O fertilizante é hoje um dos maiores desafios de caixa do agricultor brasileiro. No algodão, essa pressão é ainda mais intensa, pois o insumo pode responder por até 35% do custo de produção da cultura.

Apesar disso, o diretor de fertilizantes da AgriConnection, Rafael Almeida, acredita que, diferente dos produtores de outros cultivos, o cotonicultor deve manter a mesma postura de outros anos, mesmo diante dos preços elevados do insumo.

"O produtor de algodão não vai economizar. Vai sim racionalizar, porque no final do dia o que importa para ele é produtividade com qualidade de pluma", afirmou ele em entrevista à série SpeedCast, produzida pelo AgFeed, em parceria com a AgriConnection, e gravada durante o Congresso Brasileiro do Algodão, realizado em Belo Horizonte.

O ponto de partida da análise de Almeida é a natureza da cultura. O algodão demanda muito fertilizante, com estrutura vegetativa e reprodutiva igualmente grandes — o que faz de nitrogênio, fósforo e potássio insumos altamente demandados.

"O produtor tem que interagir com os três elos da cadeia de fertilizantes: os nitrogenados, os fosfatados e os potássicos", explicou.

O diferencial do cotonicultor, segundo ele, é o olhar de sistema. Quem planta algodão em sucessão a soja e milho — e, em muitos casos, em áreas irrigadas com até duas safras e meia por ano — calcula com detalhe a reserva de fósforo e potássio do solo e procura equilibrar as exportações de nutrientes entre as culturas.

"O produtor realmente olha o sistema de produção e procura fazer o maior equilíbrio de nutrientes para a cultura do algodão", disse. É esse equilíbrio que transforma a escolha técnica de adubação em decisão de resultado financeiro.

O peso no bolso

Os números dão a dimensão do desafio. Em desembolso de caixa, o custo do fertilizante pode representar mais de R$ 4.500 por hectare — o que faz um produtor de mil hectares consumir quase R$ 5 milhões em fertilizantes. "Isso se torna um desafio para ele", resumiu Almeida.

No cenário atual, segundo o executivo, o fósforo é o elo mais sensível. A situação geopolítica elevou o preço do nutriente e, ao longo de 2026, a cadeia nacional de fosfatados enfrentou um gargalo no fornecimento do enxofre, insumo que saiu de US$ 200 para US$ 1.200 a tonelada.

"Essa cadeia ficou bastante comprometida", reconheceu Almeida, que relatou a necessidade de planejamento intenso e, em alguns momentos, de tomar posição comprando antes de vender para garantir suprimento.

O Brasil, segundo ele, não chegou a ter desabastecimento, mas viveu momentos críticos — com o produtor de soja, em especial, tendo que economizar fosfatado e usar o fósforo do solo.

O que esperar do fim de 2026 e de 2027

Para o último trimestre, o executivo descreveu um mercado desafiador. Cerca de 40% do mercado de safrinha ainda não travou compras de fertilizantes — por incerteza climática ou pelo preço do insumo —, e o produtor brasileiro segue atento à relação de troca entre o preço do fertilizante e o preço da commodity.

Nas últimas quatro semanas, segundo Almeida, as vendas de potássio subiram com força. Com a relação de troca do cloreto de potássio por saca de soja em patamar interessante, o produtor já começou a comprar o insumo para a safra 2027/2028.

Assim, o momento é de ebulição no setor, que, de acordo com ele, "está entregando verão, comercializando e já iniciando as entregas de safrinha e comercializando potássio para a safra de soja 27/28".

Para o fósforo, porém, o cenário segue incerto. Almeida acredita que "vai ficar para o segundo tempo" na safra de soja 2027/2028. Já no nitrogênio, a ureia subiu mais de US$ 80 nas últimas quatro semanas, o que impactou também o sulfato de amônio chinês e reforçou a migração do produtor da ureia para o sulfato, que, além do nitrogênio, entrega enxofre.

A recomendação final de Almeida aos produtores é de planejamento e racionalidade: conhecer a origem do nutriente, garantir que a logística do porto à fazenda caiba na janela de produção e tomar decisões de compra baseadas na relação de troca.

O modelo AgriConnection

Mais conhecida pela comercialização de defensivos, a AgriConnection vem ganhando relevância também no segmento de fertilizantes, com um modelo próprio, que, como explicou Almeida, não é o de uma fabricante nem o de uma distribuidora pura.

"A AgriConnection mantém a missão dela, que é conectar quem produz com quem consome. Nos fertilizantes não foi diferente", afirmou.

A empresa busca diferentes fontes no mercado mundial — mineradores e traders de nitrogênio, fósforo e potássio — e monta uma cadeia de suprimentos de várias regiões do mundo para oferecer ao cliente a melhor fonte, com disponibilidade e competitividade comercial no momento em que o produtor trava as compras.

O trabalho é feito majoritariamente com fertilizantes “nacionalizados”. Almeida usa o termo para classificar o produto que é produzido no Brasil ou que chega ao porto já em preço FOB nacionalizado competitivo, vindo de fornecedores fortes no elo de importação.

"A nossa equipe trabalha muito com inteligência de mercado para fazer a leitura, principalmente da relação de troca, do preço do ponto e da disponibilidade daquele produto naquele momento", detalhou. O estudo é mercadológico e logístico, para o produto certo chegar à fazenda no momento certo.

Entre os fornecedores citados por Almeida estão a JBS Co-trade, do grupo JBS, a Mosaic Fertilizantes, OCP, Eurochem, Yara e a nacional Fertipar. No portfólio, o destaque do ano foi o sulfato de amônio, o produto mais comercializado pela companhia, seguido por ureia, MAP, super triplo, super simples e cloreto de potássio.