabilidade não é uma agenda que traz apenas retorno ambiental ou midiático. Traz retorno financeiro, ela traz ROI por negócio.”
Para Beggio, um dos diferenciais da iniciativa é reunir produtores e empresas que já estão tentando transformar os conceitos de regeneração em práticas de manejo.
“É um comitê que me chamou a atenção por ser composto por pessoas que estão, de fato, adotando práticas regenerativas, e não apenas na teoria. Converge com o meu propósito”, afirma.
Na avaliação do executivo, a pressão sobre as margens e o aumento dos custos deverão acelerar essa mudança no setor sucroenergético em geral.
"O setor também passa por um darwinismo, onde para sobreviver, é necessário que se adapte ao novo cenário.", diz.
Para Beggio Francischini, o caminho para a adoção de práticas regenerativas pelos produtores de cana passa por um manejo integrado, com a escolha de tecnologias de acordo com as necessidades de cada área, o momento correto de aplicação e, sobretudo, o retorno econômico proporcionado por cada decisão.
A Beggio Lorenzo também pretende ampliar a operação agrícola nos próximos anos, mas não muito, revela Beggio. “A gente não tem o complexo de ser gigante. A gente quer continuar sendo rentável”, diz.
O principal negócio da família é a indústria de confecções Elite, focada em produção de material esportivo. “A cana acaba sendo 3% do faturamento do grupo, mas é 100% do meu coração”, brinca.
A ideia, portanto, é manter a lógica que passou a orientar a operação: investir mais quando isso significar produzir melhor e preservar a rentabilidade.
“Sustentabilidade é muito mais do que abraçar árvore. Sustentabilidade é retorno financeiro, é ROI, é retorno para o próprio negócio”, conclui Beggio.
Resumo
- Regeneração virou estratégia de negócio na Beggio Lorenzo, com foco em produtividade, solo e retorno no cultivo de cana
- Operação da empresa soma 300 hectares de cana-de-açúcar na região de Matão, no interior de São Paulo
- Na última safra, a Beggio Lorenzo alcançou produtividade média de 129,15 toneladas de cana por hectare, com ATR de 141 quilos por tonelada